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sábado, 5 de abril de 2014

A Esperança IV


Planeta Marte

Sobreviverei à hecatombe registada na minha vida, por ter perdido o meu chão e, a minha alma, sobre os escombros da minha insegurança nos alicerces de uma família que eu julgara indestrutível? Sobreviverei sem coração ter, numa terra inóspita e sem esperança de iguais escombros sobre mim? Haverá de facto - e para mim ainda - alguma vã esperança de retornar a ser feliz?

Ano 3014 d. C. - Planeta Marte - Região de Cydonia
Estou no Sul do planeta em exílio premeditado e augurado por mim. Esta limitada zona é das mais agrestes e agressivas em solo e terrenos baldios, áridos e sem vida. Como eu! Nada me seduz a não ser a distância e a amargura impostas em mim como represália e tortura pessoal que fiz em mim, por me ter deixado corromper na alma e no coração ao desejar sentir amor, esse mesmo amor terreno e terrestre que os antigos - meus antepassados - tanto deixaram documentado para as gerações futuras. Muito poucas civilizações estelares conhecem este sentimento e praticamente nenhuma se apresenta - ou sente de igual forma - este estranho e mágico sentimento de afeição, entrega e completa sublimação a uma outra pessoa que não a própria. Não ridicularizam os terrestres por esse facto, mas mantêm-se reservados e mesmo longínquos - tão longínquos como as outras galáxias da Terra, neste incompreendido sentimento que dá pelo nome de «amor».
Neste preciso momento estou debaixo de detritos e zona instável, do que a nossa Base já foi - e para onde eu vim mais outros doze elementos afectos à mesma missão em solo e Céu de Marte - sofrendo um «ataque» pronunciado de invasão meteorítica do que se regista intermitentemente aqui. Não me consigo mexer, sentindo que os membros inferiores se deslaçam do resto do corpo, encetados que estão sobre pesadas vigas de betão, aço e diverso material que me parece rasgar a pele, o osso e...até a alma!

A Missão
Até aqui fui estudando sem interesse e sem grande dinamismo - ou protagonismo - as vertentes de vida em Marte que já desde há um milénio atrás, se vinha pesquisando sem se saber ao certo da existência efectiva de vida neste vermelho e pouco simpático planeta Marte. As nanobactérias, as estruturas moleculares orgânicas em forma de anel, as bactérias magnetostáticas que também existiram na Terra (ainda antes do dilúvio e das quais pouco sobrou...) e hoje se admite serem capazes, estas últimas, de se orientarem como um bússula no campo magnético terrestre. E muito mais. Estas nanobactérias são capazes de viver no interior das pedras sem depender da energia solar fazendo delas umas autênticas heroínas em sobrevivência e permanência numa luta entre a vida e a morte, tal como eu...agora!
Estou sepultada numa tumba fria e escura em que me submeti por vontade própria, em voluntariado forçado para algo que ninguém à partida o faria de ânimo leve ou sem grande oposição e eu me dei em entrega inglória e tarefa espinhosa do que queria fugir na Terra. Estou só. Não ouço o riso das crianças, as minhas crianças que estão longe, tão longe como a minha alma da do Siul que já não me sente, não me quer e não me pertence. Fugi dele, fugi de tudo. Não podia assistir em placitude e bonomia o seu deslaçar de mim, partindo para sempre com os meus filhos, deixando-me a carpir mágoas de mulher deixada para trás. Tinha de manter a dignidade, o aprumo erecto, a perfeição sem emoção e sem nada de dentro do peito que não fosse uma estaca de pedra e granito no lugar do coração, sendo expropriada de toda uma família que eu pensara construir naquela terra-transformada de águas, ventos e solstícios revigorados.

A Traição
O dia estava quente. Na Terra. Era Verão. Foi há apenas seis meses mas que a mim me parecem seis anos, seis séculos de distância e de isolamento em condenação perpétua sobre mim. Éramos uma família! Assim eu pensava. O meu filho Anu, nos seus despontantes e belos treze anos de idade com o seu olhar de lince e inteligência superior (à semelhança do seu pai), a Tiki de onze anos, na mudança de idade em menarca revelada já, querendo enaltecer-se em figurinha de mulher que ainda não é e...os meus pequenos gémeos de cinco anos de tenra idade, Alia e Silus que são a desmistificação total do ser híbrido na Terra em personalidades distintas e bravias de acirradas atitudes que os compõem num misto de pai e mãe que lhes somos, tanto na parte física como na mental. São extremamente diligentes e corajosos, inteligentes e...irrequietos. São no fundo, crianças «normais» para a idade que representam. Quantas saudades eu tenho deles meu Deus-Uno! E reflectir agora que perdi tudo isso por uma simples e estúpida projecção holográfica de mensagem  de Alfa do Centauro...em quase instauração reaccionária de Siul, o meu Siul, partir de vez para o seu planeta, para a sua estrela maior que não era eu. E essa, foi a maior estocada mortal da minha vida! Siul, o meu Siul não era mais meu mas...de uma outra figura endógena, idiota e sem brilho - o meu brilho - e de tez altiva, esbranquiçada como coisa insuflada, coisa nenhuma que eu lhe senti ao observá-la em imagem reproduzida, falsamente apresentada como colega e mandatária do seu igual planeta Alfa do Centauro. Emitia sons estranhos, gargarejava como se algo lhe invadisse as cordas vocais em fonética esquisita no seu linguajar indecifrável que eu nunca soubera descodificar ou sequer aprender, por tamanha dificuldade de compreensão desses símbolos e comunicação do seu planeta distante do meu. Tentei. Possuía um descodificador - que em épocas anteriores se poderia assemelhar a uma tradução imediata computorizada - dando-me a certeza e a verdade daquelas palavras «centáuricas» em reposição holográfica de uma missiva irreversível sobre o meu Siul de retorno e ascensão no seu planeta. A facada no peito ou o projéctil fatal em mim deu-se, quando a ouvi pronunciar a efectividade emocional - algo que até aí lhes era completamente desconhecido ou então «adormecido» em afectação e afectuosa demonstração de carinhos - e a ouvi de novo ressoar um...«preciso de ti...eu também tenho alma que está à espera da tua...no nosso sítio...no nosso espaço, em matéria e sentidos!» Fiquei em choque!
Aquela «espécie de coisa andrógina» estava a roubar-me o companheiro, o pai dos meus quatro filhos - no que muitos afirmavam de caso sério de sucesso reprodutivo entre um Centauro e...uma simples terrestre - e agora, tudo perdido, tudo irremediavelmente perdido por uma ordem suprema, vinda através daquela mulher-objecto, mulher-fatal, mulher-coisa igual a si, semelhante a si, ao seu planeta, à sua terra de berço e carreira que eu quase lhe usurpara por fazer ficar comigo em primitiva outra terra que não a sua, por amor a mim. Que egoísta eu fora...mas, por amor, só por amor! E agora, ali...tudo perdido. Tinha de ser altruísta pelo menos, uma vez na vida. Tinha de o deixar partir e...levar os filhos consigo. Iam ser mais felizes...ou ter mais acesso talvez, a ensinamentos, tecnologias, sapiências, culturas e...essências tão diversas quanto omnipotentes que nesta terra-solo, Terra-planeta eu não lhes podia dar em regime fechado de um planeta ainda a renascer se não das cinzas mas, das águas inundadas de que esta fora acometida. Tinha de abrir mão de tudo. Até da minha própria alma! E deixei que eles fossem...todos!

A Espera
Este planeta vermelho em que me encontro é tão sangrento quanto a minha extensa mágoa em hemorrágico sofrimento mais da alma que do corpo, ainda que neste momento ambos ecludam e se misturem na situação frágil em que me situo debaixo destes fragmentos de matérias pesadas. Houve um impacte brutal sobre a Base Estatal em que eu e os meus colegas de missão nos encontrávamos sem que tivesse havido anúncios prévios deste enorme (suponho) meteorito ou vários deste que sobre nós se impuseram, esventrando a área onde nos alojávamos. Já não ouço murmúrios nem lamentos. Penso que muitos estarão mortos. As comunicações com a nossa galáxia foram cortadas e, o sistema solar tão obstruído como se as estrelas do Céu de repente se apagassem todas...e ficássemos num imenso e irreconhecível buraco negro no meio do Universo. Sinto-me impotente e...estúpida! Como deixei arrastar-me para tal missão destrutiva e inverosímil em mim, sabendo dos riscos que corria em Marte e...da total ausência e afago em carinhos e sorriso de todos os meus filhos e...de Siul que amo mais do que a minha própria vida e isso agora, Deus-Uno, parece-me tão idiota e imbecil quanto a estranheza deste ambiente e, a derradeira situação catastrófica em que me encontro. Porque fui tão humanamente teimosa, irascível e estúpida, muito estúpida para deixar-me levar por ciúmes terrestres (ou extraterrestres...) e contemporizar tudo numa amálgama de dúvidas e incertezas do amor de Siul por mim, imputando-me só, punindo-me, castrando-me abjecta e radicalmente, ficando sem os filhos...ficando sem nada! Sinto-me tão perdida quanto este dimensional meteorito, tresloucado no seu campo gravitacional, vindo colidir na nossa base sem se fazer anunciar. Sinto-me só. Sinto-me a morrer...e o meu último pensamento vai para os meus filhos, para Siul e...para vida que esmoreci e não me vi lutar com todas as forças terrenas e terrestres que me assistiam para agora ver tudo perdido, tudo abandonado nas outras forças que já me deixam pelo auxílio, intervenção e resgate que não vejo chegar. Sinto ainda o quente beijo, o primeiro beijo dado a Siul e a sua surpresa e emoção do toque sensível à pele, à sua pele, aos seus finos lábios azulados e sem cor que eu lhe revivifiquei assim que tocou nos meus, vermelhos-sangue, vermelhos-vida...nesta mesma vida que agora se despede de mim...assim, sem pejo nem glória em pensamento e sentimentos, muitos, de verdadeiro amor terreno-centauro!...E tudo se esvai...numa neblina cerrada, gélida, fatal. Tenho frio...muito frio. Meu amor...perdoa-me. Onde estiveres...e onde me lembrares...amar-te-ei sempre...nas estrelas e nas galáxias que não mais verei a teu lado...não mais...