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sábado, 10 de maio de 2014

A Mutação


Ecografia de Feto Híbrido - (Feto Mutante/Alienígena)

Onde começa a realidade e acaba o pesadelo...? Por quanto tempo mais terei de viver com esta angústia em desequilíbrio de corpo e alma, submetendo-me a ordens não-divinas, não correctas e muito menos consensuais com a minha fé e, a minha auto-estima? Porque me fizeram gerar um monstro...? Porque fui eu a escolhida para tabernáculo de incubadora terrestre - de intentos tão hediondos quanto jocosos sobre o que desconhecem do ser humano? E porque mo imputaram no que não escolhi nem tive opinião...?

Setembro/Dezembro do ano 1989 - (Continuação do texto: A Fábrica)

A Violação
Se há crime mais desonesto e não-íntegro (se é que algum o é...), é aquele que nos remetem sem indiciar qualquer vestígio, pista ou sequer leve fragmento de impressões digitais - como despistagem policial em espécie de CSI global na resolução e eficácia de um qualquer crime, mesmo os que se clamam de «perfeitos», sem deixar rasto. Poderia eu sublevar-me a tão odiosa consequência, não tendo a mais ténue insinuação de toda a maldição póstuma sobre mim...? Poderia contrariar esse tão grande poder superior que faziam em mim sobre dislates tão ignóbeis quanto verosímeis sobre os meus direitos de cidadã terrestre, de cidadã do mundo? Poderia contestar, revoltar-me...e abolir essa mutação genética (ou monstruosidade!) conceptualizada no meu ventre em completa obstrução desses meus direitos universais na Terra? Poderia...?

A Constatação
Enlouquecer era fácil demais. Tomar-me de uma outra consciência mais filantrópica ou psicossomática que me desvanecesse a alma e, o poder incomensurável daquela malformação genética em mim. Medicar-me pessoalmente em carradas de Haldol ( medicação do foro psiquiátrico) em prescrição minha de me ver dissolver tudo em extensa alucinação - em infinito poder alucinogéneo - como se toxicodependente eu fosse. Usar de psicotrópicos ou outros similares, não me trariam a pacificação do corpo e da alma naquele vasto turbilhão de sentimentos em que me encontrava, derreada e exausta! Quem me ajudaria? Quem me socorreria...? Quem me compreenderia afinal...?
Eu estava a gerar um monstro! A ecografia era disso registo e pontificado máximo em mim; e eu...barata tonta que era, no meio desses desígnios igualmente mal-formados e mal-intencionados (supus), na escolha e preferência que em mim pungiram em delação execrável, inumana...literalmente!
Teria de fazer uma ablação - do feto e...de parte da minha alma, consciencializei - por tudo que me estava a suceder em endemoninhada transformação, dentro e fora do meu corpo. Era horrível demais para ser verdade! Tinha de extrair aquele mal de mim e...contraditoriamente ou em oposição a tudo isso, eu parecia sentir algum afecto por aquele ser disforme, híbrido, insurrecto em mim. Odiei-me! Era tão sofrivelmente falacioso e doentio em mim que me fez suscitar o poder inumano também...do suicídio.
O médico ginecologista que me assistiu referia que, eu possivelmente tinha estado sujeita a uma qualquer radiação ionizante, a qual teria hipoteticamente danificado o ADN do feto em mutação agora latente. Aferiu-me de que, a anomalia cromossómica era deveras grave - como se alguma outra fosse de índole mais leve...anuí para mim, em perfuração de maior consciência ou alma ferida - e, ainda, de que poderia (eventualmente...ou não) poder vir a sofrer em breve de um aborto espontâneo, pois o organismo muitas das vezes expelia as anomalias apresentadas em concepção e gestação reveladas. Que se poderia esperar mais um pouco em subconsequência ou mesmo sequencial dinâmica do que a experiência lhe ditava saber.
Fiquei confusa. Fiquei entre a espada e a parede: Retirar de imediato aquele monstro de mim ou...deixá-lo sobreviver mais um pouco...? Mas isso, não era ir contra toda a natura e normalidade conceptual física e mental, aquiesci sem demora...?! Estava tão baralhada! Estava tão distante da realidade como a Terra dos outros planetas em que apenas se sonha poder viajar...estava completamente alucinada!
Eu era uma célula ambulante terrestre que continha em vácuo e líquido amniótico um ser híbrido, um ser estranho das profundezas estelares ou...das da minha exasperada alma que se via agora metida num sarilho maior do que os das guerras dos cem anos...ou de outras! Eu era um tabernáculo terrestre, idiota e sem merecimento ou misericórdia, até dos meus iguais - se acaso me soubessem portadora desta enorme infelicidade em mim assistida. Que fazer então?...Mandar-me da ponte «Sobre-o Tejo» abaixo...(ainda não existia a ponte Vasco da Gama...) ir para a «Segunda-Circular» (uma das vias mais rápidas e de acesso a Lisboa) e deitar-me na estrada de braços abertos à semelhança de um Cristo redentor e sacrificar-me por um bem ou mal que me haviam imputado sem eu o querer, sem eu o desejar...? Enfrascar-me de ácido etílico puro e deixar corroer as entranhas malditas em mim e esperar para ver? Usar veneno para os ratos, ácidos corrosivos - e mortalmente destruidores da flora intestinal?...Suicidar-me assim, sem defrontar o problema existencial e inorgânico que germinava em mim como seiva e silvas ruins, lubrificando-me ainda mais a raiva e o despudor de terem encrostado em mim aquele ser horroroso?
Fui estudar o «problema». Ainda não havia Internet - nem computadores sequer - em que eu pudesse investigar e pesquisar tamanha desfaçatez fisionómica de patologia e (pandemia, senti...) em mim. Mas averiguei por livros e outros actos de maior verificação e literatura clínicas. Fiquei ainda mais estarrecida, perdida e totalmente fodida, perdoem-me a expressão. Nada me sossegava. Nada me dava o equilíbrio havido. Estava mesmo perdida! "Os proto-oncogenes, versões normais desses genes que sofreram mutação, regulam os processos fundamentais da divisão celular ou do crescimento." - Isto, dizia respeito às mutações celulares que originavam cancro nos humanos mas que, em iguais circunstâncias, na maioria das vezes, eram os produtos químicos nocivos ou as tais radiações ionizantes (que o médico me falara anteriormente...) que convertiam estes proto-oncogenes das células em oncogenes; que o cancro exige normalmente uma mutação de mais do que um oncogene para se desencadear...o que aqui eu ainda não sabia se, seria o caso. Para além de possuir um ser malformado, ainda teria posteriormente de arcar com possíveis consequências traumáticas (se acaso este nascesse...) de vir a sofrer de doença oncológica por sequencial deformação genética em miscelânia cromossómica defeituosa, da qual eu também ainda não sabia (completamente) as totais consequências. E de novo, o mesmo labirinto sacrificial, de cilício incomensurável em que me encontrava de não haver solução à vista. Daí, o adiar da resolução. Só queria morrer! Ou que me levassem de vez! E esperei...e esperei...e esperei...

O Fim
A saga cinéfila da senhora Segourney Weaver comparada à minha, parecia um conto de fadas...anuí, já mais tarde. A sequela cinematográfica em que o «seu Alien» lhe augurava paixão e completa devoção, enojaram-me! Vomitava o mundo, pelos horrores que sabia terem sido transpostos da tela e do mundo da ficção, para com a minha própria pessoa. Sem piedade, sem clemência e...sem opinião! «Eles» tinham decidido tudo por mim. Tinham resolvido tudo antes e depois de mim. Tinham extravasado, extrapolado e mesmo devassado tudo o que havia em mim de melhor. A pureza, a ingenuidade, a crença e...a felicidade dos meus vinte e poucos anos de idade, tudo tinha sido despojado, repugnante e odiosamente por «eles». E eu...assistia, impotentemente também. Era um círculo mágico do qual ninguém sai, a não ser que em arbítrio e desmando, «eles» assim o quisessem, assim o desejassem! E essa ordem, esse mando, esse querer tardava para acontecer...e eu, desesperava! Porquê a mim...meu Deus? Porque não a mim...? Asseverei, na condição máxima, dos que assim de igual forma se interrogam - aquando são acometidos por notícias sobre a sua saúde terminal em doença oncológica ou de outro foro degenerativo, quase sempre fatal sobre si. Que tinha eu de diferente para me libertar daquela capciosa exortação estelar sobre mim, sobre a minha dignidade, sobre a minha autenticidade de humana que era em deveres e direitos terrenos? Mas porque razão - insistia em mim - «eles» me haviam escolhido? Seria eu assim tão «especial»...? Ou tão errónea e tão indiferenciada como ser humano, que por esse mesmo facto me haviam seleccionado como esfregão usado, despojo terrestre em espécie de lixo urbano (ou rural...), dejecto ou desperdício de esgoto - pelo tanto a que me haviam sujeitado. Eu era lixo! Eu sentia-me lixo! E «eles»... sabiam-no!
Mas o fim, aproximou-se. Deu-se. Tão rápido, fugaz e impressionante como quando veio em ressurgimento de uma luz contrária, avessa aos nossos sonhos, aos nossos idílios terrenos. Extraíram a «coisa»! Obstruíram o caminho até aí anunciado em mim para depois me reexplicarem o sucedido. Não entendi. Ou não quis entender! A minha caminhada era mais árdua do que a dos peregrinos para Fátima ou para Santiago de Compustela...sem ter cajado que me segurasse ou valesse nessa caminhada. Estava só...tão só!
O fim deveria ter sido libertador...deveria; mas não foi. Exultei ainda mais angústia e insolvência de todos os meus princípios basilares na Terra. Fui mãe de qualquer coisa...de qualquer ser que entubaram e revivificaram como espécie de artificial ventre materno em cúpulas vítreas e longas em artificial líquido amniótico, supus. Não sabia. Fiquei pasma de todo ao ver a imensa tecnologia apresentada. De novo.
De seguida - em memórias que ainda hoje tento esquecer e não recordar em alegria ou sofrimento - ante uns olhos imensos e uns cérebros magnânimos de ocorrências eléctricas como auto-estradas terrestres, dizendo-me, aferindo-me, sossegando-me, aquietando-me...de que aquele pequeno ser extraído de mim...iria ser «alguém», iria ser futuro!...E eu...em letargia, estupefacção e idiotice terrestre abissal...anuí. Também pela razão inolvidável de não poder fazer outra coisa. Eu fora um receptáculo terrestre e «eles», os meus cirurgiões alienígenas em reposição ficcional do que no meu planeta eu vira em suspensão e alguma irritação, exibirem nas telas de cinema do mundo inteiro. Não era em vão que se considerava de que - muitas das vezes - a realidade ultrapassava a ficção. Eu era bem o testemunho disso e paguei-o com a própria vida em retorno à Terra e, a toda uma compleição subsequente de medicação e vigília psiquiátrica, a partir daí.
Hoje...a vida continua. Já passaram muitos anos...muitos, mesmo! Mas ainda lembro...ainda recordo amargamente o que vivi em experiência e...maldição, acredito. Ou talvez não. Penso que Deus esteve sempre do meu lado, nos bons e nos maus momentos e, como tal, só tenho a agradecer-lhe tamanha companhia, devoção e...aconselhamento. A Deus e...aos anjos. Ao meu Anjo Muriel (que «ele» continua a negar chamar-se assim...mas aceita por não se ver retratar em mais um nome disparatado terreno!) e, acima de tudo, a essa fé que não mais me deixou de ter conhecido uma outra realidade, uma outra verdade...ainda que muitos de nós seres humanos, ainda não estejamos preparados para a conhecer e, conceber! Que a Força de Deus na minha Alma para sempre permaneça e...me sinta sempre em si! É o meu desejo...Além as estrelas...Além o futuro...Além o Universo!