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quinta-feira, 3 de julho de 2014

A Via da Libertação


Exercício de Yoga

Na soma das consequências de todos os actos mentais e físicos desta e, das outras vidas passadas - em dissolução de Karma - será este o verdadeiro caminho ou via para a libertação em designação e, exercitação de Yoga? Será muito mais do que mera meditação, ginástica e concentração no que, na cultura indiana, se regista por uma enraizada religiosidade, pura e profunda?

Yoga - O Caminho (ou Via) da Libertação no Hinduísmo
O Yoga não é ginástica nem apenas pura concentração, como muitas vezes é descrito no Ocidente, mas sim uma atitude religiosa profundamente enraizada na cultura indiana.
O significado da palavra em sânscrito corresponde a «unir, unificar». É uma noção que indica os inúmeros caminhos nos quais o Homem pode alcançar a união do espírito individual com o universal.
O Yoga cria laços com o Infinito. Isto é possível porque, segundo a representação hinduísta, o Atman - o verdadeiro eu do Homem - se identifica com o Brahman - a origem de todo o ser - o Absoluto!
Poderia também caracterizar-se o Yoga como um exercício - um caminho que torne transparente a presença do Infinito!

O Auriga Divino
No Livro Sexto da Grande Epopeia Indiana - Mahabharata - que narra a luta pelo poder de duas famílias do ramo Bharata, encontra-se um importante texto filosófico, o Bhagavad-Gita, o «Cântico do Sublime».
Provavelmente escrito no século IV ou V a. C., o Bhagavad-Gita é uma espécie de Evangelho do Hinduísmo, que influenciou a vida religiosa da Índia como nenhuma outra obra.
O Auriga do herói guerreiro Arjuna, dá-lhe instruções fundamentais relativamente a uma batalha iminente. Este Auriga revela ser o deus Crishna, uma encarnação do deus Vishnu que, juntamente com Brama e Shiva, é uma das três divindades mais importantes do hinduísmo.
No famoso campo de batalha de Kurukshetra, Crishna ensina ao seu amigo e aluno Arjuna, os caminhos da união com a realidade suprema. Arjuna representa aqui os homens com um rumo espiritual e, através dele, Crishna ensina o Mundo.

Os Caminhos do Yoga
Entre os seus vários ensinamentos, Crishna também indica a Arjuna os caminhos do Yoga: o do Conhecimento (Jnana-Yoga), e do Amor Divino (Bhakti-Yoga), e do Acto Altruísta (Karma-Yoga) e o da Meditação (Raja-Yoga), que representam os caminhos clássicos principais do Yoga.
No Karma-Yoga, o Homem aprende a oferecer à divindade todos os seus actos e, resultantes consequências. No centro deste caminho encontra-se o comportamento moralmente correcto. No Bhakti-Yoga, é por meio da dedicação e do amor que se procura a unidade com uma determinada divindade. O ego do praticante será absorvido pela divindade, através do amor que este sente pelo seu ideal - o deus amado (Ishta-deva).

Entrega - Renúncia - Meditação
O Jnana-Yoga é o caminho da análise intelectual. Para examinar e compreender a transitoriedade do mundo das aparências e, a intransitoriedade da realidade subjacente - o Brahman - o praticante de Yoga tem de formar o seu intelecto com a leitura dos textos sagrados e, de purificar o pensamento, mediante o estudo dos ensinamentos. O importante é que renuncie à vida normal através do desprendimento: só assim pode entregar-se por completo à meditação sobre o Absoluto!

Os Oito Passos do Raja-Yoga
O Raja-Yoga compreende oito passos. Os princípios fundamentais do praticante são os pressupostos éticos e, morais - Yama e Niyama. Estes conceitos significam «Autodomínio» e «Severidade consigo próprio» e, designam ainda uma conduta irrepreensível do ponto de vista da verdade, castidade e auto-disciplina, entrega ao estudo dos textos sagrados e, à fé em Deus.
No terceiro passo, «Asana» (Postura corporal) aprende-se a colocar o corpo nas posições adequadas à meditação. Por fim, os exercícios do quarto passo (Pranayama) regularizam a respiração.
A partir do terceiro e do quarto passos, desenvolveu-se o chamado Hatha-Yoga - no qual intervêm posturas corporais e exercícios de purificação e respiração destinados a controlar os fluxos subtis de energia do organismo. É normalmente ao Hatha-Yoga que se alude quando se fala de Yoga no Ocidente.

O Caminho para a Supra-Consciência
No quinto passo do Raja-Yoga, os sentidos separam-se dos objectos da percepção (Pratyahara). O espírito pode então por fim concentrar-se no objecto de meditação, o que será alcançado nos passos seguintes. Os três passos mais elevados são também os mais importantes do caminho do Raja-Yoga. Primeiro, exercita-se a capacidade de concentração (Dharana). O espírito paira agora sem se deixar desviar por nenhum objecto. Neste sétimo passo, os processos do pensamento cessam todos e dá-se a fusão com o objecto da meditação. Alcança-se assim o verdadeiro estado de meditação (Dhyana).
O caminho culmina por fim, na meditação profunda ou iluminação (Samadhi) - um estado de supra-consciência, no qual deixa de existir a separação dualista entre espírito e corpo, sujeito e objecto.

O Caminho do Rei
Raja-Yoga significa literalmente «O Caminho Real» e designa as práticas físicas e mentais da meditação. O sábio indiano Patanjali (século II a. C.) fundou a filosofia deste caminho do Yoga, na sua famosa colectânea de aforismos Yoga-Sutra. Segundo ele, o Raja-Yoga é um esforço sistemático para alcançar a perfeição, o que se consegue por meio do domínio metódico dos elementos físicos e, mentais, da natureza humana.
Trata-se de uma disciplina que abrange todo o ser humano, de um caminho para a libertação da ilusão fundamental de que este é prisioneiro, quando se identifica com a sua mente e, o seu corpo.

Libertação do Renascimento
Os Hinduístas acreditam que, todos os seres vivos, estão sujeitos ao Samsara (Migração), ao ciclo do Nascimento, Morte e Renascimento. Entre eles, só Homem tem a possibilidade de lhe escapar e de alcançar a Libertação. Apenas ele pode chegar ao Conhecimento de que, a sua verdadeira natureza - o âmago do seu ser - é idêntica ao Brahman.
O caminho para esta libertação chama-se Yoga, que pode então dissolver o Karma (a soma das consequências de todos os actos mentais e, físicos, desta e das outras vidas passadas).
O Yoga não é específico da tradição religiosa hinduísta. As práticas tântricas do Budismo Tibetano também se chamam Yoga e, os grandes santos desta tradição também recebem - como no Hinduísmo - o nome de Yogues.

Na fachada de muitos templos indianos, além das divindades, vêem-se também Yogues tântricos. Enquanto no Ocidente a palavra «tantra» tem sobretudo a ver com sexualidade, o hindu vê no Tantrismo apenas um instrumento para o alargamento da consciência. Em sânscrito «tantra» significa textura ou conexão!
Na postura típica da meditação ou mesmo noutras posições corporais  - em iguais exercícios de purificação e do controle da respiração - o Yogue (ou quem esses mesmos exercícios a si aplicar) guiará assim as correntes subtis de energia dentro do organismo. Ainda que no Ocidente se esteja agora a querer dar os primeiros passos nessa liturgia de meditação, relaxamento e poder mental mais aberto nas populações, há muito que estes ensinamentos se propagam - a Oriente e, em tomadas de consciência e purificação intensamente vividas. Há que o retomar em levadas subtis também de uma maior consistência, se a todos aludirmos e em nós confinarmos, uma melhoria de vida, física e mental. A bem da Humanidade então, que essa via da libertação nos possa ser condigna e merecedora além os tempos! Que assim seja!