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terça-feira, 25 de março de 2014

A Bola da Morte


Campo de Jogo da Bola - Civilização Maia - Copán                        Honduras-América Central

Quem seriam efectivamente estes gémeos de que tanto falam os mitos da criação dos Maias que urgiam poderes divinos (deuses ou seres superiores?) - de morte e ressurreição - perante a estupefacção dos senhores do mundo inferior? A vitória da vida sobre a morte será «apenas» a simbologia dos ciclos intermináveis de vida nos homens ou, a consagração vital de um poder maior sobre a morte em conhecimentos ainda não adquiridos por nós, humanos?

Questão de Vida ou Morte: o Jogo da Bola dos Maias
Em todos os centros mais importantes da cultura Maia na América Central encontram-se campos destinados ao jogo da bola perto de templos e de palácios. A sua localização imediatamente ao pé dos lugares de culto e as suas dimensões por vezes enormes - como é o caso do campo de jogo da bola de Chichén Itzá ou de Copán nas Honduras - dão conta da grande importância mítica atribuída pelos Maias ao jogo da bola.

O Jogo da Bola no Mundo Inferior
Nos mitos da criação dos Maias, fala-se dos gémeos divinos Hunahpú e Ixbalanqué, os quais desceram ao mundo inferior e venceram as forças das trevas e, da morte. No mundo inferior tiveram de defrontar os senhores do Reino dos Mortos num jogo da bola. Antes disso, os gémeos tiveram de superar diversas provas. Aquando do primeiro jogo da bola, os senhores do mundo inferior lançaram a bola contra a protecção para o pescoço que Hunahpú envergava, da qual caíram pontas afiadas e mortais de obsidiana. Apesar do violento recontro, os gémeos saíram vitoriosos.
Na última prova, porém - que teve lugar na Casa dos Morcegos - Hunahpú descurou a sua defesa e espreitou para fora da zarabatana, onde se havia escondido. De imediato, um dos morcegos mortíferos arrancou-lhe a cabeça. No jogo da bola da manhã seguinte, Ixbalanqué teve de enfrentar sozinho os deuses da Morte, tendo a cabeça do seu irmão servido como bola para esse jogo. Ixbalanqué usou de uma artimanha e substituiu a cabeça do seu irmão por uma cabaça. Quando a lançou para o campo de jogo, a cabaça rebentou contra o chão e as sementes espalharam-se, saindo disparadas.

A Superação da Morte
Os gémeos perderam o jogo e também Ixbalanqué foi morto. Os senhores do mundo inferior desfizeram os seus corpos e trituraram-nos, espalhando os seus ossos num rio. No leito do rio, os ossos voltaram a reunir-se e formaram de novo os corpos dos irmãos. Passados cinco dias, os gémeos emergiram do rio. Disfarçaram-se de pedintes e, impressionaram toda a gente com as suas danças e os milagres que operavam. Os governantes do mundo inferior ficaram curiosos acerca daqueles dois e mandaram chamá-los diante de si. Demonstraram-lhes como conseguiam matar um cão e de seguida devolvê-lo à vida.
A pedido então do soberano do mundo inferior, Ixbalanqué matou o seu irmão e voltou a ressuscitá-lo. Os senhores do mundo inferior ficaram tão entusiasmados que eles próprios queriam agora ser sacrificados e, novamente ressuscitados. Era finalmente chegada a oportunidade  de os gémeos divinos se vingarem deles.
Abriram o peito dos senhores do mundo inferior, arrancaram-lhes os corações e deixaram ali ficar os cadáveres, não cumprindo a segunda parte do pedido - a da ressurreição. Por fim, os dois gémeos heróicos, transformados em Sol e em Lua, ascenderam ao Céu. Foi assim que Ixbalanqué e Hunahpú destruíram o poder dos senhores do mundo inferior e venceram a morte.
Este mito relata a diversos níveis, a vitória da vida sobre a morte. Também a própria cabaça, da qual saem disparadas as sementes, constitui um símbolo de fertilidade, da superação da morte.

Equipamento e Regras
Há que ter em conta que, para os Maias, um jogo da bola não era simplesmente um evento desportivo, mas antes e acima de tudo, expressão e representação deste mito fundamental, intimamente ligado às noções de vida e de morte, do morrer e do renascer.
Para se protegerem do impacte das pesadas bolas de borracha contra o seu corpo e, para evitar escoriações nas quedas frequentes que sofriam, os jogadores usavam em redor do tronco uma banda de couro em forma de ferradura, bem como joelheiras, luvas e cotoveleiras. As coxas e as nádegas eram protegidas por uma saia de couro vestida por cima de uma tanga.
Acerca das regras do jogo, pouco se sabe. Em todo o caso, no início a bola era lançada para o campo com a mão, mas depois disso já só podia ser tocada e impulsionada com as ancas e com a coxa. Não é ainda hoje conhecido o modo como os pontos eram contados nem tão-pouco como se decidia qual a equipa vencedora. As duas equipas concorrentes distinguiam-se uma da outra pela ornamentação que ostentavam na cabeça e no peito. Ao que parece, os utensílios para cobrir a cabeça podiam assumir formas variadas e bastante impressionantes. Na maioria das representações, apenas se vêem homens a entregar-se ao jogo da bola  e, apenas nas escadas cobertas de hieróglifos de Yaxchilán podem ser vistas duas mulheres a jogar à bola. É possível que houvesse muitas variantes deste jogo, desde uma competição entre duas equipas até ao jogo realizado apenas entre dois homens.

Os Campos do Jogo da Bola
Os campos para o jogo da bola dos Maias - nos quais se desenrola o drama mítico dos gémeos divinos e, em que se defrontam duas equipas - eram constituídos em regra geral, por duas construções compridas e paralelas em forma de muro, entre as quais ficava uma espécie de rua - o campo onde tinha lugar o jogo.
Os muros de delimitação poderiam apresentar diversas formas, mas a maior parte das vezes tratava-se de uma espécie de taludes com um declive acentuado. Só raramente apresentavam o aspecto do campo de Chichén Itzá, com os muros verticais. Do cimo desses muros inclinados - ou com degraus - costumavam ser lançados prisioneiros, que morriam em consequência da queda.
Ao longo do comprimento do campo encontravam-se quase sempre três pedras de marcação, todas elas equidistantes. Na maioria dos campos do jogo da bola, existe a meio do comprimento de cada um dos muros um anel de de pedra, através do qual a bola de borracha tinha de ser arremessada.

Nada se pode encerrar então, perante tamanha diversão maldita em que uns se limitavam a ver morrer outros numa condição humana subjacente à época, deveras cruel e ímpia para os nossos dias. Mais há a consolidar porventura neste estranho jogo em que rolavam cabeças, literalmente! Sem julgamentos mas com a observação exacta destes relatos expressos nestas construções de pedra, cingiremos apenas a compleição (e não prossecução) deste tipo de jogo poder voltar a não ser em simulação histórica destes conturbados tempos em que o valor da vida era escasso e não perfeito ou considerado. Registando este período e esta cultura dos Maias - fazendo referência ainda aos divinos gémeos que se evidenciaram por poderes superiores no tal mito da criação - somente restará dizer que muito haverá por esclarecer ainda, tanto da parte destes, Hunahpú e Ixbalanqué, como de toda  a sua influente história aí havida. Terão sido efectivamente seres superiores, inteligentes e magnificentes que deram uma lição aos senhores do mundo inferior, ou apenas a magia ilusória e, imaginária, relatada ao longo dos tempos em maravilhoso mito eterno? Aqui ficam as perguntas para que, ao longo destes novos tempos também, alguém nos possa elucidar, reescrevendo essa mesma história dos Maias e...nossa! Que assim seja então!