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sábado, 15 de março de 2014

A Grande Serpente



De acordo com a lenda, o deus Quetzalcóatl terá ascendido a Vénus sob a forma de uma serpente coberta de plumas. Aquando do seu nascimento terá eliminado os seus inimigos com a ajuda de uma serpente que cuspia fogo. Que terá assim de tão enigmático, mítico ou profundamente poderoso esta espécie animal que levou povos, reis e deuses tanto a temê-la como a venerá-la?

O Símbolo da Serpente
Nas culturas primitivas da América, as serpentes assumiam a preponderância como seres mitológicos e, sobrenaturais. Na mundivisão dos seres humanos de então, estas estavam em combinação com a chuva e a água, mas também como Céu e o relâmpago. Tão poderosa era a religião da serpente que, no meio de algumas etnias, ainda nos nossos dias se mantém viva, permitindo assim um derradeiro vislumbre do mundo dos enigmáticos mitos.

O Domínio da Serpente
A noção fantástica de uma serpente exercer o domínio sobre as forças da Natureza, é algo profundamente enraizado na História da Humanidade. Já os Olmecas, que por volta de 1000 a. C. povoaram a América Central, conheciam a Grande Serpente como sendo a responsável pela distribuição da chuva e, da alimentação. Costumavam imaginar esse animal mítico com um corpo de serpente e uma cabeça humana. Ao contrário das noções religiosas predominantes na Europa, onde a serpente se assumia como um símbolo do mal e do perigo, na América era tida como um ser que fornecia a alimentação necessária, cuja forma era limitada através do arranjo de colinas de terra de enormes proporções, sendo também representada em recipientes dourados utilizados em cultos agrários.

Crença na Serpente
Ao entrar em contacto com os Chorti da Guatemala na década de 1960, o etnólogo francês Rafael Girard deparou com os descendentes do histórico povo dos Maias, os quais ainda hoje se dedicam em cerimónias de fertilidade em que, veneram a serpente. Na água borbulhante de uma fonte sagrada ocorre o sacrifício de uma galinha, a qual, de acordo com a cabeça dos Chorti, será engolida pela serpente divina «Noh chih chan». É ela a guardiã da água e jamais pode abandonar este local, pois foi aí presa por uma corrente dourada a um poste de prata. Se depois da atribuição da oferenda a água se torvar, tal é interpretado como um sinal de que se aproxima um bom Inverno: a serpente mítica escutou as preces e, irá enviar a tão suplicada chuva.
Relatos da autoria do conquistador espanhol Diego de Landa, do século XVI, confirmam que estas práticas deverão ser muito antigas. Neles o autor descreve um Templo Maia, no qual se encontrava um ídolo: uma serpente comprida e grossa, feita de pedra e coberta com sangue de oferendas.

O Deus da Serpente Emplumada
Também alguns povos vizinhos dos Maias - como os Toltecas e os Astecas - se dedicavam ao culto da serpente. Assim, os Toltecas (950-1150 d. C.) adoravam o deus Quetzalcóatl (Serpente Emplumada), que sob a forma de uma serpente coberta de penas, ascendera a Vénus, de onde ainda no século XVI o povo que lhes sucedeu - os Astecas - aguardava o seu regresso. Por essa razão, o conquistador Hernán Cortez foi tomado pelo deus-serpente messiânico, deixando-o os Astecas avançar pelo seu império sem oferecer qualquer resistência. Quando os conquistadores espanhóis e os missionários trouxeram o Cristianismo para a América, eliminaram um dos cultos mais importantes jamais imaginados pela mente humana.
Só em regiões da Guatemala muito distantes e remotas é que esta religião da serpente se manteve activa até aos dias de hoje, os mesmos em que se praticam voos espaciais e, se tem a fluência da Internet...

Cultos da Serpente
Durante milénios a América esteve sob o signo da serpente. As culturas mais antigas, como as de Tiahuanaco (Peru, cerca do século V. a. C.), representavam em portões de pedra e, recipientes, os seus deuses celestiais munidos de ceptros em forma de serpente - símbolos claros do seu poder.
Símbolos semelhantes podem ser encontrados em rochas na região de Toro Muerto, no Sul do Peru, que se julga terem sido feitos há cerca de 1200 anos. Aí os blocos de pedra surgem cobertos de relâmpagos cintilantes, serpentes e figuras de cujas axilas nascem víboras.
Estudos revelaram que os artistas poderão ter querido representar dançarinos num culto de fertilidade em honra da serpente, já que ainda hoje os Hopis da América do Norte levam a cabo rituais parecidos. Os Hopis acreditavam que a serpente era aparentada com o relâmpago, por assim dizer o mensageiro da chuva. No decurso da dança, os sacerdotes põem cascáveis entre os dentes, conjurando assim o espírito da serpente.

No Templo Mayor - o templo principal dos Astecas - na actual cidade do México, de ambos os lados da grandiosa escadaria figuram os corpos enrolados de serpentes, cujas enormes cabeças espreitam. Aquando do seu nascimento, o deus Quetzalcóatl terá eliminado os seus inimigos com a ajuda de uma serpente que cuspia fogo. Serpente...ou algo mais, nunca o saberemos mas perspectivamos então nesta sequência exacta de serpentes poderosas, a efectivação e veneração sobre as mesmas. Portentosas, endeusadas e faladas através dos tempos nem sempre da melhor forma, este animal subreptício em toda a acepção da palavra, conduz-nos na História e, em toda a sua envolvente aura, de algo muito ascendente e talvez também em correlação com os ditos deuses visitantes que os povos de outrora assim apelidavam. Teriam sido então meras divindades da fertilidade e das chuvas ou algo mais em transcendência ou sequer elementos adjuntos desses deuses na Terra? Talvez nunca o saibamos mas...suspeitaremos sempre da sua verdadeira origem que não eficácia, pelo que ficou provado na própria História documental. Pois que sobrevivam ao mito e à sua grandeza de serem tão somente mais uma espécie no nosso belo planeta azul. E para sempre assim seja!