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sexta-feira, 21 de março de 2014

A Esperança II


Figura na rocha de Nossa Senhora - Mãe do Céu e da Terra e de todo o Universo - Serra da Estrela - Portugal

Poderei sobreviver a esta angústia no peito que me depõe em lágrimas como humana que sou em vias de extinção, escorraçada por tantos no Universo, sentindo-me diminuída, substituída e pior, sonegada do Grande Conselho Confederativo Galáctico? E Siul, que culpas não tem sobre a minha destituída linhagem, sofrerá ele também as amargas consequências da sua união comigo?

A Punição
Há regras. Há imposições dadas e arremessadas pela Nova Ordem da Confederação Galáctica das quais eu faço parte e me não resignei, sublevando valores, princípios e assomos meus de total incoerência e obstinação sobre tudo o que queriam que eu seguisse. Nem o sábio-mor esteve do meu lado, não por sofrer iguais represálias se acaso me auxiliasse mas, por eventualmente não querer quebrar esse grande elo de preservação e continuação de guardião-mor que é nos demais. E teve razão. Eu não o podia sujeitar a desrespeitar regras universais que a todos nós foi imposto de nos não imiscuirmos ou induzirmos nas condições de outros que não os da nossa espécie. Siul é proveniente de Alpha Centauri e muito diferente dos da minha raça ou espécie humana quase extinta na Terra. Veio em missão após deixar Marte, o planeta satélite, planeta-base onde estava a trabalhar, coexistindo no mesmo sistema solar do meu planeta Terra.
O primeiro olhar foi quase fatal. Eu fazia investigação biológica para as futuras repercussões agrícolas e de sementeiras no solo terrestre em combinação com outros elementos meus amigos e colegas do mesmo ofício mas, em vertentes de engenharia e produção em massa. Não era feliz nem infeliz. Sabia ter de me esforçar por devolver à terra em solo e à Terra-planeta a nova existência de outros produtos férteis, de outras descobertas análogas aos que um dia este meu amado planeta tão viçosamente recolheu em si. Mas quando vi o Siul tudo mudou. Desestabilizei por completo a minha cuidada atenção, a minha audaz persistência e loquaz pesquisa de intervenção sobre essas minhas teses de estudo e verificação. Quase dei tudo por perdido, só por ter-me deixado por instantes observar ou...perder-me naquele brilhante olhar de cor verde, cor de prados e planícies em que me distingui logo sua. E ele também! Daí à punição foi um pequeno passo mas enorme para mim que de repente o vi levarem-mo para sempre, julgava eu. A Confederação não perdoa deslizes, falhas, distracções, leviandades e muito menos traições. Fui trasladada de imediato para outra cidade capsular, algures fora do planeta mas que me apercebi ser solo lunar. A estrutura prisional era deveras rigorosa e hermética. Ninguém de lá saía a não ser com um visto interestelar de importância máxima em superioridade ou hierarquia velada. Eu estava perdida. Irremediavelmente perdida, pois não tinha quem me valesse a não ser as minhas preces, as minhas orações que trouxera em pequeno livro, o único espólio ou bem deixado pelos meus pais terrenos sem que eu deles me recordasse sequer. Fui feita prisioneira sem honras ou compleição, piedades ou clemências de qualquer tipo de elemento ou existência galáctica. Estava só com a minha dor, a minha alma ferida e... o meu filho no ventre que sancionada por isso, eles ainda me haveriam de respeitar, perdoar e até elevar se o Deus Universal acaso suspeitasse de minha linhagem estelar! E isso...estava para breve acontecer, ainda que a minha alma me gritasse que eu penaria até as minhas ossadas latejarem por entre os escombros metálicos e frios daquela minha asséptica cela de ninguém!

O Perdão
Houve tomadas de posição. Houve mexidas nos corredores, ainda que a sonorização fosse quase uma masmorra ímpia e cerrada de poucos ecos e ainda menos sussurros, o certo é que suspeitei de que algo iria surgir em meu apelo calado, em minha agonia tresloucada de me ver emparedada à semelhança de infelizes princesas mortas nas Arábias da Antiguidade no meu planeta azul que agora era mais verde, tão verde como os olhos do meu para trás deixado, amado. E eu sofria. Latejava em cabeça pendente e em forças deslaçadas de um qualquer salvador me vir soltar, desamarrar desta tristeza, desta imensa letargia em que me encontrava suspensa. Até que o milagre veio. Fui admitida como elemento a integrar as novas forças e energias do Universo em uma nova oportunidade de vida e continuação em solo terrestre, pois que aí era a minha origem e proveniência, colo e berço, ainda que pouco ou nada desse tempo me lembrasse. E fui solta.
Só queria fugir mas sabia não poder tal. O Conselho de Confederação Galáctica ultimou-me de que teria de viver com parcos recursos na Terra e ser quase uma espécie de eremita ou sem-abrigo, tendo de viver do que a terra me daria, tendo de subsistir apenas com o que o Céu me presenteasse em chuva e água potável para beber, um solo de caverna para morar e...umas quantas espécies de sementes para semear. Nada mais! O perdão era mais um castigo do que uma absolvição em historial inquisitivo do que me dei ares de conquistar, quebrando as suas ordens e, limitando-me a seguir as minhas. De pouco me importei de início. Só queria de dali sair em espaço, vontades e obrigações de voar para longe, de voar para a minha bela terra de campos agora mais abertos e vida a despontar. Mesmo que, sozinha! Mas recordava os nossos momentos, meus e de Siul em que ele me abraçava em todo o seu portentoso e másculo físico, denotando-se a diferença entre ambos. Os seres de Alpha Centauri são belos, muito belos! São altos, de porte atlético e de inteligência acima da média universal. Era muito fácil apaixonarmos-nos por estas criaturas endeusadas e magnificentes que por vezes sentíamos olharem-nos com um certa indiferença e mesmo displicência, tal a sua superioridade física e, intelectual. Não me deixei atemorizar com essa tão fraca perspectiva de nem sequer dele obter um vago olhar, batalhando por chamar a sua atenção deste sobre mim até o ter conseguido da pior maneira possível em que esbarrei literalmente contra si, fazendo-o desequilibrar mas não estatelar, pois era muito forte, tão forte quanto os touros Ápis de outrora, considerei. A partir daí ele foi meu e eu dele, levando-o a incondicionalmente a desrespeitar as suas próprias regras de se não misturarem em mestiçagem com «gente da Terra»! Mas misturou-se. E, no meio de valsas de cio e luxúria não inconsequente, fizemos um filho! Sentia-lhe o cheiro, sentia-lho o odor e o desejo fervoroso de estar em mim e eu nele e tudo eu lhe concedia em amores que nunca havia tão intensamente vivido numa fragrância mista e mítica de dois seres no Espaço, de duas almas dissonantes mas confluentes no que ambas queriam, desejavam e...amavam.

A Elevação
Deixaram-me na Serra que outrora tivera o nome de «Serra da Estrela», ao qual senti um frémito de ansiedade e de bom prenúncio, assim que vi a Nossa Senhora de pedra em altiva mas apaziguadora atmosfera de me recolher no seu seio de mãe presente. Chorei sobre a pedra, chorei sobre os meus tristes ditames de terrestre maldita que tinha levado por maus caminhos aquela espécie de deus-astronauta do planeta Alpha Centauri. Todos se me tinham oposto: desde os pacíficos e amistosos líderes das Plêiades, Orions, Sirius, Comsulis aos mais desafectos e tenebrosos Zeta Reticuli e Pousetis, todos eles me consignaram um triste destino, deixando-me apenas insinuar o local onde deveria ser pousada e mais tarde localizada por eles. Não dava mais para gesticular, argumentar ou sequer apelar às suas boas consciências estelares pois que, quem quebrava regras, tinha de se sujeitar ao julgamento final não de eliminação pessoal - pois esse era um hábito primitivo e jamais incluído nas suas muitas alíneas instituídas da Confederação Galáctica - mas antes, o desterramento, o exílio, o «Gulag perfeito» de alguém que se tinha injuriado a si mesmo, se tinha debelado por algo completamente inaceitável e nada tangível de todos esses capitais regulamentares de uma Confederação impiedosa! Aceitei a minha condição então de desterrada. Nada mais havia a fazer senão rezar de frente àquela minha Nossa Senhora ancestral que já muito vira porventura de desamparo e, sofrimento. A sós!
Mas só não fiquei. Ele veio. Contra tudo e contra todos, limitou-se a aventurar um novo mundo comigo e, por mim, disse-mo. Não lhe importava quem eu era, uma simples e saloia terrestre que apenas sabia de plantas e seus processos evolutivos moleculares e de desenvolvimento e...nada mais. Beijámos-nos e a Senhora de Pedra sorriu para nós, lá do alto do seu pedestal em santuário na rocha, consignando-nos o seu aval de piedade e clemência, beatitude e consagração a duas almas que se unem por amor, independentemente de regras pré-estabelecidas ou convénios de civilizações estelares!
Meses mais tarde veio a libertação, a fiel e devota absolvição de todas as culpas, de todos os pecados: o Conselho da Confederação Galáctica, assumindo erros e desculpas - porque nem mesmo eles estão acima das leis universais e, de alguma falha em brecha e disfunção estelar - e consagraram-me também eles, o ser de novo livre ou remetente de qualquer outra punição, castigo ou condenação que não fosse limpar o meu nome Aleunam de todas as injúrias sobre mim pungidas. Eu era descendente de Enki e de Ninmah e meu filho Anu se chamaria então, decidi desde sempre, no que seria o fiel seguidor deste em herança dinástica, genealógica e futura identidade do que me viu ser como humana e senhora do mundo em Universo finito ou infinito, consoante o Uno o desejasse também. Prometi a mim mesma: vou ser feliz! Vou ser muito feliz com Siul, Anu e o Céu e a Terra que nos unem e unirão para sempre. E por agora vou deixar esta escrita em diário futuro pois que Siul chegou, estou a ouvi-lo...estou a senti-lo nos passos e...na respiração que é a minha também do ar que é nosso em espaço-terra-ar e toda a matéria envolvente de nós os dois. É o amor da minha vida e com ele irei até ao mais escuro do Universo, ao mais reluzente sistema solar de estrelas ímpares...irei para onde ele for porque ambos somos um só ainda que...individualmente! Sou uma mulher muito feliz! Fui abençoada por Deus-Uno e por todas as estrelas, planetas e galáxias do meu lindo Universo!