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segunda-feira, 16 de junho de 2014

A Essência da Mente


Escultura de Buda Sentado em Jardim

"Para lá de todas as técnicas e descrições da prática existe uma transmissão real, através da qual o Mestre implanta no aluno a realização da natureza da mente."
                                                                                              - Chetsang Rinpoché -

Vajrayana - O Caminho do Budismo Tibetano
Desenvolveu-se no Tibete uma forma de budismo especialmente ritualizada e rica em práticas mágicas e técnicas de meditação. Antes da introdução do Budismo, eram muitos os seguidores do Xamanismo e, da religião natural do «Bon» - um conjunto de diferentes correntes religiosas - firmemente ancorado na ideia de que, a Natureza, é habitada por espíritos e demónios.
Em primeiro plano surgiam a arte da adivinhação, o transe, ritos fúnebres para a protecção dos vivos e mortos e, ainda a neutralização dos espíritos maus.
Quando o Budismo chegou aos Himalaias no século VIII, misturou-se com a antiga religião popular do Bon e passou a ser caracterizado por Budismo Tibetano ou Lamaísmo. A palavra «Lama» (Aquele que está no Alto) tem o mesmo significado do «Guru» indiano e, indica um Mestre espiritualmente eminente!

A Meditação enquanto Prática Central
Com o passar do tempo, os monges e os seus respectivos lamas deram origem a quatro escolas principais: A Nyingmapa (Escola dos Anciãos); A Kagyupa (Linha de Transmissão Oral); A Sakyapa (com o nome do Mosteiro de Sakya, no Sul do Tibete) e A Gelugpa (Escola dos Virtuosos).
Cada escola ensina uma síntese particular da tradição filosófica e sua aplicação prática por meio da meditação. A Gelugpa - a última destas grandes escolas - surgida no século XIV, introduziu no século XVII a figura do Dalai-Lama, chefe político e religioso do Lamaísmo.
A forma específica do Budismo Tibetano chama-se Vajrayana (Veículo de Diamante) - um sistema espiritualizado que integrou as práticas mágicas e que deu lugar a uma grande riqueza de rituais.
O Vajrayana chega até a incluir a transmissibilidade mágica dos méritos kármicos, o que significa que o lama - que devido à sua posição elevada acumulou um bom karma nas vidas passadas e, presente, com a integridade da sua conduta - pode, por assim dizer, gastar alguns destes méritos com discípulos particularmente distintos, para que estes alcancem mais depressa a perfeição.
Um dos aspectos centrais é o ensino oral e, a iniciação na prática da meditação, feita por um Mestre autorizado, na qual se experiencia a divindade enquanto realidade mental.
O Mestre ensina aos seus alunos uma sequência de sílabas (Mantras) que, segundo a tradição, pertencem à divindade.
As diferentes formas de meditação encontram-se registadas nos chamados textos de Sadhana - os quais descrevem detalhadamente, como as divindades podem ser vividas enquanto realidade, a introdução da visualização e, por fim, a sua dissolução numa meditação sem forma.

Conhecimento da Essência da Mente
Diversas escolas destacam duas formas fundamentais da instrução da mente: Shamatha (Repouso tranquilo) e Vipashyana (Conhecimento especial). Primeiro, determinados exercícios preparatórios ensinam o discípulo a centrar e tranquilizar a mente, até esta ser capaz de se concentrar num único objecto.
Num segundo passo exercita-se a meditação sem objecto. Só depois do domínio desta prática, é possível assim avançar para a etapa seguinte do processo mental, Vipashyana - um laborioso acto de análise interior de todos os fenómenos do mundo e da consciência, realizado com a mente agora atenta sem qualquer esforço. O objectivo é alcançar o conhecimento da vacuidade (Shunyata), a verdadeira essência do mundo.
Este conhecimento específico não é possível através do esforço intelectual, pois, segundo Buda, não é a lógica que consegue penetrar a interdependência de todas as coisas. Só a mente purificada, capaz de contemplar os fenómenos para além da conceptualidade da razão, consegue alcançar o Shunyata.

O Grande Selo
No centro de algumas linhas tradicionais, como o Kagyupa, encontra-se o conhecimento específico e intuitivo da vacuidade, que pode ser alcançado através da meditação e que, equivale à libertação da roda do renascimento. A forma mais elevada desta doutrina, chamada Mahamudra (Grande Selo), percebe a natureza da mente como vacuidade e, claridade.
O «Grande Selo» é a verdadeira essência de todos os fenómenos mentais e materiais, por assim dizer neles impressa como um selo escondido.

Prática do Mahamudra
A prática do Mahamudra começa com a meditação sobre o Yidam - uma divindade que corresponde à personalidade individual do praticante. A sua visualização é feita até o praticante se fundir com ela.
Segue-se a meditação sobre o Mestre (Lama), também chamado Guru Ioga, que ocupa um lugar importante na prática do Mahamudra, pois realiza-se através dele a transmissão da bênção da linha da tradição.
O Lama transmite assim ao seu aluno avançado, os ensinamentos ocultos da respectiva tradição. Mas, este passo só se dá, com os discípulos já muito avançados - porque implica que o Mestre transmita ao aluno a realização da natureza última da mente.
É de importância capital que, o aluno, se mantenha firme na tradição da linha, pois que ele próprio é doravante seu representante. O actual titular da linha «Drikung-Kagyu, Chetsang Rinpoché - um lama renascido - explica desta forma esta transmissão mágica: "Para lá de todas as técnicas e descrições da prática existe uma transmissão real, através da qual o Mestre implanta no aluno a realização da natureza da mente."

Protectores dos Ensinamentos
Nos locais de oração (lhakhang) do Mosteiro, encontram-se inúmeras figuras santas em rolos de tecido (Thangkas), frescos nas paredes e estátuas de bronze e ouro. Normalmente representam Budas, Bodhisattvas (Seres iluminados) e, Dharmapalas (Protectores dos ensinamentos).
Estes últimos, expressão característica do Budismo Tibetano, são demónios zangados da antiga religião popular do Tibete. A vitória do Budismo transformou-os, passando a atribuir-lhes a responsabilidade de afugentarem as forças hostis e, de protegerem os ensinamentos de Buda. Através da oração, o praticante coloca-se sob a protecção destes dharmapalas.

Conceitos do Vajrayana
Bodhisattva: Ser iluminado que, por compaixão com os que sofrem, encarna uma e outra vez na terra até à libertação de todos os seres.
Bon: Noção que abarca as forças religiosas no Tibete, antes da implantação do Budismo.
Dharmapala: Divindades protectoras do Budismo.
Drikung-Kagyu: Uma das escolas do Budismo Tibetano.
Kagyupa: Uma das quatro escolas principais do Budismo Tibetano.
Lama: Mestre espiritual venerado no Tibete. Corresponde ao Guru indiano. Não é idêntico ao Dalai-Lama.
Lhakhang: Local de oração dos Mosteiros Budistas Tibetanos.
Mahamudra: Um dos ensinamentos mais elevados do Vajrayana - conduz ao conhecimento da vacuidade de todos os fenómenos e, à libertação da roda do renascimento.
Mantra: Sequência de sílabas que, repetidas continuamente, ajuda à meditação.
Prajna: O princípio feminino e, a sabedoria intuitiva como conhecimento da vacuidade enquanto verdadeira natureza do mundo.
Sadhana: Um determinado grupo de textos rituais que contém instruções sob uma forma especial de meditação.
Shamatha: Calma mental, práticas que preparam para a meditação.
Shunyata: Conceito fundamental do Budismo, segundo o qual a verdadeira natureza de todas as coisas é o «não ser»: nada possui uma existência independente ou uma substância duradoura.
Thangka: Rolo de tecido de seda representando Budas e outras figuras, segundo uma determinada iconografia.
Upaya: O princípio masculino e da multiplicidade.
Vajrayana: Orientação específica do Budismo Tibetano (também Lamaísmo).
Vipashyana: Aspiração ao conhecimento da vacuidade como verdadeira natureza do mundo.
Yidam: Divindade pessoal cujo carácter corresponde ao do praticante.

Símbolo da União
Os textos do Budismo Tibetano que descrevem o caminho do desenvolvimento espiritual chamam-se «Tantras». Todos os Tantras descrevem o processo em três etapas: Base, Caminho e Fruto.
Na prática chamada Mahamudra, a Base, é a natureza última e pura da própria mente. O Caminho descreve o estudo, reflexão, contemplação e, meditação sobre os ensinamentos.
O Fruto, é a realização perfeita da não-dualidade, a vivência simultânea do que é normal e absoluto em todas as coisas.
A superação da dualidade é simbolizada no Budismo Tibetano pela união sexual de divindades masculinas e femininas. O princípio masculino (Upaya) representa a actividade do absoluto no mundo das ilusões, ou seja, em termos ocidentais - a acção divina na terra - enquanto o princípio feminino da sabedoria (Prajna), remete para o um, o Universal.
Os Bodhisattvas ocupam também um lugar muito especial no Budismo, pois que, escolheram o Caminho da Iluminação não para si mesmos mas, para ajudar os outros. Renunciando ao Nirvana, voltam a nascer continuamente para servirem a Humanidade!

E isso, é algo que para sempre nos permanecerá em nós - seres humanos - a verdadeira e poderosa essência de tudo...em mente e vida a cumprir, na determinação dos tempos! Pois então que, a bem dessa contínua protecção e luz sobre os nossos caminhos e, de toda a Humanidade em geral, assim seja!