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quarta-feira, 4 de junho de 2014

A Maré Mortífera


Ilha de Pellworm - Norte da Alemanha - Europa

"O Grande Afogamento" - nome dado pelo povo de então na ocorrência de maré cheia mortífera - terá sido a catarse imposta por Deus, às suas gentes na Terra, pelo pecado da soberba e da ignomínia nestes?
Terá sido - à semelhança da Atlândida ou das cidades bíblicas de Sodoma e Gomorra - a punição perfeita de Deus sobre os desvios dos homens e a sua total arrogância em caminhos opostos ao devido?

Cidades Lendárias do Mar do Norte e do Mar Báltico
Nas noites de Inverno mais agrestes, nas zonas costeiras da Alemanha e, de toda a Escandinávia, os mais velhos contam histórias de cidades há muito desaparecidas e de tesouros para sempre perdidos.
Na memória colectiva destas gentes foram-se sedimentando as recordações de ilhas fustigadas pelas tempestades, de marés e cheias, mas também de coloridas auroras boreais: lugar de destaque, porém, ocupam as lendas de Rethre, Vineta e Rungholt - as três cidades engolidas pelo mar.

O Santuário Pagão
Quando há mais de mil anos os Vikings - povo marítimo por excelência - se precipitaram furiosamente sobre as cidades costeiras dos mares do Norte da Europa, a fama da falta de escrúpulos não tardou a precedê-los. Com efeito, os Vikings conquistavam e pilhavam as cidades costeiras dos países das imediações, mas estas incursões tinham também motivos religiosos. As cidades vencidas eram arrasadas, do mesmo modo que em tempos também um dos mais importantes santuários dos Vikings pagãos, sofreu os efeitos nefastos de um esforço de missionação cristã: a lendária cidade de Rethre, que deverá ter ficado situada algures no Mar Báltico.
Adam von Bremen, um jovem canonista que se contava entre os mais conceituados geógrafos e cronistas do seu tempo, narra-nos num texto de 1066, as histórias das tribos pagãs do Norte e, dos seus misteriosos lugares sagrados: «Os que vivem na região mais central, e que são os mais poderosos, são os Rethrarier. A sua conhecida capital é Rethre, um local com forte implantação da adoração pagã. Aí foram construídos grandes templos, onde adoram as suas divindades - a mais importante das quais, é Redigast. O monumento que lhe é dedicado foi feito em ouro, com o pedestal coberto com púrpura. Esta cidade tem nove portões de entrada e, está rodeada de todos os lados por águas profundas (...), e a ela apenas têm acesso, aqueles que tragam oferendas ou que procurem o conselho do Oráculo (...). Este lugar fica a uma distância de quatro dias de viagem de Oldenburg.»

Tesouros no Mar
Em virtude um mal-entendido que se manteve durante séculos, este lugar foi procurado numa região completamente errada. Supunha-se que Adam von Bremen relatasse a viagem para Rethre a partir de Oldenburg, no Norte da Alemanha. Sabe-se hoje, porém, que houve em tempos uma segunda localidade com esse nome na costa do Mar Báltico. Daí poder-se-ia com efeito fazer uma viagem de quatro dias de barco e chegar à ilha de Eskeholm, na Dinamarca. Depois de sobrevoada, verificou-se que, esta região evidencia vestígios de antigas estruturas  de fortificação redondas, bem como de troços de estradas entretanto já cobertos de vegetação. É bem possível que estas últimas tenham servido para conduzir aos centros de culto pagãos. Debaixo de metros e metros de lama, Rethre ainda continua à espera de ser trazida de novo à luz do dia pela mão de arqueólogos, abrindo assim um novo capítulo na sua história, desta vez não enquanto fortificação defensiva ou como sede de um Oráculo, mas antes, como uma verdadeira câmara do tesouro para os investigadores e todos aqueles que continuam a pensar em tempos já praticamente esquecidos.

Desaparecida nos Baixios do Mar do Norte
Um outro local que está situado a meio caminho entre a fantasia e a realidade é Runggholt. Esta cidade surge referida tanto no mundo das lendas como em crónicas do passado e, nos relatórios de investigações arqueológicas. Deverá ter-se situado na região frísia do Norte da Alemanha, onde - consoante as marés - o mar do Norte inunda a terra plana e, os terrenos arenosos daquela região.
Muito embora Rungholt tenha desaparecido sob as ondas do mar, o mito em seu redor continua bem vivo! Desde a Idade Média, e sobretudo desde o século XIX, aventureiros e investigadores, cartógrafos, poetas e pintores interessaram-se por este lugar. Que espécie de fascínio exercerá esta «Atlântida frísia»?

A Maré Cheia Mortífera
Em tempos remotos, Rungholt terá sido uma cidade portuária e, um importante centro de comércio da região de Edomsharde - uma região da Frísia, no Norte da Alemanha - porém, uma destruidora maré de grandes proporções por volta de 1360 - certos cronistas referem concretamente a data de 16 de Janeiro de 1362 - reclamou para o mar, extensas áreas do território costeiro.
O poder destruidor das vagas mortíferas arrastou consigo e tragou pessoas , animais e as casas de Rungholt.
Logo após o seu desaparecimento, esta cidade próspera e feliz tornou-se um verdadeiro mito: os habitantes das zonas costeiras questionavam-se por que razão haveria precisamente aquele florescente centro de comércio, de ter sido destruído pela pior enchente de que havia memória.
"O Grande Afogamento" foi o nome dado pelas gentes da Frísia a este terrível acontecimento, pois milhares de pessoas morreram afogadas nessa ocasião.
Ter-se-iam os habitantes destas regiões tornado demasiado arrogantes e seguros de si? Teriam eles cometido o pecado da soberba, tal como se supõe que terá acontecido com a Atlântida? Teria recaído sobre eles, a ira de Deus, à semelhança do que sucedera nas cidades de Sodoma e Gomorra?
As pessoas de então ficaram convencidas disso mesmo, após tamanha desgraça!

A Tragédia de Rungholt
Só em 2001 é que, por um etnólogo de Bremen, o professor Hans Peter Duerr, foi apresentada uma explicação plausível para o desaparecimento de Rungholt. O solo em que esta assentava apresentava pouca firmeza, sendo desta forma o único responsável por essa tragédia. Para além disso, a partir do século XIV foi-se verificando a pouco e pouco, uma alteração climática bastante acentuada. Muitas colheitas se perderam, os animais foram assolados por epidemias e, pragas, e houve sérios problemas na alimentação das populações. Quando sobreveio a peste - à qual sobreviveu apenas uma em quatro pessoas - não se puderam concentrar tantos esforços nos trabalhos de protecção das zonas costeiras. O estado dos diques deveria ser bastante crítico na altura em que aquela maré anormalmente alta atingiu Rungholt.
Quando as pessoas decidiram ir em busca de vestígios da cidade perdida - muitos investigadores julgam poder encontrar os restos desta Atlântida do Norte no subsolo da região de Halling Sudfall - já as memórias da sua localização estavam desvanecidas.
A verdade, não obstante, é que desde então e até aos dias de hoje, se instalaram no imaginário dos habitantes das zonas costeiras os lendários relatos da imensa riqueza e, da soberba dos habitantes de Rungholt - comportamento esse que foi punido por Deus - mediante o envio de uma maré mortífera, servindo também de sinal para os demais.

O Feitiço de Vineta
Vineta, é uma cidade perdida da Escandinávia que, possivelmente, terá existido nas imediações de Vendsyssel, na Dinamarca. De início era chamada Iumne, a «Cidade da Luz».
Adam von Bremen refere que ela terá tido o mesmo destino que Rethre, a missionação cristã. Em 1075, faz então referência a Iumne na sua «Hamburger Kirchengeschichte» (História da Igreja de Hamburgo) e, por volta de 1170, já esse lugar pagão deverá ter pertencido ao passado - a acreditar no cronista Helmold von Bosau (c. 1125-1177). Escreveu ele que: « Em tempos um rei Dinamarquês terá mandado destruir este lugar de grandes riquezas».
Por várias vezes - durante o primeiro milénio da Era Cristã - houveram diversas tentativas de evangelização nestas regiões, resultando em fracasso: bispos e missionários chegaram mesmo a ser decapitados por tentarem substituir os deuses dos pagão, pela mensagem evangélica dos cristãos.
Quando por fim os cristãos se impuseram, Vineta e Rethre foram arrasadas e os seus nomes quase votados ao esquecimento: a lembrança dos lendários tesouros, porém, manteve-se!

O Castigo de Deus
Os habitantes da costa norte da Alemanha acreditam que, uma maldição pairava sobre Rungholt. Poucos anos antes do seu desaparecimento, a passagem da peste pela Frísia, deixou atrás de si uma indelével marca de morte. Pouco depois, os exércitos do rei dinamarquês Waldemar Atterdag atacaram Rungholt.
Em 1666, na sua «Nordfresischen Chronick» (Crónica da Frísia do Norte), Anton Heimrich refere que, os habitantes da cidade - na sua incorrigível arrogância e soberba - cometeram um pecado capital. Teriam alegadamente forçado um padre a celebrar a Eucaristia e, a administrar o pão e o vinho consagrados, a uma porca já embriagada - regando ainda a «refeição« com cerveja.
Depois disto, o pároco terá recebido de Deus um aviso para abandonar aquele lugar acompanhado de três virgens honradas - nessa mesma noite - antes do envio de uma vaga que destruiria tudo.

Não se sabe ao certo se tal o pároco terá respeitado, presumindo-se que sim. Daí que, para tempos futuros e espíritos mais sossegados e, equilibrados, este lugar permaneça ainda em mistério mas efectiva degeneração de que foi acometido, podendo-se ainda ouvir os sussurros em aflição dos muitos que aí pereceram. Deus não castiga...mas arremete lições de vida e esta, terá sido um «bom» exemplo disso. Não se deseja mais marés mortíferas nem «Grandes Afogamentos» por certo, mas para a História contemporânea ficará, possivelmente, toda a essência humana do que se não deve repercutir em ganância e sofreguidão - existentes nessas épocas e quiçá...nos tempos de hoje. Serão lembrados, sendo igualmente registado que, por tempos que ainda virão, a Humanidade se possa emendar e, não proliferar em más escolhas, opções ou desígnios menos dignos de si. A bem desta Humanidade, assim seja então!