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sexta-feira, 4 de abril de 2014

A Pseudo-Irmandade


Símbolo dos Rosas-Cruzes (Rosae Crucis - em latim) ou Rosacruzes

Que Irmandade era esta que, considerando-se autêntica e extrapolando poderes, se legitimaria em práticas sexuais mágicas numa filosofia algo estranha na transformação do homem e, do mundo?

A Irmandade dos Rosas-Cruzes
Durante o Renascimento, estudiosos, mágicos e alquimistas alimentaram a ideia utópica de realizar uma abrangente reforma a todos os níveis: tanto a nível social, como político, religioso e científico.
Esta ideia tinha a ver com a noção dos Alquimistas de que era possível uma transformação espiritual do ser humano. O movimento filosófico -religioso que daí resultou e que ambicionava instituir a nível mundial um império da paz e, dos estudiosos, recebeu o nome de: «Pansofia».

Uma Organização Secreta Inventada
No início do século XVII surgiram inesperadamente panfletos acerca de uma muito louvável Irmandade dos Rosas-Cruzes, que desde há muitos anos pugnava em segredo pela transformação do mundo, nos moldes atrás enunciados. De acordo com esses princípios, um desses escritos chamava-se Reforma Universal e Geral de Todo o Amplo Mundo (1614). Esta Irmandade terá sido fundada pelo lendário Christian Rosencreutz, que terá vivido entre 1378 e 1484 e a quem terão sido revelados em Marrocos, os mais elevados ensinamentos.
Estes escritos suscitaram grande celeuma. Diversos estudiosos contemporâneos quiseram saber como poderiam colocar-se em contacto com o invisível Colégio dos Rosas-Cruzes. Estas foram, porém, perguntas que nunca obtiveram resposta, pois na verdade os Rosas-Cruzes não existiam, tratava-se de uma invenção de um círculo de pessoas em redor do teólogo suábio Johann Valentin Andreae (1587-1654).

Nostalgia da Mudança
Num romance da autoria de Andreae, intitulado "Casamento Alquímico de Christian Rosencreutz" (1616), a íntima afinidade entre a ideia dos Rosas-Cruzes e, da Alquimia, torna-se bem patente. A ideologia «Rosa-Cruzista» é representada como uma transformação de tudo o que não é nobre em algo perfeito, através das alegorias alquímicas do casamento entre um rei e, uma rainha que surgem nesse romance.
A ideia fundamental era a existência de uma Ordem de elite, formada por homens devotos e tementes a Deus - instruídos no simbolismo alquímico - dispostos a combater o Islão, a escolástica e o Papado e ainda, a conduzir à vitória um Cristianismo Evangélico depurado por meio do esoterismo.
O sucesso de que gozou o livro de Andreae com a história dos Rosas-Cruzes, despertou a nostalgia dos estudiosos por um mundo espiritualizado e, povoado por homens que investigam e que procuram Deus.

Nomeação Simbólica
A imagem simbólica que dá nome à Irmandade consiste na união de uma rosa e uma cruz (em diversos símbolos mais simples e menos elaborados do que a imagem inicial do texto) - originalmente entendidas como símbolo da penetração do Espírito Divino na Natureza. Tendo assim e certamente também a ver com o brasão de Lutero, que exibe uma cruz que cresce de um coração no interior de uma rosa.
Esta combinação surge também no brasão de J. V. Andreae, que consiste numa cruz com 4 rosas nos cantos, e indica que a criação (a rosa) foi enobrecida e, purificada, através da redenção de Cristo.
Mediante os primeiros escritos num tom utópico, os homens interessados foram incitados a proceder a uma «reforma do coração», ainda que muitos se tivessem apercebido de que inicialmente as convocatórias da Irmandade dos Rosas-Cruzes não eram senão uma invenção.
Actualmente existem numerosos agrupamentos de pessoas que, se auto-intitulam «Irmandades de Rosas-Cruzes», mas que nada têm a ver com as ideias atribuídas a Christian Rosencreutz.
Cada uma destas pseudo-Irmandades de Rosas-Cruzes se considera a autêntica, certo porém é que, para alguns desses grupos, a designação apenas serve para legitimar as práticas sexuais mágicas a que se dedicam.

A Génese dos Rosas-Cruzes
Os Rosas-Cruzes começaram por ser uma ficção romanesca, porém os ideais que representavam, pareceram agradar muito ao espírito de muitos livres-pensadores também.
Assim se formaram sociedades de homens movidos por estes ideais e, que se intitulavam «Irmandades dos Rosas-Cruzes». Desenvolveu-se um sistema hierárquico com diversos graus de iniciação e os Rosas-Cruzes exerceram mesmo uma influência directa no surgimento da Maçonaria no século XVIII.
Este movimento «Rosa-Cruzista» foi efectivamente fundado por figuras influentes tais como Michael Majer (1568-1622), o médico pessoal do imperador Rodolfo II, e Robert Fludd (1574-1637). Este último, importante estudioso inglês das Ciências Naturais e filósofo místico, procurou nos seus escritos fornecer um sistema abrangente de correspondência cósmicas.
Em impressionantes calcografias e, complicados diagramas, conseguiu ilustrar a concepção do mundo que os Rosas-Cruzes defendiam. Na sua História do Macrocosmos e do Microcosmos (1617), Robert Fludd desenvolveu um sistema filosófico-natural que gozou de grande prestígio e, aceitação nos círculos do ocultismo.

Reportados que estariam para um horizonte mais tecnicista, filosófico e mundano - sob uma perspectiva sociológica, política, religiosa e efectivamente científica - estes homens da Irmandade Rosas-Cruzes (alguns deles certamente) teriam havido as melhores intenções na evolução humana. Outros, nem tanto. Contudo, foi de facto abrangente e deveras empreendedor esse mecanismo deixado escrito e documentado sobre o cosmos em macro e micro dimensão que Fludd tentou registar para a posteridade. Salva-se esse facto e pragmatismo de quem se dizia um estudioso exímio nessas artes e ofícios, tanto das ciências como das filosofias de origem mítica e ocultista. Outros houve que só se quiseram evidenciar mas pela negativa, extrapolando poderes e enunciando para o futuro outras obras que não as devidas em hipotéticas práticas sexuais abusivas e questionáveis que se outorgavam de mágicas em misticidades inventadas. Seja como for, mais uma vez se regista na História dos homens ao longo dos tempos, de uma maior densidade e procura existencial para além dos parâmetros que até aí se convencionavam. Fosse pelo bem ou...pelo mal em caminhos desviados ou transviados, o certo é que se tentou encontrar algo de diferente e de portentoso, ainda que nem todos o tenham seguido de igual forma. Irmandade dos Rosas-Cruzes ou pseudo-Irmandade, para a História Universal ficará a glória do pensamento e da acção diferentes nessa longa escadaria da evolução humana. Pelo bem e só pelo bem e pelo conhecimento, assim continue a ser; a bem da Humanidade!