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quarta-feira, 14 de maio de 2014

A Esperança X


Algures no Universo          Cygni B/Alfa do Centauro/Terra

Quando nos retiram a alma - ou parte desta - em ablação completa, irrevogável e, irreversível no tempo e no sentimento, que mais nos ficará? Poder-se-à esquecer que parte de nós ficou para trás, que parte da nossa vida está escondida - e sequestrada - quase sem retorno, no imenso Universo que me toma agora em dores e lamentos de alma ferida, sucumbindo na saudade e na dor de não ter o meu filho em meu poder?
Quando terminará esta imensa cruz galáctica que me reduziu a nada, ainda que tenha Siul do meu lado mas...ainda tão distante de mim? Quando o verei...e quando é que tudo terminará...?

A Mutilação
Estou retida em Cygni B. Mas o que inicialmente supus dos meus sete amigos cinzentos puderem estar de volta, depressa me enganei. Reduziram-me à lastimável condição de prisioneira máxima em «solitária» profunda. Achei estranho. Ainda não fazia ideia destes pressupostos em analogia maior de me terem sob debaixo de olho, caso se viesse a dar alguma transformação a nível planetário. A minha percepção sensitiva dizia-mo. Sempre fora dada a grandes pressentimentos de alma e como tal, considerava que havia uma certa perigosidade no ar...cheirava-o. Era como que, uma brisa leve de anjos celestes, de anjos estelares que me protegiam e me sussurravam nas ténues e longas noites mal dormidas em insónia permanente.
O meu ventre em abdómen enorme quase rebentava pela gestação terminal em que se apresentava, dando-me a certeza de estar iminente essa minha fase de gravidez não desejada - por todos aqui. E eu temia. Os meus receios não eram de todo infundados, pois sabia da repulsa que lhes causara de ser uma terráquea inferior, de um mundo inferior, que lhes transcendera as regras e as leis universais de quase todas as galáxias de não poder haver misturas, de não poder haver mestiçagem estelar. Azar! agora era tarde...ruminava eu.
Os meus batimentos cardíacos eram observados em assessoria tecnológica quase invisível mas muito presente, pelo que lhes via também de me inspeccionarem quase segundo a segundo, no parto que se aproximava em cirurgia imediata, indolor e Deus-Uno permitisse, feliz, de ver este meu novo filho-homem nos braços. Mas a esperança foi fugaz. Idiota ou ingénua, como quase sempre eu me determinava em infantilidade ou precocidade minhas de sentir que lhes quebraria a alma (se a houvessem...) e se apiedassem de mim e me deixassem viver este belo momento de puerpério assente. Estava enganada. E como!...
Assim que se detectaram os primeiros sinais na evolução desse meu parto fisiológico, rapidamente se desenvolveram em protuberâncias suas, clínicas e de rigorosa cirurgia fetal. Um pouco à semelhança das cesarianas ancestrais, foi-me feito uma incisão no abdómen mas, diferentemente destas, os lasers trabalhavam à velocidade da luz, supus. O que quero exponenciar é que, nestes novos tempos galácticos, os partos dos terráqueos são muito mais fortuitos, breves e...indolores, como se deseja. As terrestres como eu, já não precisam de passar nenhum processo similar aos que se vivia há milénios. As epidurais de outrora são obsoletas. As cesarianas são nulas, na consistência e situação de outrora em riscos elevados de mortalidade para as parturientes. Se algo lhes tenho a agradecer - aos estelares - é, ao extremado avanço tecnológico e de nanotecnologia médica nestes novos milénios, que se fazem sentir e repercutir em todas as «fêmeas» do Espaço - em reprodução, gestação e finalização do puerpério. Quanto a isso, nada a dizer, só a enaltecer!
Mas a minha alegria foi de pouca dura. Aquele meu pequeno ser em genoma e alma humanas, foi-me literalmente (e abusivamente!) retirado de mim como estupro deficitário em mim ou...uma qualquer massa tumoral que me estivesse a condenar em corpo e alma também. Aquele meu pequeno ser que gesticulava avermelhado, enrugado e espécie de bicho engelhado, mas...a mais bela coisa que eu já vira (mesmo que já o tivesse vivido sequencialmente por outras quatro vezes, até mesmo no último em parto de gémeos que se não consagrou de uma assentada mas em prioridade de dois partos estafados...) e, assisti eu, mal-grado tudo e, infortunadamente, a ser-me retirado em objurgação máxima, aquele meu filho que eu já tanto amava.
Enlouqueci! Gritei! Esperneei e...derreei-me em completa subjugação do que nunca me havia sentido: tinham-me tirado a alma...tinham-me tirado tudo! E ainda nem suspeitava eu, do que me haviam imposto em esterilidade ímpia sobre mim: laquearam-me as trompas do Falópio em execução «perfeita» - também em cirurgia exímia - de me obstruírem os ovários em total negação a novas concepções e gestações.

A Guerra dos Mundos
Eu estava morta. Sentia-me morta! A punição maior era aquela que faziam agora em mim sobre o rapto, sequestro ou completa abdução entre mim e o meu filho, que mal vira e nem sequer sentira em cheiro e aroma de criança em nado-vivo. Odiava-os! Daí que os desejasse a todos mortos...e esse pensamento mau, sustive-o em mim mas, com a objectividade latente de mal eu pudesse, lhes imputar esse mesmo sofrimento. O Universo ouviu-me. Dentro de breves dias, subsequentes ao meu parto havido, e o alarme foi instaurado e não-revogado por entre todos os poros daquela célula prisional. Havia mudança. Havia perigo. Havia algo que depressa supus tratar-se de algo verdadeiramente calamitoso e alvo de preparação, protecção e recolhimento, do que observei nas tomadas de posição de todos os elementos ali afectos como guardas-prisionais de viseiras impenetráveis mas...que eu percepcionei à medida que foram sendo mais negligentes e, mais condescendentes comigo. Algo se passava de premente, senti! E estava certa!
O fumo. Os passos apressados nos corredores de aço e material ainda por mim desconhecido, insonorizado e flamejado de todas as protecções ou veleidades de perfuração mas que, agora, eu observava estar a ser posto à prova, à derradeira prova de invasão - e conquista permanente - nas tomadas de assalto de algo ou alguém, que se infiltrava nesse espaço e me dava cada vez mais a certeza de ir ser salva como donzela ou princesa de outros tempos em torre-cárcere de um qualquer outro reino. E tive esperança de que o planeta Cygni B sucumbisse, se destituísse de poderes e assomos institucionais seus, para que finalmente eu pudesse voltar a ser livre e, a ter o meu filho de novo nos meus braços. Mas isso...era querer muito...querer tudo!
Fui levada da cela pelos meus libertadores. Vinham armados de bastões-lasers e camuflados de guerra, militarizados e fardados como há muito eu não via. Senti então, tratar-se de algo muito sério...deveras sério e implacável, por tão magistralmente se terem dado de acções e missões sobre aquele planeta agora hostil - anuí - de uma aliança quebrada e possivelmente não recuperada. Senti-me livre! Senti-me feliz!
Fui levada por um batalhão de elementos dessa missão - que ainda não supunha afecta a Alfa do Centauro - emparedada que fiquei por entre corredores imensos de uma Nave-mãe em sede-Base de toda aquela inusitada operação de fuga e salvamento que supus especial sobre mim. Senti-me importante! Eu...uma simples terráquea, que agora era tomada de assalto e de todas as coisas como nenúfar em lago em sensibilidade ímpar, sendo requisitada, sendo obsequiada não só com a liberdade mas...com todo o poder imenso do Universo em consciência, aprumo e solidificação estelar do que induziam em mim. Eu devia ser importante para eles...senti docemente. Pela primeira vez...eu era uma igual. Eu era uma Centaura! Eu era como Siul! Senti-me tão bem! O mundo era meu...ainda que, estivesse a arder em ogivas nucleares de bombas sem detonador mas eficazes nas distâncias percorridas em feixes de luz implacáveis! Ouvia as descrições militares em belicismo não atenuado sobre o inimigo: Prócion B, Sírio B e Cygni B estavam a ser invadidos e, implacável ou inexoravelmente destruídos no seu todo. Ou...na sua essência de terem quebrados regras também e anuências de ordem galáctica em poder confederativo, aquiesci depois.
O Bastão de Deus - como era chamado pelos terrestres - fora içado e lançado às «feras» dos que me iam libertar mas este foi neutralizado. Já noutros milénios estas civilizações os usaram contra planetas iguais ou paralelos à minha amada Terra, sobre o satélite lunar e sobre Marte, mas hoje estavam igualmente sem grande poder. A tecnologia era impressionante. A tudo eu via, sorvia e quase sobrevivia sem nada comer ou beber que não fossem aquelas informações militares - em particular sobre o meu planeta Terra - já de si tão débil e tão fraco agora em resposta similar. Havia mísseis não-tripulados mas rasantes na eficácia havida.
A energia cinética tinha um poder destrutivo tão intenso e tão fortemente magnânimo, que até os próprios que o consolidavam, o temiam. Mas tal era necessário, confidenciaram-mo. Desde as bombas arremessadas no espaço esférico planetário aos buracos negros do Universo, tudo era posto à prova radical daquelas poderosíssimas armas de destruição maciça. Não fiquei feliz por isso: guerra é guerra! E eu abominava isso, ainda que soubesse da sua inevitabilidade agora! Bombas Anti-Matéria em que a matéria colidindo com a anti-matéria produz um efeito generalizado de erradicação estelar total; Ogivas Nucleares, Energia Cinética, Bastões de Deus, Bombas Atómicas...um horror! Os piratas espaciais em Marte foram totalmente neutralizados ou...mortos. Sim, havia morte mas não nessa igual condição do que os da Terra - os meus - a consideravam. Era mais uma espécie de castigo estelar do que propriamente morte física. Mas eficaz!

A Paz
Finalmente a paz! Não...totalmente. Mas tudo se apaziguou. Os Aliados: Orion, Andromeda, Plêiades, Altair e, acima de tudo, Alfa do Centauro que se uniram na demanda estelar de guerra bélica contra aquela horrenda tríade de Prócion B, Sírio B e Cygni B que se insurgiram contra as leis da Confederação Galáctica. Comeram chumbo, como se diz na minha Terra! E foi muito bem feito, dizia eu para mim, mais em vingança pessoal do que em justiça feita. Mas depois caí em mim e como tal, revivendo os últimos momentos - desejando que tudo não tivesse passado de um estouvado e mui amargo pesadelo - voltei à realidade nua e crua, sabendo não poder alterar uma pequena vírgula em tudo o que sucedera: de bom e de mau em maniqueísmo latente do que ainda estava para acontecer. Novamente o meu amado planeta Terra sofrera: geralmente é assim, consciencializei, pois quem é pequeno...sempre acaba por ser um alvo mais fácil. Por respeito ou por sublevação de alma - não o sabia - eles, os meus salvadores, os meus heróis de Alfa do Centauro - levaram-me a ver a minha amada Terra, naquele meu nunca esquecido planeta. Este quebrara também regras há muito; daí que, também tivesse sofrido com isso, sendo acometido de diversas invasões do seu espaço terrestre e, aéreo. Desde os remotos milénios anteriores - em ano de 1967 até 2017 - por terem omisso e mesmo violado leis do Universo em tomadas de posição contrárias ao que até aí haviam defendido, foram alvo de represálias estelares - da parte de muitas civilizações que remeteram a Terra à sua condição de planeta mínimo - de origem, raça e condição inferiores em designação efectiva de: «mundo inferior», à semelhança dos tempos da Antiguidade em si. Foi uma vergonha! Uma quebra de confiança, uma quebra de todos os laços havidos com os superiores estelares! E eu sofria por isso. Nunca desejei mal algum para o meu pequeno e simples planeta Terra como constatava agora ali. Mas depressa ele ressurgiria, aliás, como sempre sucedia após tamanhas afrontas militares e de devastação terrestre! Erguer-se-ia! Tinha a certeza! "Deus Ex-Machina" - Era agora o termo anunciado: "Um Deus descido por meio de uma Máquina"...o que no meu caso individual, isso bem poderia ser o meu mote perfeito de, sobrevivência e vivências futuras; e se Deus-Uno quisesse em breve...ao lado de Siul e, dos meus adorados quatro filhos em prole solidária e efectiva da verdadeira família estelar! Ainda que...arraçada! Não importava mais...anuiria.
O meu amor iria estar ao meu lado...os meus filhos também mas...nem todos! O meu lindo recém-nascido filho macho, filho-homem-centauro, filho-terráqueo, filho meu (híbrido ou não, que importância tinha agora...) nesse meu desaparecido filho; ingloriamente raptado do meu ventre, do meu colo que nem lhe senti o afago, o corpinho e toda a sua essência de criança acabada de nascer...algures no Espaço...algures no escuro dos dias e das noites estelares, sem mim...sem a sua mãe que o pariu sem o ver, sem o sentir.
Após tão crucial guerra estelar, terá ele sobrevivido? Terá ele vida em qualquer ponto do Universo...? Onde estará ele, o meu tão sagrado filho; meu e de Siul...que mo levaram de mim, que mo tiraram das entranhas e deram ao mundo universal como órfão de tudo, órfão do mundo? Poderá haver dor maior no mundo do que não se saber de um filho?...Poderá...? Penso que não! Dói muito! Incomensuravelmente a maior dor de todas! E pior...não saber se, ter esperança de o reaver, de o colher de novo em meus braços, em meu colo...e em meu existencial e revivificado amor por si. Deus-Uno não tenha permitido a sua morte, a sua exposição a qualquer espécie de radiação, prejudicial a si...tão pequenino! Raios-gama que o matariam de imediato se acaso a estes ele lhes fosse exposto e, submetido. Deus-Uno não permita que meu filho Dominus - que consagro em nome, designação e futuro a considerar - que Ele mo proteja, que Ele me vele o seu sono e, o aconchego estelar como colo materno que de mim não tem. Tanto que eu peno mas...vou esperando, e vou orando e vou iluminando o meu ser em paz e amor do que ainda espero consolidar em reunião de toda a minha família junta! Que Deus-Uno me não abandone e me devolva depressa e bem, o meu querido filho Dominus! Ainda há esperança...o meu Deus-Uno não me irá abandonar!