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quarta-feira, 11 de dezembro de 2013

A Liquefacção



Será milagre ou somente um efeito circunstancial de cariz científico ou natural, a liquefacção do sangue de São Januário?

São Januário - A Liquefacção do Sangue
Januário, bispo de Benevento, no Sul de Itália, foi decapitado cerca de 305 em Pozzuoli, em Nápoles, por altura da perseguição aos cristãos levada a cabo pelo imperador Diocleciano. Uma mulher teria recolhido o sangue em dois frascos, logo a seguir ao suplício. O sangue ter-se-ia liquefeito pela primeira vez em 313, quando foi transladado para Nápoles, juntamente com as ossadas.

O Sangue do Mártir
Todos os anos a 19 de Setembro, suposto aniversário de São Januário (San Gennaro), tem lugar um espectáculo extraordinário na Catedral de Nápoles. É neste primeiro dia de uma semana de festividades religiosas que se tira a famosa relíquia do seu relicário.
Numa vitrina encontram-se encerrados numa custódia dois frascos ligeiramente achatados, tapados com uma espécie de betume escuro. O mais pequeno contém apenas uns salpicos, mas vê-se no maior (teca) uma massa compacta e negra que o enche até cerca de dois terços. Trata-se, ao que se diz, do sangue do mártir. No aniversário de São Januário e, em determinados feriados religiosos, o sangue da «teca» liquefaz-se: um «milagre», cujo não cumprimento é considerado um mau presságio pelos Napolitanos.

O «Milagre»
Depois de retirar a custódia com o sangue de São Januário do relicário de prata, o padre aproxima-a da cabeça do Santo e mostra-a várias vezes aos fiéis reunidos na igreja. A emoção religiosa cresce, os cânticos intensificam-se e, as litanias, transformam-se em súplicas, acompanhadas de comportamentos dramáticos e fervorosos. Diz-se que, ás vezes, quando o milagre demora mais tempo do que o previsto, as orações se transformam em imprecações de um momento para o outro em verdadeira fleuma carismática de uma religiosidade ímpar. Quando a massa do frasquinho começa a liquefazer-se, o padre levanta-o bem alto e agita um lenço branco para indicar que se deu o milagre.

História das Investigações
De uma perspectiva cultural e histórica, a liquefacção do sangue de São Januário é muito interessante, tanto mais que representa o fenómeno insólito melhor documentado em termos históricos.
Existem textos sistemáticos sobre a liquefacção do sangue desde 1659, mas há registos do milagre de muitos séculos anteriores a esta data.
Investigações científicas, pelo contrário, existem muito poucas. Em 1902, registaram-se alterações da temperatura e do peso e fez-se então, uma análise espectral da substância com os métodos de que na altura se dispunha. A análise espectral revelou que, a substância contém mesmo sangue.
No seu trabalho «Prodiges Sanguins après la Mort» (Prodígios Sanguíneos depois da Morte), o médico francês Hubert Larcher, antigo director do Instituto Metapsíquico de Paris, dá a entender que o líquido contém apenas a quantidade de sangue necessária, para que as suas características apareçam no espectroscópio. Não ficou assim provado que o frasco só contém sangue, mas a investigação mostrou que, pelo menos, existe nele uma quantidade considerável. Não se pode no entanto saber se, como se diz, o frasco não é aberto desde o século XIV.

Uma das Primeiras Experiências
Desde muito cedo que surgiram dúvidas sobre a autenticidade do sangue do frasco. Um texto datado de 1734, relata uma demonstração feita pelo médico e químico Neumann que, perante uma assembleia de membros da Real Sociedade das Ciências de Berlim, tirou de uma caixa um frasco contendo uma substância seca e escura. Para dar emoção ao acontecimento, mandou vir um crânio e segurou-lhe o frasco por cima. A substãncia começou a liquefazer-se e, o seu volume a aumentar.
Neumann misturara uma substância que o químico italiano Luigi Garlaschelli pensa ser semelhante à que se encontra no frasco. Segundo ele, encheram-no na Alta Idade Média com uma solução à base de cloreto de ferro, cal e sal de cozinha e que, em condições estáveis, parece sangue coagulado. Uma tal substância, chamada «tixotrope», permanece no estado sólido quando está em repouso, mas liquefaz-se logo, assim que é agitada.

Verdade ou não, o certo é que se fazem verdadeiras romarias em honra e homenagem a este infeliz bispo secular na memória e, na eternidade de uma crença popular jamais vista. A Catedral de Nápoles chega a ser pequena, exígua mesmo, para a enorme multidão que assim acompanha estes festejos litúrgicos em devoção extrema a São Januário no dia 19 de Setembro de cada ano. Agitam-se numa estranha ousadia de curiosidade e sublimação, ante o especial ou particular líquido milagroso do Santo mártir que o padre subleva com admiração e rigorosa encenação espiritual. Todos o seguem expectantes, vendo em observações individuais se este sangue - em frasco apresentado - lhes reverte o milagre tão desejado. Cumprida a missão, todos se vangloriam ante a felicidade suprema de uma homilia abençoada e, concretizada. Se o sangue é mesmo de São Januário e este por si, é uma obra milagreira perante todos, então é porque deve assim mesmo ser preservado, sendo inexpugnável esse sentimento e acção ao longo dos tempos. Quebrar emoções ou simplesmente recolher na verdade dos factos, todo este potencial religioso nos crentes, é algo muito difícil de dissociar mas, como em tudo na vida, haverá sempre mas sempre, que respeitar e cobrar a verdade, só a verdade, ainda que esta nos doa pela circunstancial actuação científica em nos ditar essa outra verdade. Confuso? Nem tanto...basta acreditar! Pela crença, pela verdade científica ou religiosa, o importante é acreditar, só isso, independentemente do que nos rege na vida em ideologias ou simpatias, por umas e por outras vertentes paralelas nesta nossa vida. A Crença tem de andar de mãos dadas com a Ciência, apesar de todos sabermos, quão difícil e mesmo inatingível isso possa ser. Mas, a bem de toda a Humanidade, assim possa ser!