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sexta-feira, 18 de abril de 2014

Esperança VI


Planeta Alfa do Centauro B

Onde começa a esperança e acaba o desalento, numa nostalgia dormente, demente e, invasora de todos os espaços? Poderei retornar ao meu território, ao meu berço de nascença e criar raízes ou inversamente, submeter-me à «prisão» de outros limites, outros augúrios que não os do meu solo, os da minha terra, dos meus céus e, de toda a minha frenética génese e fragrâncias terrestres?

A Reunião
Existe um limite para o infortúnio e outro para os destinos cruzados e avessos, mesmo entre nós, os terrestres, sempre tão alvo de críticas e sujeitos aos vaticínios dos superiores, dos inteligentes. Reunidos na galáxia de Orion, exigiram a minha expulsão (de novo!) e sobre a qual eu não me podia sublevar nem sequer argumentar da inocência havida de ter sido uma simples vítima de dejectos espaciais em confusão meteorítica e extravasada sobre a minha martirizada Base em Marte. Referiram que todos - os elementos aí afectos em missão e cumprimento do dever - fôramos assaz negligentes, preguiçosos e muito pouco profissionais no que deveríamos ter alcançado com tempo e reiteração funcional no treino e repercussão estelar que todos igualmente havíamos tido anteriormente. Como «bode expiatório» que eu era em única sobrevivente, asseverariam de que eu seria punida por tal. Não me deixaram testemunhar a meu favor em defesa única também do que por mim teria de outorgar, mesmo sabendo dessa inutilidade ou irreversibilidade de opinião e conceito, julgamento e condenação póstumas, pois nada ouviam e nada amorteciam do que eu lhes pudesse invocar em dor, piedade ou clemência. Estava fodida! (Perdoem-me a expressão...os meus antepassados sabem bem do que falo!) Mas sem me deixar enredar em má educação e pruridos galácticos que só a mim doem e perfuram como escavadora em túnel subterrâneo, a minha consciência vai - para além de todas as coisas - para a memória vã dos meus filhos e, do meu amado Siul que tem feito investidas hercúleas, tais como o seu semblante e porte físico, em manobras inimagináveis para me ver perto de si em finalização triunfal do que não me orgulho agora, de momento, em esterco personalizado de mim, do que me fizeram sentir nesta estranha reunião da Confederação Galáctica em espécie de Inquisição ancestral, endemoninhada de bons augúrios, consideração ou sentimentos por mim.

A Fusão
Encarcerada em mil pensamentos e numa só cela descabida de alma e de tudo o que me pudesse libertar, foi com agrado que vi ser-me tolerada a saída precária de uma solução imediata para o que (acreditei) eles não saberem muito bem o que fazer comigo. Punindo-me, estar-se-iam a punir a si igualmente sem grandes misericórdias pelo que sabiam terem sido eles próprios incompetentes ou então pouco indulgentes com a nossa causa, a causa dos que pouco ou nada têm a perder na missão que nos aguardava em Marte. Sabíamos das ocorrências nefastas em que por diversas vezes as Bases eram acometidas, acabando-se o oxigénio e todo o suporte-base de vida aí. E nem era necessário que chovessem meteoros como aconteceu, bastava que se formassem nuvens de poeira cíclicas e tudo se desmoronava. Daí que fossem poucos ou quase nenhuns, os que voluntariamente se reportavam a essas missões marcianas. A única benesse era mesmo e somente, a comutação de penas aplicadas a quem tivesse no seu curriculum passado um historial maior de condenações e antecedentes criminais, tão megalómano quanto a ideia de se perder ou fugir no meio de Marte. E eu fugi. Ou tentei fugir em excentricidade individual e pessoal tão idiota quanto a situação em que agora me encontrava. Até haver a peregrina ideia de me exilarem. Para Alfa do Centauro B.
A fusão havida até agora com este planeta em tríade hiper-dimensional estelar fazia-os imputar em mim a submissão total de um cárcere hediondo e sem meios de fuga. A atmosfera era pesada para mim. Os meus pulmões rebentariam e eu sofreria as consequências se tentasse fugir da cápsula orbital remessa aos foragidos, aos fora-da-lei galáctica e, estelar. Ninguém brincava com os confederais, reverberavam acintosamente. Eu era-lhes pouco. Eu...era-lhes, nada! Não levavam muito em consideração os terrestres, vulgos parasitas ou formigas tontas que nem sabiam qual os caminhos a seguir, após a tão capitosa praga diluviana na Terra. No fundo, riam-se de nós. Era ultrajante, obsceno até. Um dia...haveriam de engolir tudo isso, essa arrogância, esse deleite sumptuoso de quem se diz superior e por vezes capitula e remete aos baixios, aos brejos da sua própria consciência e racionalização. Contudo, havia esperança. Eu não podia gotejar em fraquezas, em destituição de raciocínios lúcidos numa espécie de desidratação doentia que me levasse todas as forças. Eu tinha de persistir e, insistir em mim, a certeza da continuação, negando-me a ser vencida, negando-me a ser só mais um réstio número estelar na imensidão galáctica sem nome e sem alteração! Eu havia de vencer. Pelo menos...estava mais perto. Mais perto ou...mais longe, como o saberia eu, se acaso Siul já não fosse mais meu e tudo não tivesse passado de um belo e simples sonho estelar?

A Libertação
Emagreci. E devo estar tão feia e cavernosa como os meus antecessores de Neanderthal. Possuo os genes do Homos Erectus de há 3000 anos na Terra mas submeto-me agora como se fosse uma amiba sem cor ou querer neste degredo de planeta desconhecido. Não são afectuosos mas também não fazem por ser assertivamente hostis ou quedarem-se por animosidades de quando me vêem ver em análises suas de olhares opacos (e nenhuma transparência) sobre o que verdadeiramente lêem de mim. Apresentam-se sempre como figuras cálidas mas amorfas em me auxiliarem na saída do presídio em que estou. Velam-me o sono e até os pesadelos, pelo que sinto em câmaras ocultas de paredes vítreas e observações minuciosas.
O desânimo está a dar cabo de mim. A esperança de daqui sair também. E esmoreço.
Mas de novo, a luz! Veio em sinal e símbolo máximo de uma soltura de cela, gabinete, cápsula e espaço sideral naquela que seria a mais bela cidade em ilha apresentada e, por mim vista algum dia. E a surpresa foi imensa. Deixaram-me ao ar. Deixaram-me respirar sobre o varandim do edifício capsular em janela de alma aberta ao mundo, aquele mundo desconhecido mas tão belo quanto a coisa mais bela que eu já tinha visto ou vivificado em mim: a liberdade! O cheiro da liberdade! E não morri. Respirei com todas as forças em inspiração e expiração subsequentes como se não houvesse outro momento assim, e o que vi e observei foi fantástico, foi belíssimo, surpreendente e...luminoso: Siul estava na minha frente!
Levaria anos, milénios para reportar o que senti, o que o meu coração e a minha alma me ditaram em complacência e turbilhão conjuntos. Eu era um vulcão, um tornado, um dilúvio de sentimentos! E ele, Siul, direito, erecto, altivo, profuso, real e...belo, muito belo, ainda mais do que lembrava de si em toda a sua pujante figura de Centauro, iluminado e, iluminando-me os sonhos, as certezas agora que não mais fugiria de si, na crença maior do seu amor por mim e eu dele e...tudo o mais em velocidades extremas que não sei aqui relacionar. O seu cabelo afivelado e dourado como um deus, o meu deus...as suas mãos segurando as minhas, a sua face perpetuando-se na minha, os olhos nos meus e...o seu corpo, o seu magnífico corpo sobre o meu, revelando-me tudo sem uma só palavra, um só gesto que não fosse: sou teu! Para sempre!
O mar ouviu-nos e ficou em sussurro. As nossas almas uniram-se como Enki e Ninmah e brilhámos no meio das 200.000 milhões de estrelas de todas as galáxias e fizemos um amor só nosso! Ele, Siul era o meu Shamash, o meu deus do Sol que me irradia fortuna, glória, aventura e...esperança. Que irradia tudo. Agora estou em paz. Agora vou voltar a ser feliz. Agora...tenho esperança, pois Siul é meu! Para sempre!