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segunda-feira, 10 de março de 2014

A Gruta de Sibila


Gruta de Cumae - Sul de Itália

Conseguiria mesmo esta respeitada vidente a que davam o nome de Sibila perscrutar o futuro? Ou, tratar-se-ia antes de mais - e apenas - de alguém capaz de tirar partido da credulidade dos seus contemporâneos?

Cumae - A Gruta das Profecias
Um dos mais conhecidos oráculos da Antiguidade ficava situado na costa ocidental do Sul de Itália. Cumae, era o nome pelo qual os Romanos conheciam este local sagrado. Nas profundezas de uma gruta - depois de descer pelos escarpados rochedos costeiros - recolhia-se a Sacerdotisa do Oráculo, quando queria obter de Apolo, o deus das Profecias, respostas acerca do futuro. Todas as pessoas, quer fossem reis ou camponeses, acreditavam tanto nas suas palavras proféticas que os seus presságios chegaram mesmo a ter influência no decurso da História. Daí as seguintes interrogações: Terá conseguido de facto Sibila visionar o futuro ou apenas terá tirado partido disso na credulidade dos seus contemporâneos?

No Reino dos Mortos
As raízes de Cumae estendem-se pelos tempos até ao início da própria Antiguidade Greco-Romana, no segundo milénio antes de Cristo. A história do Oráculo teve a sua origem na mitologia com Eneias, o herói de Tróia. Foi-lhe pressagiado que seria um dia o fundador de uma poderosa dinastia, se bem que de início não parecesse nada ser esse o caso. Os Gregos destruíram Tróia e Eneias teve de fugir. Após uma perigosa viagem por mar, o herói chega ao Lácio - uma região na zona central de Itália, junto ao mar Tirreno - actualmente carregada de sentido histórico. Uma vez que já ouvira falar da existência de um Oráculo na zona costeira de Lácio, Eneias decidiu consultá-lo quanto aos seus verdadeiros desígnios.
A Sibila conduziu-o num longo passeio subterrâneo. Quanto mais no interior daquele mundo de trevas penetravam, tanto mais era assaltado por assustadoras sombras que rodopiavam em seu redor. Por fim, Eneias julgou ter chegado ao Reino dos Mortos, onde reencontrou o seu pai. Este assegurou ao seu filho um futuro pleno de poder e grandiosidade e, proporcionou-lhe uma antevisão de um império ainda desconhecido e da capital de Lácio, a lendária Roma.
De acordo com a Eneida, a epopeia que o poeta romano Virgílio compôs no século I a. C., Eneias tornou-se efectivamente rei dessa terra e fundou uma dinastia que dominou todo o território da Itália.

O Oráculo Sagrado
Até ao século XX pensou-se que os Oráculos pouco mais fossem do que uma invenção de crentes devotos, mas na década de 1920 foram levadas a cabo escavações arqueológicas no recinto do templo de Apolo em Cumae. Foram descobertos corredores subterrâneos: precisamente neste lugar ficava situado no século VI a. C., o Oráculo. aqueles que procuravam conselhos, tinham assim de descer através de uma galeria com 131 metros de comprimento para finalmente se verem frente à famosa Sibila na sua gruta. Tal como surge descrito na história de Eneias, quem a consultava via-se de um momento para o outro envolto num mundo místico. Com o caminho iluminado por raios de luz que penetravam na gruta através de escassas aberturas laterais, o visitante ia avançando por trechos de luz e de escuridão, o que explica que se veja figuras que subitamente aparecem e voltam a desaparecer, que projectam longas sombras. No final desta experiência não é de admirar que, o cliente já amedrontado, pensasse que havia estado no Reino dos Mortos.
A fama do Oráculo era imensa! De toda a Itália e da Grécia chegavam pessoas em busca de conselhos e, de antevisões do futuro.

Sibilas da Antiguidade
As tradições de vidência na Antiguidade possuem uma longa história. A palavra «profeta», de origem grega, significa «falar por outrem». Assim, o vidente falava em nome do Deus, expressava directamente a vontade deste. Na Grécia da Antiguidade havia para cima de 20 oráculos diferentes, nos quais as Sibilas e os Profetas se pronunciavam e, executavam os seus deveres sagrados. Através de técnicas diferenciadas, os videntes colocavam-se a si mesmos num estado de êxtase: por vezes eram inalados gases vulcânicos que se escapavam de fissuras na crosta terrestre e os colocavam em transe; por vezes, eram usados os embriagantes vapores de uma infusão de loureiro.
O filósofo grego Jâmblico ed Cálcis (c. 250-330) descreveu o processo de intuição divina de um Oráculo: "A profetiza (...) senta-se em cima de uma coluna ou segura na mão uma vara que lhe foi entregue pela divindade. Molha os pés e a bainha das suas vestes com água (...) e é assim que profetiza."

Ficheiros Secretos Romanos
De especial reputação gozava a Sibila de Cumae, uma vez que as suas profecias demonstraram possuir uma surpreendente veracidade, mesmo com séculos de antecedência. Pelos vistos, as suas declarações eram tão certeiras que o último rei de Roma, Tarquínio, «o Soberbo», as terá comprado por uma avultada soma em dinheiro, declarando-as de seguida segredo de Estado.
Por alturas da República Romana (500-30 a. C.), apenas 15 homens, cuidadosamente seleccionados e aprovados pelo Senado de Roma, tinham acesso à leitura dos Livros Sibilinos. Os livros eram guardados numa arca de pedra debaixo das fundações do Templo de Júpiter, na colina do Capitólio em Roma, onde estavam noite e dia sob fortes medidas de segurança. Só em situações extraordinárias, em caso de guerra, fome generalizada, pestes e epidemias, catástrofes naturais e - fosse por que razão fosse - sempre que surgia um hermafrodita, é que os livros eram de lá retirados. Qualquer utilização abusiva era de imediato punida com a condenação à morte. Deverá ter sido então enorme, supõe-se, a importância atribuída ao teor dos livros.
Infelizmente, no ano 83, os livros foram vítimas de um incêndio. Nos Anais do historiador romano Tácito (55-116 d. C.), ainda hoje se pode ler a descrição de viagens empreendidas pelos Romanos até à Líbia, à Sicília e à Grécia, com vista a conseguir cópias e a devolver estes autênticos tesouros de Estado a Roma.

Pronunciando o Oráculo
O poeta e historiador romano Virgílio (70-19 a. C.) descreve a carga dramática que a Sibila de Cumae imprimia às suas profecias: «No rochedo, lá bem no fundo, existe uma enorme gruta (...). Ainda no limiar da porta, logo a Sibila exclama: "Venham daí as perguntas, depressa. O Deus, oh, vejam bem, o Deus!"
Gritando isso logo à entrada, a Sibila parece mudar de cor e de expressão, solta o seu cabelo, começa a arfar ruidosamente e uma espécie de selvática loucura inunda o seu coração: a voz deixa mesmo de parecer humana.» O cônsul romano Tácito (120-55 a. C.) referiu a propósito de Klaros - um Oráculo da Grécia - que o profeta não fazia ideia do que lhe acontecia quando profetizava.
Para pôr em prática as suas capacidades tinha em primeiro de, tomar uns goles de uma água mineral, após o que através da força e do pensamento, apreendia as perguntas e as respectivas respostas.

O Conteúdo do Mito
Histórias como as de Eneias e do Oráculo, têm frequentemente um fundo de verdade. Desde que, Heinrich Schliemann (1822-1890) descobriu Tróia, tornou-se claro que os heróis da epopeia grega Odisseia não eram meros produtos de ficção. Também a história de Cumae fornece pistas bastante concretas: como ficou provado, Kyme, o antigo nome original de uma cidade situada a 20 quilómetros de Nápoles, foi a mais antiga colónia grega de Itália. No apogeu de Cumae, entre 700 e 500 a. C., os habitantes desta cidade difundiram a cultura helénica na região, de tal modo que os Romanos, não desprovidos da razão, fazem remontar a origem dos seus próprios valores a este lugar!
Assim sendo, só nos resta acrescentar de que para a História ficará esta junção de conhecimentos, cultura e em certa medida introspecção espiritual - em meditação e profecias de Oráculos da Antiguidade - em futuras e (esperamos) creditadas avenças do que nos surgirá, mesmo que que não desçamos à gruta de Sibila ou esta nos diga na actualidade essas iguais profecias. Mas confiamos no que a História nos reporta! A bem do conhecimento e, a bem da Humanidade assim seja!