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quinta-feira, 19 de dezembro de 2013

A Seita Orgiástica



Terá de facto existido o curioso e estranho ser híbrido chamado Abraxas como divindade venerada pela seita gnóstica de Basilides?

A Seita Gnóstica
Gnose: o anseio pela pureza de espírito. No início da Era Cristã, desenvolveu-se uma forma de religião que se espalhou por todo o Império Romano. Muitas das ideias que davam forma a esta manifestação religiosa foram desenvolvidas na cidade Egípcia de Alexandria, o centro intelectual daquela época, onde as tradições asiáticas tomavam contacto com a filosofia Helenística. Era a partir daí que, irradiavam as inúmeras facetas do movimento religioso subordinado à noção de «gnose» (conhecimento), ameaçando mesmo sobrepor-se ao Cristianismo.

Dualismo Radical
Os Gnósticos estavam convencidos que a criação se devia a um Deus mau e, às criaturas inferiores amaldiçoadas pelo Deus bom, os «Arcontes». Em virtude da influência dos Arcontes e Demónios, tudo o que é material, é mau. O Deus bom, o Deus verdadeiro, existe para além de tudo o que foi criado.
Nas diferentes seitas gnósticas, recebe o nome de «o outro», «o estranho», «a profundeza», «o abismo», «a não-existência». Na alma do ser humano havia sido colocada uma centelha deste espírito divino. Reconhecê-lo, constituía assim um acto de gnose, o primeiro passo no sentido da conversão.
Os Gnósticos concentravam toda a sua ambição nesta centelha divina interior que, deveria ser alimentada.

Rejeição dos Aspectos Materiais
Os Gnósticos rejeitavam radicalmente o corpo e tudo o que fosse terreno. Ao tornar-se carne no corpo terreno, o espírito esquece a sua origem. No corpo, esse «produto do esquecimento», o verdadeiro ser humano - o ser humano espiritual - encontra-se como que encarcerado. A libertação dessa prisão é possível através da tomada de consciência, a recordação da verdadeira morada do espírito é chamada de gnose.
Deus constituía o impulso, rumo ao fundamento da própria alma e o pretexto para o ser humano se elevar ao «Reino do Espírito» puro e verdadeiro. Toda a acção dos Gnósticos visava a libertação do cárcere da materialidade. Desenvolviam diversas práticas místicas para atingir a evasão desse estado de catividade no mundo terreno: estas envolviam desde a ascese - em que desprezavam o próprio corpo - até à expulsão do mal, mediante excessos orgiásticos.

Tradição Gnóstica
Com base nas suas concepções e o seu entendimento do mundo, os Gnósticos reclamavam para si a condição de pureza. Apenas poderia ser manchado pelo pecado, o corpo que fosse um produto, uma criação do Deus mau. Por essa razão, determinadas seitas dedicavam-se à prática de condutas sexuais excessivas. Cultos orgiásticos tinham como objectivo purificar o mal terreno. Para outras, a nudez era testemunho da sua conquista e do quanto haviam progredido na superação do sentimento de vergonha.
Desde a Gnose - passando pelos Cátaros da Idade Média - parece correr uma linha de tradição que nos leva directamente aos Adamitas do século XVIII, uma comunidade religiosa que, numa representação da inocência paradisíaca, celebrava as suas cerimónias em completa nudez.
A verdadeira existência desta seita não se encontra, porém, historicamente documentada de modo seguro.

Abraxas
Para a seita gnóstica liderada por Basilides - um dos principais gnósticos de Alexandria por volta de 130 d. C. - Abraxas era tido como a divindade suprema. De acordo com o sistema de numeração grego, a soma do valor dos números a que as letras que formam a palavra «Abraxas» correspondem, perfaz 365 como se vê de seguida:    A = 1   /   b = 2   /   r = 100   /   a = 1   /   x = 60   /   a = 1   /   s = 200 = Soma 365.
A «divindade» é assim associada a um símbolo da totalidade, o número de dias de um ano.
Abraxas era representado como um ser híbrido com cabeça de galo ou de burro e, serpentes, no lugar das pernas e pés. Desde a Antiguidade até à Idade Média as gemas, pedras semipreciosas artisticamente lapidadas, em que Abraxas surgia representado e onde era gravado o seu nome, «Iao Abraxas», eram tidas como amuletos bastante poderosos.

Quem teria sido exactamente este estranho ser híbrido - a ter existido na realidade - e de onde terá vindo em origem e proveniência na sua génese total? Impõe-se de novo esta e outras questões em aberto: terá sido este ser, disforme, horrendo de certa forma, exterior a tudo o que era conhecido até então no mundo terreno e, terrestre, um ser provindo do Espaço? Algo ou alguém que, expulso ou banido do seu hipotético Reino Celestial, veio criar território, doutrina e seguidores da mesma sobre o que de si exalava em anormalidade ou comum para a época? Ou simplesmente alguém deveras ardiloso e de mente pouco escrupulosa que arrastando muitos atrás de si em interesses seus, se viu ser venerado e endeusado por obras pouco dignas mas ainda assim, correligionárias por tantos outros ao longo da História?