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sábado, 26 de abril de 2014

A Dança do Universo


Espiral da Via Láctea

Qual será a verdadeira resposta na representação cósmica - análoga à espiral da Via Láctea - que, induzindo o ser humano numa corrente permanente do nascer e do perecer, se influi também numa constante alteração, permanecendo ao mesmo tempo imutável?

A Espiral
As espirais são um dos símbolos mais antigos da Humanidade. Podemos encontrá-las tanto em figuras rupestres como em gigantescos túmulos de pedra pré-históricos, em escaravelhos e pinturas fúnebres no Antigo Egipto ou ainda em templos do Extremo-Oriente.
No entanto, o conteúdo simbólico deste motivo ornamental é polémico. É provável que o seu contexto se integre no complexo movimento cíclico do Sol ou, nas fases da Lua e na sua influência sobre a água ou a fertilidade. Assim, a espiral exprime a génese e designa o eterno retorno e o carácter repetitivo da evolução. É sobretudo a espiral dupla que, no âmbito dos seus movimentos giratórios para dentro e para fora, dá azo a interpretações de retorno e renovação, de vida e morte.
Desde a Idade da Pedra, onde quer que surja uma espiral, esta remete para uma renovação da vida, para a fertilidade vegetal e, orgânica. Só assim se compreende a sua posterior utilização em pedras tumulares cristãs de origem Celta. A disposição de pedras em forma de espiral - como por exemplo, os labirintos ao ar livre conhecidos como «trojborgen», no Norte da Europa, próximo de Visby, na Gotlândia - remete para uma função de culto deste motivo, a qual pode ser observada em contexto com o Sol. Enquanto símbolo da fertilidade e do desenvolvimento da vida, vamos encontrar a espiral na zona genital de estatuetas femininas em antigas culturas mediterrânicas. Na arte cristã da Idade Média, a espiral aparece também relacionada com Cristo ou com símbolos cristãos.

A Eternidade da Génese e da Morte
Nos místicos ensinamentos secretos do lendário autor dos chamados «escritos herméticos», Hermes Trismegisto, da Antiguidade Clássica, descreve-se a permuta e o efeito de alternância entre o Homem e o Universo, o microcosmos e o macrocosmos: «assim como em cima, também em baixo», pode ler-se na obra de Trismegisto. A simbologia da espiral parece reencontrar-se aqui, tal como na frase-chave do filósofo grego Heraclito. (c. 550-480 a. C.): «Panta rhei», (tudo flui). Heraclito ensina que, todo o ser se encontra na corrente permanente do nascer e do perecer.

Sem Princípio nem Fim
No formato de uma espiral - quer ela seja tridimensional em forma de parafuso ou bidimensional e plana - não é possível encontrar um verdadeiro princípio nem fim. A espiral continua a girar eternamente - referência essa que, em última análise, também podemos encontrar nas poeiras cósmicas em espiral da Via Láctea.
Através do seu movimento giratório, o enrolar e o imediato abrir de novo, a espiral representa uma ordem aparente, mas para a qual faltam delimitações e regras definidas.
Desta forma, a espiral provoca um sentimento de insegurança ao observador, pois este dificilmente consegue equilibrar a flutuação do simbolismo com a sua experiência na matéria. Assim sendo, a espiral representa também as dúvidas e as perguntas sem resposta do ser humano. Este símbolo ancestral, porém, não fornece respostas; escapa ao entendimento inquisidor, na medida em que - aparentemente em fuga - está constantemente a alterar-se, ao mesmo tempo que permanece igual.

A Dança do Universo
Como uma espécie de dança em que todo o Universo surge, leva-nos a referir também a dança dos Dervixes - membros de uma Ordem mística do Islão - em que, se procede igualmente a uma representação da espiral, nela se exprimindo o movimento celeste de um planeta em torno do seu próprio eixo e, em torno do Sol. Deixando o corpo girar sobre o eixo imóvel do seu próprio coração em movimentos de dança vertiginosos, o Dervixe recria o movimento do Universo em forma de espiral e a própria criação.
Num estado semelhante ao de transe, o Dervixe consegue desta maneira absorver as manifestações do divino, que o conduzem a conhecimentos mais elevados e lhe permitem reconhecer a origem divina.

A Rosa Negra e as Setas rumo ao Superior
Milly Canavero, oriunda de Génova, viveu no início dos anos 80 uma experiência assaz estranha. Debruçada sobre o seu bloco de desenho, estava a preparar-se para fazer um esboço da árvore que se encontrava à frente da sua janela, quando de repente a caneta de feltro que segurava pareceu ganhar uma certa independência. Tudo aconteceu como que automaticamente.
Afinal não desenhara uma árvore, mas círculos que se sobrepunham uns aos outros. Uma espiral puramente interminável, através da qual linhas direitas apontavam para cima como setas.
Depois deste acontecimento, Milly Canavero desenhou milhares destas espirais que, apesar da sua geometria exacta, resultaram diferentes umas das outras. Na base dos seus desenhos, encontram-se muitas vezes estranhos caracteres que fazem lembrar escritos pré-históricos e, como marca ou assinatura, aparece sempre uma pequena rosa negra.
Milly Canavero: "No início, os motivos eram muito simples; entretanto, já são bastante complicados. Qualquer um dos traços e qualquer direcção das linhas, tem em si um significado próprio. A rosa é a vida, a espiral corresponde à evolução do Homem. As setas que apontam para cima, são assim o símbolo para a orientação de todos os nossos esforços no sentido de algo mais elevado!"

Na geometria fractal desenvolvida pelo matemático americano B. Mandelbrot (n. 1924), as formas e manifestações complexas (fractais) são apresentadas sob o nome de conjunto de Mandelbrot.
Quanto às rosas, símbolos manifestamente de morte e renascimento - no que se constitui em alegoria desse processo - ou seja, da própria vida, revelando-nos assim a determinação cíclica de um nascer e perecer como já Heraclito o registara. A disposição das suas folhas (rosa) fazem-nos lembrar da correspondência perfeita com a espiral, daí que não seja de todo inexplícita, esta teoria comum ao Universo de uma sua dança em espiral filosófica, coerente com a própria génese humana em vida e morte. Pela eternidade que nos assiste de todo um conhecimento gestante e germinativo em evolução permanente, apenas se poderá acrescentar de que talvez a Via Láctea nos dê  de facto a resposta em imagem e suspensão do que há muito procuramos em verdade e anunciação do: de onde viemos e para onde vamos...! A bem dessa verdade, a bem de todo esse conhecimento e da Humanidade, assim seja então!