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segunda-feira, 9 de junho de 2014

A Água Sagrada


Rio Ganges - Benares                                  Índia

Será de facto kármico, os banhos realizados ao longo do cais do Ganges em Varanasi, eliminando as consequências acumuladas de todos os actos em si impostos ao longo de milénios de existências terrenas?
Que água sagrada é esta, que leva milhares nos ghats de Varanasi a banharem-se e, a purificarem-se assim?

Ganges - O Rio Sagrado
Um mito do Ramayana - a segunda epopeia mais importante da Índia a seguir ao Mahabharata - narra que, outrora, o santo Agastya engoliu o oceano para liquidar os demónios que nele viviam.
A terra ficou seca e toda a vida ameaçada de destruição. O santo rei Bhagiratha viu que a única possibilidade de salvar a Terra era convencer os deuses a enviarem para a Terra a torrente celeste, que pairava no Firmamento como a Via Láctea.

Bhagiratha - O Herói Espiritual
Durante 1000 anos, o lendário Bhagiratha submeteu-se a severas mortificações no santuário de Shiva em Gokarna, no Sul da Índia. Devido às forças espirituais que acumulou, o deus da Criação - Brama - revelou-se-lhe por fim e, concordou, em deixar o Ganges descer à terra. Mas esta empresa gigantesca não era simples. As massas de água que se precipitariam sobre a terra, arriscavam-se a parti-la e, a destruí-la para sempre. Era por isso necessária a colaboração de Shiva - Yogue divino e, exemplo de todos os ascetas.

Bhagiratha invoca Shiva
Shiva estava sentado sozinho em meditação num pico dos Himalaias. Bhagiratha precisava portanto de realizar outro feito espiritual para conseguir a colaboração do inalcançável deus.
Deslocou-se então aos Himalaias, alimentando-se apenas de folhas e água, e assumiu uma «asana» - uma postura de ioga chamada «urdhavabahu». E assim se concentrou, direito como uma coluna, apoiado numa perna, com os braços sobre a cabeça e os dedos entrelaçados.
Um conhecido baixo-relevo de Mahabalipuram - uma pequena localidade perto de Madrasta - mostra Bhagiratha em posição de ioga diante do templo de Gokarna. É o momento em que Brama aparece no interior do templo, mas também representa a cena na qual Bhagiratha, magro devido ao jejum e de pé em posição de ioga, invoca Shiva.
O Deus revela-se-lhe então, gigantesco, com quatro braços e os cabelos formando uma pilha imensa.

O Rio Celeste desce à Terra
Tanto fervor convenceu Shiva, que concordou em colaborar naquela tarefa cósmica. O Deus entrelaçou as suas compridas madeixas de asceta em forma de torre e, colocou-se no lugar onde o Ganges se precipitaria para a Terra. O seu cabelo travou a monstruosa cascata e a água correu suavemente para os Himalaias, inundando as vastas planícies do Norte da Índia.
Por este feito, Shiva recebeu o nome de Ganga-Dhara ( o que detém o Ganges).

Locais de Recolhimento Espiritual
A história mítica da descida do Ganges glorifica a força que pode ser alcançada por meio das práticas espirituais. Até os deuses mais importantes se deixam conquistar assim. Por isso, desde tempos muito recuados, que o Ganges tem uma relação estreita com o esforço espiritual.
Ao longo do rio, ficam muitos lugares sagrados com numerosos «ashrams» - centros de meditação e estudos religiosos. Haridwar e Rishikesh, no curso superior do Ganges - onde o rio sagrado inunda a planície - são considerados locais especialmente sagrados, ponto de encontro de inúmeros «sadhus», que renunciaram ao mundo para se entregarem à suas práticas espirituais.
Mas também aqui vêm muitos outros hindus em busca de algum tempo de recolhimento. Em meditação nas margens do Ganges, entregam-se à magia do rio e dos mitos que o acompanham.

O Banho Ritual no Ganges
É no entanto Varanasi (Benares), no curso inferior do Ganges, que regista a maior afluência de peregrinos. Os crentes hindus descem a escadaria da margem (ghat) ainda antes do nascer do Sol, para se banharem no mais sagrado dos seus rios. Mergulhados no rio até ao peito, com o seu rosto em êxtase virado para o sol-nascente, derramam a água benta na cabeça, espalham flores no regaço de Ganga - a deusa do rio - fazem abluções rituais e, bebem a água acastanhada.
Se um devoto já idoso vai ao local sagrado...é porque quer morrer ali! Às portas da morte recebe um gole da água sagrada do Ganges e, o próprio deus Shiva, sopra-lhe ao ouvido uma poderosa mantra por meio da qual pode alcançar a libertação. Os cadáveres são queimados na margem e as suas cinzas espalhadas no rio.

A Água do Ganges e os Brâmanes
Os Brâmanes - membros da casta dos sacerdotes - instalaram-se nos ghats de Varanasi. Debaixo de guarda-sóis, símbolos do seu estatuto, pregam o seu culto e explicam os textos sagrados a quem os quiser ouvir. Por todo o lado se tira água do rio para se levar para casa.
Qualquer cerimónia ritual religiosa hindu (Puja) é impensável sem água do Ganges.

A Descida do Ganges
Em Mahabalipuram, no Sul da Índia, encontra-se um expressivo baixo-relevo, como já se referiu aqui, datado do início do século VII d. C. Este enorme bloco de pedra conta a história da descida do Ganges. Ao centro, o rio descendo sobre a terra parece fender a pedra. Um rei e uma rainha serpentes nadam majestosamente nele enquanto rezam. De toda a parte acorrem deuses, seres celestiais, demónios, pessoas e animais para admirar o acontecimento.
O baixo-relevo é uma expressão da convicção hinduísta de que, tudo no mundo é atravessado por uma energia vivificante. E é também manifestação do grande espectáculo do desdobramento do «Maya» divino - os fluxos ilusórios da substância da vida em eterna transformação.

Rituais dos Peregrinos
Os peregrinos que chegam a Varanasi para se banharem no rio Ganges, dispensador da libertação, dão primeiro a volta aos antigos limites da cidade que rodeava o templo de Madhyameshvara a uma distância de cerca de 16 quilómetros.
A volta sagrada à cidade (pradakshina), que começa na margem do rio Ganges, no Manikarnika Ghat, e aí acaba depois de 60 quilómetros a pé, demora seis dias. A área de Varanasi - considerada sagrada e livre de pecados - é comparada com um barco redentor no qual o homem pode atravessar o oceano da metempsicose. As consequências acumuladas de todos os actos realizados ao longo de milénios de existências terrenas (Karma), são eliminadas com um banho no Ganges em Varanasi.

Depois de fatigante viagem e, do longo caminho a pé em volta dos antigos limites da cidade, os fiéis alcançam finalmente o verdadeiro objectivo da sua peregrinação com o banho ritual no Ganges. O banho nas suas águas...parece assim suprimir as rígidas fronteiras que ainda existem entre as diferentes castas. A tudo se nos é dado ver e observar com a mesma candura e crença espiritual que cada um faz em si, nestas sagradas águas do Ganges. Só se poderá então acrescentar em face a esta ancestral tradição de uma espiritualidade comovente que, limpos os impuros, iluminados os que assim profetizam, nos seja dado a continuação desses mesmos actos - para quem acredite ou não - que tudo eliminarão em Karma distinto e se Deus permitir, em Karma renovado de almas limpas e puras. A bem da Humanidade...assim seja!