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sábado, 4 de janeiro de 2014

A Catarse


 

Estaremos nós preparados para uma catástrofe mundial em que a depuração planetária se fará de modo aleatório e, sem pruridos ou poderes selectivos no seu todo? Mudaremos a nossa forma de pensar em consciência e sobrevivência de entreajuda e solidariedade ou simplesmente recriaremos de novo o tentacular egoísmo em subsistência do salve-se quem puder?

O Pesadelo
O dia estava magnífico. Era Primavera. As andorinhas nidificavam, as flores desabrochavam na miríade de cores e cheiros próprios da época prazenteira e amena e até os sorrisos das crianças em passeio escolar pareciam mais abertos, estridentes e felizes. Um dia como os outros...
A manhã já ia alta e os sons habituais da cidade emergindo em quotidiano de pregões, buzinadelas e apupos aqui e ali entre uns e outros no trânsito ou mesmo por entre as ruelas exíguas e pouco soalheiras fazendo a gente do povo, a gente do trabalho, relacionar-se como amigos de longa data e em festividade corrente. Nada previra o que momentos após as onze horas daquele dia, daquela manhã, sucederia. Os estudantes nas suas escolas, faculdades. Os seus pais nos postos de trabalho, a restante família absorta na suas lides diárias em profissões tão diversas quanto dignas de gente que é gente e trabalha para o seu sustento. As entidades bancárias, as empresas, as fábricas, o comércio em geral e tudo o resto em perfeita harmonia de uma vida actual de cada ser humano em todos nós. Até que o Céu escureceu. As nuvens adensaram-se e o chilreio dos pássaros parou. A debandada foi geral. Olhou-se para o cima e tudo parecia abrir-se. Um cometa? Um meteorito? Ou uma luz iridescente em fogo, em corrida ardente ou apenas a fúria de Deus ou de algum Anjo mau que se atravessara no caminho das estrelas e veio parar ao nosso planeta sem convite e sem se anunciar. O que fosse, era mau, muito mau! Deus!
O medo imperou. Houve gritos, pânico e pandemónio geral. Era expectável que assim fosse. A surpresa tomou conta de todos em espanto, estupefacção e incómodo até pelo simples facto de nada terem sugerido e informado, tanto nas redes sociais como previsivelmente seria de esperar nas de telecomunicações e televisões do mundo inteiro. Era absurdo. Incoerente e, injustificável. Estaria tudo louco?

O Caos
Todos corriam sem saber bem para onde. As filas de trânsito amontoadas e tresloucadas em desvios, acidentes e extravasamentos de automóveis capotados, incendiados, desmembrados e gritos, muitos gritos de socorro quase sempre inúteis e inevitáveis pelo sufoco compreensível de quem já nada espera. Crianças que se perderam dos pais, transeuntes que se quedaram em imobilismo e certo êxtase estático num deslumbramento letárgico do que não querem acreditar estar a acontecer e, como sempre nestas ocasiões (ainda que não tão extremada assim) a incoerente atitude de outros que se dão uso das suas piores qualidades humanas e fazem razia nos supermercados locais em saque completo, tanto de bens de primeira necessidade como de outros em total imbecilidade pela inutilidade exposta de, levarem às costas televisores, aspiradores e microondas. Tudo está a saque. Até as almas! O cheiro é nauseabundo: a gasolina derramada, a óleo queimado, a suor, a sangue, a todo o tipo de excrescências humanas de fluidos corporais e outros, numa amálgama humana visceral de fins dos tempos sem salvação possível. Não há cânticos. Não há esperança, não há nada! Apenas a negritude do Céu que se abre em velocidade ardente e que se rasga num enorme torpor de mil trovoadas em conjunto num cataclismo do Demónio que Deus deixou passar por si.

A Visão
O mundo está a arder. As cidades, perdidas. Montes, vales, montanhas, monumentos históricos, riquezas acumuladas, tudo incinerado, afogado em cinzas e mar, tudo perdido. Ninguém socorreu ninguém. Todos em fuga, todos em corrida louca de salvação ou sobrevivência própria. Pouco importava se havia alguém em perigo, se havia alguém em necessidade de auxílio mais que não fosse no seu resquício de vida em último suspiro precisar de uma palavra amiga e de conforto em abraço da morte que lhe chegava. Mundo cão este, diziam alguns, fingindo-se nauseados pela indiferença geral mesmo quando esta lhes era também e igualmente referenciada no que sem agir, se limitavam a copiar nos actos, a plagiar nos sentimentos.
A Terra era uma chaga aberta, maior que a de Cristo na cruz, admitiriam outros ao verem-se espoliados de tudo, até da sua própria condição de seres vivos. E renegavam-No. E amaldiçoavam-No. E, contradiziam-se no melhor e no pior que reciprocamente o Homem possui em si. Nada é consensual, tudo é posto em causa e tudo é tão irreal como a enorme surpresa de sentirem que já não têm sequer chão para pousar quanto mais dormir ou ainda...sonhar. A Terra em chamas como as suas almas. O mar engoliu tudo. O ar, putrefacto em chuvas ácidas e lágrimas suas, negras, fúnebres. E o fogo esse, por todo o lado. O Inferno na Terra veio criar o seu reino e os homens esses, corcovados em veneradas preces sob os cilícios do Céu, servos seus ficaram outra vez, como em tempos idos de um certo dilúvio exterminador.
E agora Deus, que quereis de nós, que nada mais somos? Voltámos as costas a amigos, inimigos, familiares, vizinhos e desconhecidos como se não tivéssemos face nem corpo nem alma para socorrer, para ajudar, para confortar. E agora...que fazer perante tamanha atrocidade de destituição de carácter, de juízo e de mal formação? Haverá esperança, haverá consolação, haverá salvação?

Um Novo Dia
Acordei. Fiquei parada por momentos em reflexão idiota entre o estremunhado e a mera condição de sobrevivente ou apenas sonhadora sequestrada por um qualquer indigno querubim que me quisesse ter dado uma lição. Como ao Scrooge do Conto de Natal de Charles Dickens...talvez. Amedrontei-me. Quase sufoquei em paralisia de alma e sentidos perdidos, tão ou mais do que os que vivera naquele pesadelo do meu entardecer maldito que me ditara uma manhã em declínio de uma catarse planetária em catástrofe mundial pois que eu tudo vira, tudo presenciara e testemunhara em olhos e coração de Deus. Senti-me maldita. Senti-me indigna, enojada com tamanha crueldade ou tamanha verdade de dentro de uma Humanidade que não merecia hipoteticamente ser salva, ainda o não sabia. Debatia-me com muitas questões, muitas dúvidas, interrogações igualmente malditas e infelizes, tão infelizes como eu. Mas só depois consciencializei tudo na consistência devida e, na contextualização obrigatória de um dever, de uma moral dada como no final dos contos infantis, como na finalidade a que estes se propõem em todos nós, aquando crianças em crescimento e formação. E anotei. E percebi. Tinha estado lá. Não, não era uma reposição em sonhos havida ou uma mera transposição mental em distúrbio cognitivo dos meus medos, dos meus receios mas antes, uma abordagem efectiva do que supostamente Deus, os nossos anjos, Guias ou Mestres Espirituais nos comandam e que são seres de luz que nos guiam e ditam as regras, ainda que as violemos muitas das vezes. E eu percebi. E aprendi e respeitei. Não tinha sido um filme de ficção, daqueles que tantas vezes vimos nos cinemas ou nas televisões quinhentas vezes para que tenhamos medo, muito medo desses cataclismos universais. Foi real. Muito real. E o mais verdadeiro possível. Já não tenho medo mas respeito. E não vou deixar de acreditar na condição humana e na sua total disposição para abraçar causas maiores em ajuda, préstimos e auxílios a outros numa vontade única de voluntariedade e solidariedade para com outros. É esse o caminho, é essa a ordem imposta em terreno estelar que um dia todos vamos poder conhecer e abraçar também. Foi essa a ordem. Irá ser esse o meu caminho. Catarse, é purificação nos seus mais elementares quatro elementos da Terra. Seguir essa ordem, é seguir o que nos foi instituído. Não esquecerei. Sonho, pesadelo, lição de vida, aprendizagem ou simplesmente a alegria de se estar vivo, é afinal o direito de todos nós, se o merecermos...como é evidente! Bem-Hajam os que assim pensam. E aos outros também, em livre arbítrio do que temos ainda de conquistar na Terra. Pois que assim seja!