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terça-feira, 29 de abril de 2014

A Esperança VIII


Planeta Prócion B - Enclave Estelar de Prócion B/ Sírio B/ Cygni B

Desistir ou pugnar pela quase incoerente luta de me fazer ouvir, de me fazer ser feita justiça...? Continuar na persistência dos dias e noites que não sinto, ou deixar-me morrer por entre este imenso Universo de ódios, incomodidades e regras hostis a quem sentem inferior? Terei forças, energias inauditas em mim que me façam revoltar, sublevar a tudo e todos e, determinar-me como aquilo que sou, como mulher e...terrestre?

O Degredo
Subjugada à magra condição de nada, vi-me ser levada pelos meus carrascos estelares que, a mando de algo superior, me condenaram a um degredo maior do que o lamento em mim sentido da distância que agora estou de Siul. Não houve palavras nem gritos mais, nem sequer o súplico olhar réstio de quem já nada tem, de quem já nada espera. Foi tudo em vão. Movo-me agora sem deleite ou afeição por entre estas celas de negrume onde me encontro. Estou só e perdida. Novamente! Parece já um estado endémico em mim que me faz ser um corpo celeste ou uma espécie de anti-matéria no Espaço.
Sinto-me vazia. Sinto-me mal. Vomito as entranhas pelo mal-estar súbito que se abateu sobre mim em que o corpo me não dá tréguas do que a mente me inferniza em solidão e, abatimento de alma. Estou infecta de anti-corpos em bactérias vis que já nem sei controlar ante esta minha angústia, quase não dormindo, quase não me alimentando de nutrientes que me façam sobreviver aqui e, de toda esta infactível situação de desperdício estelar que lhes sou. Apenas rumorejo uma luz ao fundo do túnel - como um dia o meu querido Sábio-mor me expressou na linhagem e fronteira de uma outra vida a despontar - o que, aqui, está a suceder; literalmente! Se alguma luz, alguma estrela me brilhou...foi a noção de que não estou só de facto, mas não em companhia exterior, pois aqui neste lugar não existe nada, ou praticamente nada!
Havendo o auspício determinado sobre mim - sem ainda saber muito bem qual a verdadeira acusação e condenação sobre a minha pessoa - vi-me alcançar a maior das prioridades, a maior das prorrogativas, se é que me querem para cobaia (ou saque) e dissecação laboratorial: estou grávida!
Em Prócion já o sabem. Os testes confirmaram-no ao segundo dia de permanência neste escuro e exíguo presídio em que me encontro. Até aqui, eu fora uma pequena partícula à semelhança dos fotões e neutrinos, vagueando num mar de incerteza do que me via ser pungida em desmembramento de alma por todos eles aqui. Tive a noção correcta do que é ser-se abjecto. Tive a certeza do que é sentirmo-nos evasivos e corpos celestes desintegrados no Universo, de quando me asseveraram eu ir aqui apodrecer sem apelo nem agravo, sem nada que me pudesse restabelecer a esperança perdida. Mas, quando tive a certeza também do meu estado físico alterado, pensei: não vou morrer! Vou viver! Vou lutar! E que todos estes filhos da mãe estelares se fodam! Agora quem dá cartas sou eu. Vou ser mãe; de novo! De facto - considerei - devo ser a gaja mais profícua e fértil do Universo...dou uma e fico grávida! Mesmo que...tenha sido uma inesquecível!

Na Cela - O Quotidiano
Por vezes o cárcere pode ser penoso, exaustivo e até melindroso se não tivermos em conta quem nos protege ou sequer fale connosco. Eu não tinha nada disso. Até ao dia em que me fizeram interagir com aquela espécie de sete anões da Branca de Neve dos ancestrais contos infantis dos irmãos Grimm.
Fiquei boquiaberta. Oscilaram entre a amistosa prestação dos seus cuidados sobre mim e, a esquisita deformação apresentada sob o ponto de vista analítico e efectivado em mim, de toda a sua expiável observação, ainda que o tentassem ocultar. Estou a falar de sete pequenos seres; sete seres cinzentos, de olhos grandes e cérebro imenso - pelo que lhes reconheci em percepção, intuição e poder sensitivo - numa miscelânea composta de inteligência, ternura e mesmo afecto para comigo. Algo estranho, muito estranho...senti. Aqueles seres - provindos de Cygni B - já eram conhecidos pela sua permeabilidade de convivência e autoridade mas nunca por afabilidade, daí a minha estranheza total e certa insegurança do que poderiam estar a querer extrair de mim como vulgar terrestre em simbologia e espécimen laboratorial de pesquisa e, dissecação. Parecia ser o meu estado permanente, observei então em mim.
Alioth, Merak, Mizar, Megrez, Phekda, Dubhe e Alkaid de seus nomes estelares - aquiesceram em pronúncio de maior aproximação comigo - tentando aquietar-me, sossegar-me os medos, os temores de me irem retalhar em cama cirúrgica, se acaso fossem esses os intentos deles ou então, usurpar-me aquele feto híbrido em mim, aquele meu filho que ainda não sentindo, já o amava incondicionalmente. Fiquei em pânico!
Eu já tinha superado e sobrevivido a tanta coisa...mas pensar que agora estava nas mãos daqueles crápulas estelares que só me queriam volatilizar, fazer esfumar ou desaparecer num imenso buraco negro em matéria quente ou fria do Universo. Até parecia que da esfera compacta e negra desse Universo, eu passara de simples neutrino em matéria escura exótica, para agora (e para eles...) a reversível matéria bariónica como se a irreversibilidade do interesse deles por mim, se revivificasse de novo e eu lhes fosse novamente, uma parte luminosa como estrela brilhante no meio de um negrume universal.
Os meus antepassados de Nibiru deviam estar a rir-se de mim, agora. Eles, que tão bravos e poderosos foram por meio de trasladação do seu planeta para o meu - agora tão distante...da minha amada Terra - em transformação, colonização e vivência póstuma, eu não lhes dar a merecida homenagem por tão fraca me ver em revolta e sublevação sobre estes meus inquisidores. Há 450 mil milhões de anos que o sinto...como os meus ancestrais antepassados e nem consigo fazer-lhes justiça à tamanha coragem e glória de se terem aventurado por um pequeno mas farto e belo planeta que é, ainda hoje, a minha bela Terra. Hoje sou, talvez, uma pequena poeira da imensa nuvem de matéria, da qual se formou o meu sistema solar em Nebulosa extensa e, linda. Sou antes, um receptáculo do meu feito maior em quinta vez de gravidez anunciada, do que terei de proteger com a própria vida nessa espécie de núcleo estelar em mim que me faz sorrir e ter de facto esperança de que algo ainda possa mudar. O meu Deus-Uno que assim oiça e me afaste esta tamanha vulnerabilidade a que estou sujeita e fria, tão fria quanto o extenso Universo!

O Sonho
Ainda sonho. Sonho com Siul. Que ele me vem sufragar este sofrimento. Que ele me procura e liberta destas amarras judiciais estelares que aqui me querem fazer perpetuar na dor e, no mal-estar, de não ter por perto Siul e, os meus queridos filhos que devem dar mostras de muita preocupação pelo que me tem sucedido nos últimos tempos. Os meus gémeos devem chorar à noite com saudades minhas - para além dos mais velhos que o tentam ofuscar de outras formas - e eu, sentindo essa sua tristeza imparável e, inesgotável nestes complicados tempos, vejo-me ensandecer, enfraquecida, débil e frágil, ante tanta injustiça e tanta separação cruel, só pelo facto de ter quebrado regras e leis universais de não permissão conjugável, de não concepção e reprodução nos lindos filhos que dei ao Universo com Siul. Para mim, a acoplagem perfeita de dois corpos, duas almas distintas. Para eles...a imperfeição, a deformação exacta do que se não deve fazer, do que se não deve realizar. Poderes implacáveis sem dúvida, inexoráveis no tempo, no espaço e na matéria que nos conduz a todos no Universo que no fundo, deveria ser de todos em abrangência e conforto como um grande colo materno de onde todos viemos e, para onde todos iremos um dia!
As minhas noites são piores que os dias, ainda que estes estejam todos envoltos na agonia inexpugnável em que me situo no meio desta fria, branca e incólume cela de pena e castigos inclementes sobre mim. Mas sonho ainda do que recordo do amor que eu e Siul fazíamos, dos seus abraços, dos seus beijos. E nem quando estes ogres cinzentos me interrompem a voluptuosa miríade de recordações - quando de vez em vez me vêem cirandar para observar se está tudo bem comigo - eu lhes concedo o prazer do que revivo em memória e cumprimento deste amor inextinguível, até mesmo além a morte física. Pois que, não há morte!
Siul, é a minha galáxia espiral e eu...a sua galáxia elíptica. Siul é como se me fosse a constelação de Hidra, a minha M 83 em dois braços espirais envolventes e um outro que me ostenta a segurança, agora perdida ou pelo menos... desaparecida nos corredores do tempo. Eu, como espécie de galáxia elíptica, formada e nascida da colisão e fusão da minha espiral Siul, revejo-me triunfal, super-brilhante, tri-dimensional, em poderes só meus, fazendo rebrilhar o meu pequeno núcleo estelar em mim, sobre o que considero ser este nosso quinto filho como estrela maior do Universo. E Siul que ainda nada sabe...invade-me então toda a tristeza incomensurável de todos os mundos, planetas, estrelas e sistemas solares de que há memória, por toda a iniquidade estelar do que me pungem sem que eu o possa rebater. Sustenho-me numa aura amovível e, de certa forma doentia, de um geotactismo impensável até aqui, por uma estranha acção de gravidade que me desequilibra, hostilizando o querer e a vontade. Mas tenho de ser firme. Por mim e...por este novo filho que, Deus-Uno me permita, verá a luz do mundo, verá a luz das estrelas e... será tão lindo e perfeito como os seus outros irmãos que por mim ainda esperam, ávidos da sua mãe. Afinal, há muito que deixei que me invadissem o espaço físico e humano no que já foram meus antepassados de Homo Erectus para Homo Sapiens...e tantas outras manipulações genéticas que já nem dou conta. Mas neste meu filho, não! Ser híbrido não quer dizer, ser malformado em conceptualização cromossómica disforme, arredada de amor, consciência e mesmo perfeição. Ambíguo e disforme é o que os de Prócion B, Sírio B e Cygni B querem - em tríade maldita - fazer de, e em mim. Não posso permitir. Tenho de persistir e continuar. Tenho de ter esperança e homenagear o meu ancestral Enki que a tudo assomou, a tudo revolveu e na Terra, a tudo acorreu em positiva e final consignação do que haveria de fazer eclodir e, renascer, em novos tempos e novos sonhos na Terra. Serei eu digna de continuar essa sua obra, ainda que por amarras e presídios estelares me veja assim tão impotente? Mas não recuarei nem em caminhos percorridos nem em quebrantos ou desmandos de outros, sejam quais forem os estelares que me queiram amordaçar em remissiva vontade de voltar a ter nos braços Siul e os meus filhos. Tenho de lutar. Tenho de ter um poder maior de resiliência inviolável e, inextirpável, do que me faz sobreviver e anuir pela criança que gero em mim. O meu futuro só eu é que o faço! Nem nada nem ninguém mo arrancam de mim! Um dia...que espero breve, o meu Siul vai voltar e vamos todos finalmente ser felizes, com ele, Siul, e todos os nossos abençoados filhos que o Deus-Uno me ofertou em si, no seu seio, no seu ventre universal, no seu infinito e inextinguível Universo de estrelas e planetas tão lindos como a minha bela e saudosa Terra - para onde irei um dia em vida e morte, morte e vida se Deus-Uno permitir. Nesta fúria amarga ou desejo incendiado, consumidor e faminto que é a minha alma na eterna busca do meu outro eu, da minha outra alma, Siul, eu aqui perante Deus-Uno afirmo: és meu, sê-lo-às sempre «ad eternum»! Com Deus-Uno em vigília, permanência e abraço, tão forte, magnânimo e presente quanto o são as minhas lembranças por ti, meu amado Siul! A esperança nunca morrerá...à nossa glória e semelhança do que nos faz eternos na vida estelar! Deus-Uno é testemunha!