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quinta-feira, 23 de janeiro de 2014

A Libertação Cósmica


 
Asana de Templo de Kandarya-Mahadeva em khajuraho - Índia

As representações de casais ilustram o caminho da libertação com a ajuda de práticas mágicas e orgíacas.
Será que, a reunião sexual do homem e da mulher conduzirá efectivamente à «libertação» num todo, originariamente indiviso, como rezam os tantras na sua influência sobre o budismo e, o hinduísmo?

O Poder do Universo
O símbolo da deusa é o «Yoni», o seio maternal da génese humana. Shakti, o poder do Universo, tem muitos nomes e formas. Uma das que mais frequentemente adopta é Kali (a negra), a mãe irada que empunha colericamente a espada com a qual aniquila os demónios. Na união sexual, Shiva permanece imóvel como um cadáver debaixo da sua selvagem companheira kali.

Kali - A Shakti Negra
Na figura de Kali, Shakti é o símbolo do tempo em permanente renovação. Destrói, porque o núcleo da vida provém da desagregação e da decomposição. Encarna a criação, a conservação e, a aniquilação.
Destruidora das estruturas e ordens existentes, kali é negra. diz dela o tantra Mahanirvana: "Tal como todas as cores desaparecem no negro, assim se esfumam nela todos os nomes e formas."
A sua nudez indica que, se libertou de todas as ilusões. O cabelo solto simboliza o mistério da morte encerrado na vida. Enquanto energia primitiva e infinita, desperta Shiva, o observador impassível, no drama cósmico.

Conceitos Filosóficos
Shiva e Shakti são a representação dos princípios cosmológicos do masculino (purusha) e do feminino (prakriti). Prakriti (matéria, natureza), a matéria-prima do Universo, possui três propriedades fundamentais (gunas): «sattva», a pureza e a subtileza; «rajas», a força e a actividade, e «tamas», inércia e peso.
Se as «gunas» estiverem em equilíbrio perfeito, não existe criação. Só a desordem desta estrutura harmoniosa da matéria-prima traz consigo a manifestação do mundo exterior. E, a desordem, dá-se através da união de Prakriti com Purusha (ser humano), na qual Purusha - a consciência cósmica - observa imóvel a transformação eterna de Prakriti. Purusha representa o aspecto inactivo e masculino da dualidade, que só se manifesta através do seu oposto activo e, feminino.

Tantra - O Caminho da União
A tradição tântrica do ioga, aspira à libertação através da da dissolução destas duas energias no ascetismo, práticas espirituais e união sexual ritual. O objectivo do «tantra» é alcançar a unidade e, vivenciar a igualdade das polaridades. A realização desta unidade é descrita em termos de êxtase e bem aventurança (ananda). O Tantra (tecido) é, na verdade, um grupo de textos de instruções religiosas que giram à volta dos deuses e, das suas Shaktis femininas.
Em sentido mais restrito, a palavra «tantra» é aplicada a obras e a doutrinas de seitas que veneram em Shakti, a força que possibilita a vida e conserva o Universo. Estas seitas, chamadas Shakta, desenvolvem o simbolismo sexual e, as práticas com ele relacionadas.
Mas existem diferentes formas de shaktismo. Algumas delas interpretam a representação sexual, apenas como símbolo dos processos interiores de meditação. Para estas doutrinas, tratar-se apenas de união espiritual e não física.

Os Seguidores de Shakti
O shaktismo, oriundo de Bengala, no Nordeste da Índia- consequência do culto da mãe divina em torno da esposa de Shiva - resultou na glorificação do princípio feminino, com acentuados aspectos eróticos.
Para esta forma de tantra, que inclui o exercício de práticas sexuais - as posições de ioga (asanas) - realizadas na união a dois, despertam a Kundalini-Shakti (a energia cósmica do corpo, simbolizada pela serpente), transformando-a na energia espiritual da libertação.
O caminho do Tantra baseia-se na noção de que, a sexualidade física, pode ser um veículo para a libertação da roda das reencarnações. Os rituais da união sexual - enquanto práticas da meditação psicofísicas - desempenham portanto um papel essencial!

Prazer e Libertação
O Ioga Tântrico põe em acção subtis processos energéticos que, têm como objectivo, uma transformação do corpo. O que se procura é, a síntese dos valores opostos do prazer (bhoga) e, da libertação (kaivalya).
O princípio do desejo físico é posto ao serviço do desenvolvimento espiritual. O papel dinâmico pertence à mulher, que no ritual tântrico representa Shakti. Em rituais especiais como o Kumari-puja (oferenda de uma virgem) ou o Shakti-upasana (imersão em Shakti), efectua-se a identificação simbólica com a deusa.

O Jogo Cósmico do Amor
Nos templos de Khajuraho, no Centro da Índia, encontram-se os exemplos artísticos mais expressivos da interacção criadora do princípio masculino e do feminino - simbolicamente representados nos jogos amorosos. As figuras unidas em posições sexuais (mithuna), pouco convencionais e complicadas, mostram que o caminho tântrico da libertação é difícil e, não representa apenas o simples prazer dos sentidos.
A fachada do templo de Kandariya-Mahadeva (950-1050 d. C.) é dedicada a Xiva e, à união cósmica de Purusha e Prakriti. As numerosas figuras que adornam o seu exterior, reflectem assim o mundo dos fenómenos. O interior do templo é, pelo contrário, o regaço (garbhagriha) escuro e vazio de adornos de onde provêm todas as ilusões.

Shiva e Shakti/Purusha e Prakriti nas duas versões terrestres e cósmicas, ambas envoltas num mistério endeusado de origem, proveniência e, ramificação por entre as crenças e divindades assentes nos humanos de uma Índia surpreendente. Venerados em sublimação corrente, acredita-se (ou suspeita-se) de que terão sido algo mais na Terra do que meros símbolos do hinduísmo. Vivenciando a origem, a concepção, a reprodução e todos os fenómenos daí subsequentes na continuação do ser humano, o que se apraz dizer neste caso é que, além das divindades já referidas, possivelmente terão na sua génese ensinado o Homem em ter e dar prazer numa certa e determinada libertação de si mesmos. Não será então o simples prazer dos sentidos mas antes, um complemento e computo geral do que o Homem deve seguir e sentir em realidade e união cósmica que, efectivamente, assim o libertará de todas as esconsas e más energias. Deve-se aprender com eles, estes maravilhoso deuses não só da Índia como do mundo global em que nos encontramos, respeitando e seguindo também essas homilias do Universo em poder Uno e sólido do que nunca deveremos esquecer ou olvidar em nós, humanos. A pureza dos sentidos é única; poderosa e universal também. Sejamos merecedores desta e seremos eternos na libertação cósmica de onde viemos e, para onde iremos um dia...pois que, assim seja!