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domingo, 18 de maio de 2014

A Esperança XI


Alfa do Centauro A (Alpha Centauri A)
Distância da Terra: 4,3 Anos-Luz  / Classe Espectral: G2 V / Magnitude Aparente: -0,3
Ano Sideral: 3017  /  Ano na Terra: 3090 d. C.

Poder-se-à não ser ingrato ou subestimar este poder imenso, divino e estelar, de quereremos tudo, de querermos apenas o nosso mundo, aquele que tiraram de nós...aquele que tiraram de mim em filho que não vi, em filho que não amamentei e, em toda a minha voracidade de mãe ferida, mesmo havendo os restantes perto de mim? Será uma falácia, uma idiotice ou «somente» uma enorme infelicidade esta que vivo agora, de me reporem uns e continuar a sentir desnuda, magoada e carente no tanto que ainda falta para sermos em completo uma família, será...? E quando é que tudo isto terminará em abstrusa realidade estelar?...

A Soberania
Estou no planeta-mãe, planeta-sede, planeta tudo de Alfa do Centauro A. A magnitude e veemência que lhes tenho de remeter em vassalagem e reverência é tal, que me invade um sentimento estranho de omnipotência exagerada - deles - e timidez subserviente minha que me faz revolver as entranhas e dá enjoo só de observar tanta arrogância! Sinto um arrepio inexplicável do que contrariamente deveria consolidar por estes meus salvadores que me resgataram de Cygni B e daquela nada estóica tríade maldita de: Prócion B, Sírio B e Cygni B. Devia-lhes estar grata...mas não sei, sinto um aperto no peito inexplicável e muito fiável do que por outras vezes pressenti. Não são afáveis, mas são correctos. Exímios no trato e nas disposições, impõem-me agora uma submissão menos coerciva com os meus princípios, os meus fundamentos, as minhas eloquazes razões para o que lhes determinei sentir e fazer doravante num futuro próximo.
Ouvem-me. Escutam-me. Estou perante um tribunal judicial estelar...de novo! Parece até que fui criada para ser exibida em intermináveis instâncias de jurados estelares e seus conselheiros infinitamente audazes, perspicazes mas também -às vezes - inquisidores. Por vezes dou comigo a tremerem-me as pernas e uma secura de boca em lábios ferventes de uma febre não-virtual e. não-permanente, que me depõe na fraqueza apresentada, do que eu não desejava demonstrar. Sinto, nesta galvanizante Sede (de Alfa do Centauro A) de poder soberano imenso - na imponência Alfa do Centauro A sobre os outros - em deferência superior ao de B e à Próxima do Centauro, uma sapiente orgânica de tudo mover, tudo considerar, tudo fazer respeitar. De fisionomia humanóide, altos e mui louros - à semelhança dos ancestrais Escandinavos do meu planeta Terra - eles sabem ser afectos à minha causa e, às minhas imprecações até, de quando perco a paciência e lhes remeto um ou outro impropério menos digno de mim. Aventei hipóteses de me deixarem ir procurar sozinha aquele filho para trás deixado, para trás roubado mas aí, não se condoeram, não só pelo inútil da questão e dessa minha arreigada prática de querer esventrar o Universo em projecto e processo solitário de mim, como pela total desfaçatez cerebral ou de neurónios a funcionar - tanto na imensidão estelar que teria de percorrer, como pelo inusitado e imbecil decisão de efeitos ou resultados praticamente nulos de concretizar, trazendo de volta o meu querido e pequeno filho que ronda já os dois anos de idade.

O Processo
Recomeçar tudo de novo, quando nos «partem as pernas» em rasante sujeição de nos mantermos conscientes ou cientes da razão, será muito difícil de consensualizar com o que é suposto ser uma mãe, apenas mãe! Devassada que estava no âmago do meu ser, só poderia aquiescer e neutralizar essa ansiedade com a atitude mais contemplativa: ter de aceitar o processo estelar! Ter de aceitar as reiterações, impostas agora em mim por Alfa do Centauro A - e de toda a sua comitiva judicial - em aguardar por informações e coordenadas que eles mesmos iriam pôr em marcha, em procura, investimento e solução - Deus-Uno permitisse - em toda a esfera estelar que agora comandavam com todos os seus aliados - até mesmo com os que ainda há pouco lhes foram inimigos. Era uma questão de tempo, arrevesavam-me. Mas eu penava. Sofria. A única acalmia foi quando me consideraram libertos e, em seu seio estelar no planeta de Alfa do Centauro A, os meus quatro queridos filhos, há muito distantes de mim mas não do coração, pressenti.
Estes seres omnipresentes, omnipotentes - de tez alvíssima, olhos transparentes e, quiçá translúcidos numa empatia e introspecção latentes - olhando-me até ao mais profundo da minha alma, pareciam sorrir-me agora em que por vias telepáticas e outras, me referenciaram existir de bom e plácido no seu planeta em face a mim, uma simples e tonta terráquea que só queria viver em paz. Foram assertivos. Se eu me cingisse aos seus costumes, às suas ordens, às suas pequenas imposições de regras e demandas planetárias...eu só teria a beneficiar, a lucrar com isso. Aquiesci. Eu estava nas mãos deles mas também não tinha outra hipótese. Para além de tudo o mais...era o planeta-mãe do meu amado Siul; como tal, eu só tinha de respeitar e asseverar de que de futuro, tudo iria melhorar e iríamos ser de novo uma família estelar em completa união e ascensão de um grande e indelével amor que se não apaga nem com o tempo nem com as estrelas todas de um Universo espectacular, senti!
A nível físico foi tudo restaurado. Entrei num imenso e irrepreensível processo clínico de reconstrução e reestruturação ovárica e do foro reprodutor do que me tinham mutilado. Houve uma espécie de reimplantação do meu órgão reprodutor e de contracepção - que mais tarde eu resumiria se desejaria ou não continuado - na acção perfeita de união e não de esterilização, que os estelares inimigos me haviam imputado sem eu querer ou sequer, argumentar. Em criptas cirúrgicas em que me vi ser assistida e recauchutada - no corpo e na alma, senti - fui de imediato vendo a reversibilidade do que não imaginara eles puderem repor em mim. Fiquei-lhes grata. Aliviada e conformada com esta minha nova vida corporal que há pouco os de Cygni B tinham imposto sobre mim, que me vi revolver montanhas e céus para um novo recomeço, impus-me. Era irrefutável esse caminho de novas glórias, novas reiterações: sabia-o e estava consciente disso. Tinha de voltar a ter uma família. Tinha de ter esperança que tudo voltaria a ser como dantes! E essa, era mesmo a única certeza que agora e ali eu tinha!

O Futuro
A partir dali, eu só podia ser feliz. Tinha de o ser! Foi-me questionado se desejava acorrer a novas técnicas e, a novas tomadas de posição afectas a si. Se sim, para tal teria de corresponder em exactidão e pronta aprendizagem sobre os novos tempos estelares. Aferi que assim deveria de ser, pois já me sentia um pouco «Alfa-Centaura»...anuí perante todos eles. Ficaram agradados com isso. A seguir, fui às aulas.
O Universo estava em expansão, já todos o sabiam. O que não se sabia nem sequer se suspeitava era que, como tal, este estivesse em evolução constante de estrelas, galáxias, enxames globulares e diversa massa estelar circundante que deu - e continuaria a dar - para a formação de novos planetas e e estrelas nesse imenso Universo! Explicaram-me tudo em visualização e ópticas surpreendentes em que, como uma espécie de viseira cinéfila, eu visse tudo à minha volta como elemento estelar que também era. Foi maravilhoso!
Havia tecnologia incomensurável: desde as técnicas sónicas às mais altas tecnologias em gravitação, levitação e mesmo de saúde surpreendentes. Era tão fantástico que a cada passo, a cada testemunho eu me sentia a mais saloia ou ignorante poeira estelar, por tanta sabedoria, tanta sapiência universal!
Houve a reestruturação de códigos binários - agora já mais assertivos e correspondentes aos dos conhecimentos ancestrais na Terra, disseram-mo - e eu ouvia, ouvia e observava tudo como a maior sanguessuga da História em esfera e conhecimentos estelares. O enxame globular M 13 da Via Láctea que outrora fora desmembrado - e danificado - estava de novo reagrupado em perfeita sintonia astral entre si. Aferiram que, outrora, levaria 24.000 anos a chegar a qualquer poiso estelar vindo da Terra e agora...a apenas escassas semanas no que considerei de facto entusiasmante para as gerações vindouras. E que os telescópios que outrora existiam - sendo agora obsoletos - estariam reequipados e terratransformados agora, em espécie de Observatórios Astronómicos muito mais avançados em captação e transmissão de mensagens estelares entre si, num todo do Universo. Continuava assim... e eu, maravilhada com toda aquela belíssima descrição estelar!...Era tudo novo...magnânimo e belo, muito belo para mim!
Super-computadores: em vigilância permanente de corpos estelares. Em super-vigilância de corpos astrais e...na esfera anatómica dos corpos presentes: todos eles! Os do espaço e...dos elementos estelares em corpos seus, mesmo na diferença de uns e outros em completa união de laboração e avanço de tecnologias nunca vistas. A nanotecnologia médica, científica, biológica e física, fantásticas!!! O mundo quântico em física total de um Universo tridimensional e de diversas dimensões que nem eu supunha existirem...era de facto magistral! Era como que, uma explosão de conhecimentos ou implosão em mim do que agora vivenciava em realidade presente que nem num futuro longínquo almejara...ou sequer imaginara!
Foguetões impelidos por fusão nuclear, aumentando exponencialmente a sua velocidade, podendo-se viajar pelo espaço sideral à velocidade da luz e...superior a esta. Tudo era acessível, até mesmo a partir do meu amado planeta Terra, constatei. Os ditos e referenciados há muito «buracos de minhoca», eram agora uma realidade a cumprir e não uma virtualidade de outros tempos. Haviam viagens interestelares e tudo se movia - e move - à sua passagem mas...sobre uma criteriosa lei estelar, unida em Confederação Galáctica do Universo. Eu estava siderada! Perfeitamente integrada mas ainda assim...estupefacta com tanto avanço universal! O Espaço-Tempo de outrora - do velho Einstein - era agora uma realidade dimensional muito mais além do que alguma vez o próprio - na sua imensa genialidade ancestral - poderia supor. Senti vontade de lho dizer, de lho confirmar em telepatia estelar, recuando ao passado...ele merecia-o! Foi o seu fundador, o seu grande impulsionador de uma realidade avessa a tudo o conhecido até aí! Era...um ser especial, acreditei! Venceu barreiras e mentalidades para o seu magro tempo de uma outra incompreensão!
Há mais de cinquenta ou sessenta galáxias - e isto, só no enxame globular da M 13...- vejam só! As partículas fundamentais do Universo «os Quarcks», estão a propagar-se, a difundir-se a uma velocidade surpreendente. E tudo o resto...Neutrões, Protões, resíduos em formação criando matéria e tudo é vida! Quão maravilhoso é este meu Universo, aquiesci em fantasia real do que via! Núcleos de Hélio recriando-se em dois protões e dois neutrões , formando-se em átomos capturando assim outros electrões...depois a gravidade em todo o sistema e...a matéria reunindo-se em nuvens, formando as galáxias e as estrelas como se fosse uma espécie embrionária de zelo e genética de corpos terrestres que, à semelhança dos celestes, se faria de igual modo no que concerne - e tive quase a certeza - de ser a mesma génese do ser humano e outros seres estelares! Tudo tão maravilhoso que, quase me esqueci do reencontro com os meus quatro filhos e mais tarde com Siul. Tinha de me preparar. Já tinha vivido tanta coisa naqueles últimos dois anos estelares que, mais me pareciam séculos, passados sobre toda a evasão e distância em que todos me desapareceram em breve click atroz e, impiedoso. Agora...tudo ia ser diferente, tinha de ser diferente! Nunca mais me iria apartar deles...de todos! Como o Universo, de todas as suas forças estelares! E só isso importava. Eu...ainda iria ser feliz, muito feliz em união galáctica com as mais poderosas forças do Universo - Aleunam dixit!