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segunda-feira, 24 de março de 2014

A Queima dos Livros


Popol Vuh - Livro Sagrado dos Maias                   América do Sul

"Aqui começa a antiga lenda dos Quchés, aqui se descreve o início e as origens de tudo o que aconteceu na cidade e com o povo dos Quichés."                                                -  Popol Vuh -

Que mistérios e segredos não nos seriam desvendados se não fosse a incúria, desonra e arrogância maldita daqueles que, em nome de Deus, empunharam suas tiranas mãos em demanda terrível na queima destes sagrados livros dos Maias? Do que resta, poder-nos-à elucidar da origem do ser humano e de toda a sua luta homérica entre as forças da vida e da morte e, nas quais os deuses estariam sempre presentes?

Livros Misteriosos dos Maias
Popol Vuh - Uma epopeia que nos dá a conhecer o mito sobre a criação do mundo e, dos seres humanos em que os Maias da América do Sul acreditavam. A obra de Popol Vuh hoje em dia, é tida como a mais importante fonte de conhecimento acerca da religião dos Maias das terras altas do Período Pós-Clássico.
O Popol Vuh foi escrita por um indígena na língua Maia, mas com caracteres latinos. Foi devido ao padre dominicano Francisco Ximenéz que este texto não teve o mesmo destino que tantos outros, que foram queimados pelos missionários, deixando-o assim à disposição dos vindouros.
Francisco Ximénez chegou em 1688 à Gautemala - quando ainda era um jovem - aí foi ordenado padre e rapidamente aprendeu diversos dialectos Maias, uma vez que nutria um interesse sincero pelos indígenas e, pela sua imensa cultura. Em contrapartida, foi recompensado com a confiança que as populações indígenas nele depositavam, razão pela qual lhe apresentaram o «Popol Vuh», por assim dizer a sua Bíblia.
Francisco Ximénez ficou então deveras surpreendido ao encontrar no texto dos Quichés um relato acerca da criação do mundo e que, se assemelhava em parte, ao existente no Antigo Testamento. Até mesmo a um dilúvio era feita referência, bem como a uma travessia do mar e, a uma estrela brilhante.

A Migração dos Quichés
Originalmente os Quichés viviam na região em redor da cidade de Tula - a Norte da actual cidade do México - integrando-se no grupo dos povos Toltecas. No século XIII d. C. migraram para as terras altas dos Maias na Guatemala, onde se deu uma batalha decisiva com os habitantes dessas terras. Após a vitória dos Quichés desenvolveu-se uma nova sociedade, na qual a cultura guerreira dos Toltecas se fundiu com o temperamento mais pacífico que caracterizava os Maias. Divididos por 14 tribos, que usavam dialectos diferentes, os Quichés povoaram assim as terras altas. Em 1524, os conquistadores espanhóis destroçaram o reino dos Quichés e a sua capital, Utatlán.

Os Gémeos Divinos
Na primeira parte do Popol Vuh é relatado o mito da criação dos Quichés. Em primeiro plano encontra-se o combate realizado pelos heróicos gémeos Hunahpú e Ixbalanqué contra as sombrias forças do mundo inferior. Importância assume também o mito, em redor daquele que era o principal alinhamento das populações da América Central, o milho. A segunda parte desta epopeia conta a história dos Quichés, das suas migrações, das suas guerras, cidades e reis.
No Popol Vuh é relatado como as duas primeiras criações do ser humano são rejeitadas. O primeiro exemplar de um ser humano não era capaz de se lembrar de todo o contexto da criação, ao passo que o segundo despreza completamente a sua ligação à Natureza. A Natureza vinga-se então através de um dilúvio universal e, convocando ainda uma revolta dos animais contra os seres humanos. Particularmente emocionante é o modo como depois é relatada a entrada em acção dos dois gémeos heróicos, Hunahpú e Ixbalanqué, nascidos de uma virgem. São atraídos pelas forças tenebrosas ao mundo inferior, onde terão de medir forças com os senhores da morte num jogo de bola sagrado.
Com muita astúcia, esperteza e habilidade conseguem assim superar uma série de provas em que jogam entre a vida e a morte. Em vez de morrerem, os dois jovens renascem depois de se sacrificarem voluntariamente, vencem as forças do mundo inferior e, transformam-se no Sol e na Lua. O mito narra a vitória das forças da vida sobre as forças da morte. Este ciclo de narrativas em redor de Hunahpú e Ixbalanqué conta-se indubitavelmente como um dos mais impressionantes da literatura mundial.

A Mudança das Ideias Religiosas
A aventura dos gémeos heróicos Hunahpú e Ixbalanqué na sua luta contra as forças da morte encontra-se representada em diversos vasos pintados. Outros elementos da cultura religiosa (por exemplo, as cabeças usadas como troféu ou o culto dos embrulhos da cariz religioso, nos quais eram guardados os ossos dos antepassados para serem venerados) surgem já em representações da Época Clássica dos Maias das terras baixas. Tal como surge referido no Popol Vuh, os Quichés pós-clássicos da Guatemala adoravam o deus Tojil. Este tinha para os Maias pós-clássicos do Iucatão um carácter divino semelhante ao do deus da chuva Chac, cuja representação ornamentava as fachadas dos edifícios mais importantes.
O Período Pós-Clássico consistiu numa fase de mudança nas aldeias religiosas. Das concepções religiosas dos Toltecas do México Central, os Maias pós-clássicos das terras altas receberam e adoptaram como seu, o deus da Morte e do sacrifício humano, Xipe Totec, bem como o deus Serpente Emplumada, a quem chamavam «Q`uq`ku-matz» (Quetzalcóatl). Ainda assim as suas ideias religiosas e os mitos que se explicavam, mantiveram-se muito próximos dos do Período Clássico, tendo-se assim mantido também até ao presente.

A Queima dos Livros
Diego de Landa ficará na História pelas piores razões: em Julho de 1561, o bispo de Iucatão de seu nome e berço Diego de Landa (1524-1579), mandou queimar diversos códices dos Maias. Esta terrível acção de destruição da herança cultural dos povos indígenas - e é por ele justificada no seu livro "Relación de Las Casas de Iucatán" do seguinte modo: "Estes povos usam também uma espécie de sinais gráficos, com os quais preenchem os seus velhos livros e, aí tomam nota dos seus negócios e questões científicas desde há muito. Com base nestes sinais  e em desenhos e, ainda em determinados sinais nos desenhos, entendiam-se em relação aos seus assuntos - tornavam.nos compreensíveis a outros e forneciam ensinamentos sobre eles. Encontramos uma grande quantidade de livros com esses sinais e, como estes mais não continham do que superstições - e as mentiras do Diabo - queimámos-los todos, algo que esta gente lamentou de um modo incompreensivelmente intenso e que lhes trouxe muita dor."
Foi deste modo cínico e assaz déspota que Diego de Landa e muitos outros missionários cristãos tentaram «libertar» os Maias das suas tradições diabólicas...ficando para a História o expurgo miserável e irrecuperável em toda a sua dimensão do que o Homem pode fazer mesmo contra si próprio e, à sua imensa cultura universal! Sem delongas, apenas nos resta acrescentar que não possuindo esse maravilhoso espólio que incinerado ficou, haverá por certo em tradição de gerações vindouras - do que se conhece dos Maias - toda uma continuada reprodução dessas suas histórias em cultura e vivência.
Popol Vuh e Chilam Balam, códices-base de toda a investigação da cultura Maia, em expressão escrita do que podemos extrair na ilação cósmica e universal da criação do Homem, sendo para as gerações futuras algo a reter e a considerar tanto nas forças da vida como da morte que ainda hoje nos suscitam respeito, temor e consideração. Não esqueceremos a cultura Maia nem os seus livros sagrados, os que ficaram e...os que arderam na imensa fogueira humana da ignorância e, da incompreensão! A bem do conhecimento, assim seja então!