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segunda-feira, 17 de março de 2014

A Cultura dos Talaiotes


Construção Megalítica - Sul de Artá            Baleares/Maiorca            Espanha

Que finalidade teriam tido estas edificações, unindo o Céu, a Terra e o mundo inferior? Revelariam motivações míticas e religiosas em processos rituais de iniciação ou muito mais do que isso em confluência do cosmos aí imbuído no «útero da Mãe-Terra»?

O Enigma dos Talaiotes
Quando os turistas que se deslocam a Maiorca vão e vêm para o aeroporto de Palma, poucos são aqueles que se dão conta de que estão a passar junto a alguns dos mais importantes lugares sagrados da chamada cultura dos Talaiotes. Mesmo ao lado da auto-estrada de acesso ao aeroporto, encontra-se o que resta da torre sepulcral de Son Oms e, um santuário rectangular. Pertencem todos a um grande complexo religioso, um templo que hoje em dia já só existe nos livros de arqueologia, pois sucumbiu assim, vítima das máquinas que construíram uma das pistas do aeroporto.

Monumentos Desaparecidos
Inicialmente, o templo era constituído por dois muros circulares com um núcleo de pedra e uma sala sepulcral ao centro. Um corredor conduz a um terraço sobre o telhado, onde se encontrava o local de culto. Presume-se que este espaço era destinado à observação das estrelas, uma actividade bastante importante para os povos megalíticos. Son Oms surgiu em meados do segundo milénio antes ainda da Era Cristã, constituindo assim um dos mais antigos complexos megalíticos de todo o mundo.
Esta construção imponente realizada com enormes blocos de pedra parece ter sido palco de ritos de iniciação.

A Cultura dos Talaiotes
A palavra Talaiote é proveniente do árabe «atalayi» («estar de atalaia») e designa construções semelhantes a torres - circulares ou rectangulares - compostas por grandes blocos de pedra. Os Talaiotes encontram-se isolados ou em grupos, no interior de fortificações ou em locais elevados. Os «son», isto é, quintas, estão distribuídos por toda a ilha. Trata-se pois, de designações de locais que indicam exactamente onde podem encontrar-se os Talaiotes. Estas instalações possuem dimensões que variam de caso para caso, existindo desde Talaiotes redondos e, isolados, com um diâmetro de poucos metros até grandiosos complexos que podem abarcar uma aldeia inteira com os seus diversos edifícios.
O significado destas construções permanece até hoje um verdadeiro enigma. A cultura dos Talaiotes floresceu desde cerca de 1300 até ao século I a. C. Presume-se que estes Talaiotes redondos constituíam a transposição em pedra da forma das cabanas circulares da Idade da Pedra. Não restam quaisquer duvidas de que os Talaiotes circulares se prestavam à realização de hábitos de culto.
Os Talaiotes posteriores de formato rectangular deverão provavelmente ter sido construídos com fins defensivos ou como locais de sepultura.

O Santuário de Son Mas
Uma construção particularmente impressionante e, característica, é o templo de Son Mas. A planta deste edifício apresenta a forma de uma ferradura, possuindo uma fachada côncava. Esta estrutura é única nas Baleares, não sendo comparável à dos Talaiotes circulares. No seu interior podem ver-se restos de colunas que em tempos terão suportado um telhado de altura relativamente reduzida. Sem dúvida que deverá ter-se tratado de um templo muito importante, no qual provavelmente se realizavam banquetes rituais.
O templo, bem como a povoação de grandes dimensões em que este se inseria, esteve em uso durante dois milénios, de 2100 a. C. até 200 d. C.
Trata-se assim da maior povoação em toda a Europa a ter sobrevivido durante um período de tempo tão grande e sem interrupções. Ao longo de todo esse tempo, deverá ter sido visitada por um número incrivelmente grande de povos e culturas, os quais se viram assim confrontados com os enigmáticos sistemas espirituais da cultura dos Talaiotes.

Enigma Arqueológico
Com o seu diâmetro de 17 metros, o Talaiote circular de Son Fornés é um dos maiores da ilha. Ter-se acesso a ele através de um portal baixo, composto por três grandes blocos monolíticos. O corredor da entrada - com os seus 5 metros de comprimento - começa logo por dar uma boa impressão da magnitude dessas paredes, erigidas com blocos que chegam a pesar 10 toneladas. No interior podem encontrar-se paredes curvas, bem como um pequeno espaço característico, ao qual se tem acesso através de uma passagem estreita aberta na parede. Ambas as estruturas continuam a suscitar aos arqueólogos dúvidas acerca da finalidade deste complexo.

Centro do Mundo
A coluna central maciça deverá ter tido apenas a função de suportar o peso do tecto. Existem outras construções da cultura talaiótica, de maiores dimensões até, que não foram dotadas destas colunas. As dimensões das colunas centrais costumam ser de tal modo descomunais que, o espaço envolvente, passa a funcionar como uma espécie de estreito corredor circular. Aparentemente a coluna central nestes edifícios circulares representa o mítico eixo do mundo, tal como este nos surge não só em construções circulares semelhantes da autoria de culturas antigas, mas também nas tendas tradicionais siberianas.
Esta coluna marca o centro do cosmos, unindo o Céu, a Terra e o mundo inferior. Este tipo de construção revela que, a finalidade destas edificações, teria assim tido por certo motivações míticas e, religiosas.

Ritos de Iniciação
Nestas construções que se situavam simbolicamente no centro do mundo, tinham com certeza lugar, ritos de iniciação. Apenas acessíveis através de pequenas e estreitas paragens, as câmaras de reduzidas dimensões que fazem parte de muitos Talaiotes, poderão assim constituir a prova de que esses mesmos ritos de iniciação, chegaram até então transmitidos de épocas anteriores, quando as iniciações se realizavam no interior de cavernas. O «iniciando» era assim levado através de uma passagem estreita até ao «útero da Mãe-Terra», onde tinha a oportunidade de renascer para uma nova vida.

Barcos de Pedra
Singulares são sem dúvida as edificações pré-talaióticas que apresentam a forma de um barco virado ao contrário, com a quilha para cima. Por vezes estas construções com a forma de uma embarcação serviam também como sepulturas colectivas, como em Son Real, na zona Norte da ilha. Trata-se aí possivelmente de uma Necrópole Fenícia. As chamadas «Nuraghas» da Sardenha apresentam estruturas construtivas muito semelhantes. Mas também, muito mais a Norte - mais precisamente na Escandinávia - os mortos eram enviados em barcos de pedra na sua longa viagem para o Além.

As Cabeças de Touro de Costitx
Foi em Costitx que os arqueólogos realizaram a mais importante descoberta de toda a ilha de Maiorca: trata-se de três cabeças de touro de bronze, de grande elegância e perfeição formal, que datam de entre os séculos VI e V a C. Constituem o testemunho mais expressivo das relações que terão ligado a cultura dos Talaiotes ao espaço cultural asiático. As figuras apresentam semelhanças admiráveis não só com outras cabeças de touros desenterradas em Susa, no Irão, mas também com os leões de mármore de Delos, do espaço cultural helénico.

Toda esta cultura dos Talaiotes é assim revestida de uma enigmática envoltura pelo que, ainda hoje arqueólogos e historiadores, se debatem sobre a verdadeira finalidade dessas suas edificações. Contudo, há que suscitar alguma reverência sobre o que estes povos - mesmo em período pré-talaiótico -  se estabeleceram em confluência cósmica do Céu, da Terra e do mundo inferior.
Apesar de poucos vestígios existir já desta insinuante cultura dos Talaiotes, será com evidente prazer e admiração que se visitará a ilha de Maiorca em observação pormenorizada sobre estas construções megalíticas de outrora que, sabe-se, se tem tentado preservar ao longo dos tempos (ainda que a construção do actual aeroporto de Palma de Maiorca tenha feito perecer alguns destes blocos monolíticos...o que se lamenta) mas, ainda assim poderem ser visíveis a olho nu.
Remete-nos então afirmar, que assim continue em preservação e contínua observação em cultura, conhecimento e verdade! A bem dessa cultura e desse conhecimento para as gerações futuras, assim possa continuar a ser! A bem de todos!