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sábado, 14 de junho de 2014

A Lua Cheia


Algures no Mundo há uma Lua Cheia...

                                                         A OUTRA FACE DA LUA

Há sempre uma face desconhecida...na Lua, em nós e nos outros! A minha...levou-me quase à morte! Poderei então esquecer, as mágoas, as traições, a violência e...a aniquilação da magia que me fez perder por ti? Que me fez perder por um amor doentio, ominoso e psicopata em que não havia espaço para mais nada que não fosse esse egoísmo, esse latejar insano de uma pertença castradora...e eu, rastejando amor, suplicando as pequenas gotículas do que já não existia...deixei-me estropiar, deixei-me morrer! Poderei ressuscitar alguma vez de toda esta angústia, de todo este sofrimento, de toda esta amarga e dolorida vida que me impuseste? Poderei...? Terei forças para isso? Sobreviverei?...

12 de Junho de 1981
A Sedução
O nosso amor era mágico! Íamos mudar o mundo com a mesma destreza com que mudávamos de camisa. Íamos ser felizes, muito felizes! A determinação com que galgávamos as escadas da subida da igreja local, era a mesma com que nos afiançávamos a subir todas as outras...da vida, da nossa vida! E foi bom. Era muito bom acreditar que, de facto, íamos mesmo fazer girar o mundo à nossa volta e tudo, e todos esperavam por isso. Fazíamos magia. Éramos a própria magia em toada de amor único que nos reportava irmos ser muito felizes com uma catrefa de filhos, com uma catrefa de sarilhos talvez...mas muito, muito felizes! E tudo começou bem. De início. Estava Lua Cheia e a noite era nossa!
Havia os Santos Populares em noite de Santo António - efusiva e deslumbrante em cidade de Lisboa à beira rio transformada. As suas gentes de manjerico na mão e, o pregão sempre aceso na boca, iam alegrando as ruelas de Lisboa com o mesmo entusiasmo com que casavam as filhas e netas em promessas cumpridas de velas e ouros ao santo casamenteiro. As marchas ecoavam na avenida com a graça de Deus e de quem é menos abençoada pela vida mas, nessa noite, todos são iguais, todos são filhos de Deus e todos comem sardinhas com pão de milho e bebem o vinho tinto que não mais é que o sangue do Senhor...ouve-se alvitrar. E eu...bem eu sorria, e dava saltos de gazela como há muito não me vira fazer - desde que deixara de ser criança - em voltejos loucos de quem começa a idade adulta mas nem sabe o que isso é.
Ele, o meu amor, estava lindo. Estava sempre bonito e bem composto. E era meu! Eu...uma donzela do século XX e ele, o meu cavaleiro andante em cima de um BMW de alta cilindrada. Sim, ele era um menino de boas famílias e rico! Se é que se pode designara assim quem na época trabalhava na empresa do pai e, fazia dos seus dias, a árdua tarefa de cumprimento e obrigação para com os mesmo.Fizera o complementar dos liceus - na época dizia-se assim - em estabelecimento de um secundário que já lhe daria para a vida sem sequer pôr os pés numa Universidade. O ramo comercial estava fluente e, o início dos anos oitenta a isso determinava, em prosperidade e...como muitos políticos afirmavam, em franco desenvolvimento devido à integração a breve prazo de Portugal na Comunidade Económica Europeia, hoje UE, (União Europeia).
Eu ia casar! E...pela igreja! Pela Santa Madre Igreja Católica e Romana como era de bom tom a qualquer menina da classe média, alta ou baixa do meu país. Não que fosse muito dada a igrejas e a missas - tendo unicamente professado a minha pequena devoção em passeio cerimonial, pelas alturas de uma romaria estival em terras paternas - levando-me a ficar com pés esfolados e, a alma esturricada ao ver que os meus pais nem me tinham visto - ou assistido - no belo acto infantil de me verem na procissão da Senhora da Aboboriz com um vestido pindérico e sem graça mas, que eu, achei o mais belo do mundo entre o que eu era - na mais bela princesa (do mundo também!) e, da torre enclausurada ou...das fadas boas que por vezes assomavam de noite ao meu quarto, falando comigo.
Mas tenho de subir mais degraus...os da tal sedução, os da tal idade em que tudo nos parece belo e de facto assim é. Até chegar a primeira submissão...a primeira desilusão...a primeira bofetada!

A Realidade
A década de oitenta não foi das melhores mas também não foi das piores. Resumindo: deu para o gasto. De início, de vida a cumprir, as zangas, as discussões apenas se cingiam a contas por pagar, a eventos a estabelecer e a...filhos por educar. Até que o tom de voz se tornou mais forte e o que anteriormente eram qualidades, tornaram-se defeitos; muitos defeitos. Que eu era burra! Que eu era desinteressante, que eu me deixara subestimar pela vida...pelos tratos e cuidados nos filhos; que eu me desleixara ao ponto de já não o seduzir, de já não o reconquistar, de já não o elevar às estrelas em prazer lúdico de alcova ou meandros sexuais deslumbrantes de, chicote na mão e algemas encorpadas. Que não sabia cozinhar. Que não sabia tratar dos filhos, que não sabia...amar! Como se amar fosse...fazer de prostituta à noite e ser criada para todo o serv iço de dia! E pensar eu...que ele me tinha oferecido o mais belo anel que eu já vira, em diamante reluzente de muitos quilates em noite de Lua Cheia, em noite de múltiplas promessas, em noite de devaneios e soluços gemidos de um desejo maior que não fosse o entregarmo-nos ambos a, um deleite sensual e profícuo, de concepção e geração a realizar. E como a Lua era bonita! Aquela mágica Lua sobre o rio Tejo, o meu rio, o rio que ladeia Lisboa e todas as almas boas da minha cidade e...do meu país. Como acreditei nas suas belas palavras de amor e só amor...e agora me via franqueada de tudo, bloqueada em voz, em querer, em som e em ambição de dali me ver para fora, levando os filhos comigo.
Primeiro, foi a estrondosa bofetada. De seguida, um murro na boca que me fez perder dois dentes e fiquei tão embelezada como o corcunda de Notre Dame em subserviência e anulação totais e, letais sobre mim. Já não era só uma Gata Borralheira...agora virava monstro. Eu era um monstro, sentia-me um monstro sem qualquer tipo de beleza ou alegria que me fizesse revoltar - ou sublevar - de dentro de quatro paredes e voltar-me a ele e esborrachar-lhe o «focinho», que é como quem diz, partir-lhe a boca toda, que era o que ele tinha feito comigo...deixando-me derreada por terra, deixando-me absorta na dor e na mágoa de não ser nada, de ser um lixo, de me sentir esgoto, de me sentir...um zero à esquerda!
Tinha-se quebrado o elo: tinha-se quebrado a magia, finalmente! Ele já não era o meu homem, aquele que eu queria para envelhecer ao meu lado e, dando-me a mão no estertor da morte, no estertor dos meus últimos momentos na Terra. Ele...já não era o meu príncipe: apenas o meu carrasco, o meu inquisidor!
E lia a Bíblia. Devorava a Bíblia em hermenêutica louca de não aprender nada, de não me aquietar com nada, de não querer ou sequer não ter suporte psicológico para tal! E pedia a Deus que mo levasse de mim, que lhe não fizesse mal pois era o pai dos meus três filhos - como foi possível esquecer tanto...adiar tanto...prorrogar tanto a dor e a maldição havidas...? (senti) E como não pedir que ele parasse com as tareias, as sovas, de quando o seu clube desportivo perdia, de quando o pai lhe superiorizava em ordem e em hierarquia suprema, a sua condição de homem-menino mimado que era, e o redimia à sua condição de ainda homem sem voz e sem poder por este ainda estar vivo? E eu apanhava! Apanhava sovas de morte. Primeiro os bofetões, depois os pontapés e depois...os murros e a minha magra sujeição de me toldar por chão em posição fetal, em posição carente e fechada de querer voltar ao útero da minha mãe! Mãe que, não era presente, nunca foi. Preferia viajar e insinuar-se por entre as lojas de grandes marcas em Ibiza ou Palma de Maiorca em veraneio constante, ficando absolutamente autista de tudo o que acontecia à filha. Ou assim o desejava, tentando coarctar em mim, qualquer ambição de separação ou desejo de divórcio - pois que uma senhora de bem não se divorcia, mesmo neste novos tempos (anos oitenta!) de maiores liberdades que o 25 de Abril em Revolução não-anunciada nos trouxe, afiançava, com toda a correcção de uma matrona de casa de meninas que não era (nem nunca foi...) mas eu lhe admiti, ao ouvi-la tão jocosa nessas suas palavras de cidadã do mundo que apenas tinha de ser a única coisa que eu queria: ser uma mãe, uma mãe para se chorar no ombro! E ombro para isso, ela não tinha nem queria! Que eu me virasse, que eu me instasse a ser uma melhor mulher e esposa, mãe e...tudo o resto, pois que ela também sofrera o seu quinhão na vida! E enquanto me referia isto, ia analisando as suas pontiagudas unhas e, o seu cabelo petrificado em esmero e mui bem penteado em cabeleireiro semanal, rigorosamente visitado e...pago. Eu estava só, tão só!

O Fim - (ou Início?...)
Naquela noite, tudo parecia calmo. Calmo demais! As crianças dormiam e tudo se limitava a uma simples noite de princípio de Verão. A brisa suave de um vento Suão que teimava em fazer-se entrar por entre as frestas da janela do meu quarto. Eu lia um livro de Saramago. Não...não sou pretensiosa ao ponto de me elevar como erudita que não sou em leituras mais profundas mas, porque, sempre gostei de ser abrangente nessa leitura - só assim e desse modo, poderemos criticar ou simplesmente amar o que lemos. Foi o caso. Mas não deixava de ler Ken Follett - um dos meus preferidos - Konsalik, Jorge Amado ou Isabel Allende. Todos, no seu peculiar estilo em literatura ou prosa - para além do inestimável Gabriel Garcia Marquez - me faziam evadir em sonhos e realidades das quais eu queria ou imbuir-me ou fugir, consoante o caso em que me apresentava. Quantas vezes fora dada como inculta, idiota e estúpida - por ele - o pai dos meus filhos, o meu agressor...que me via sublevar em consciência e em certa medida inteligência (ou noção de maior conhecimento!) e me inferiorizava, dizendo que eu só ouvia ABBA e ele, a excelência dos Pink Floyd, que homem que é homem, assim faz! Eu também gostava de Pink Floyd mas abominava essa sua reiterada certeza de até na música ele me fazer sentir (ou ser...) menor, ser inferior, em condição mínima de mulher que era, de mulher que sou! Levados eram os tempos em que ouvira de ombro no ombro e, peito no peito, as melodias dengosas mas belas de um Peter Frampton, de um Joe Cocker, Rod Stewart ou mesmo Elton John, entre outros. Tudo...gente menor, consideraria. E eu amofinava. E...definhava. Mas acreditava também que um dia se faria justiça a tanta inglória e arremesso de pancada eu haver, e sem o merecer!
Naquela noite, nada eu previra do que sucederia... após breves momentos de mais uma discussão entre nós. Vinha alcoolizado, ou seja...vinha completamente bêbado! Pedi-lhe que não falasse alto devido às crianças estarem a dormir - o que não surtiu efeito, pois ainda se incutiu de mais razões para o fazer, pois que ouvissem, pois que acordassem, pois que soubessem que a mãe era a pior rameira de todos os tempos!...E desferiu-me o mais rude golpe da minha vida, dizendo-me: "Já não preciso de ti! Arranjei outra! "
E depois, ainda não contente com essa sua desfaçatez, proferiu: "Vou deixar-te para sempre mas não vais ficar assim, a rir de mim!...Vou-te dar um prémio por me teres dado os piores anos da minha vida! Vou...fazer-te isto!" - E, num gesto abrupto, desfechou-me um golpe de asa duro e sem piedade com a palma da sua mão - em gesto de outrora, de cavaleiro injuriado em lei de duelo. De seguida, apontou-me uma arma, um revólver que eu nem sabia que ele possuía em prática ou porte de arma, pois não era polícia, caçador, vigilante ou qualquer outra entidade similar que, como tal, lhe fosse dada permissão para tal. Fiquei estarrecida e, colada às costas da cama, tal o meu pavor e verdadeiro terror de dali a segundos eu poder ser uma alma a voar rumo ao Céu. São segundos mas...que nos parecem séculos, em mundos indistintos entre a crueldade, a insanidade e...a lobreguidão de uma névoa que nos entorpece todo o corpo e, toda a alma. Eu estava nas suas mãos. De repente, sem uma só súplica, um só som que não fosse o eclodir daquela maldita arma de morte e...um cheiro ocre a ódio, a dor, a morte! Caí para o lado direito da minha cama. do meu leito como dantes se proferia - e que já me vira em mulher a ser amada, a mulher a amar, e agora...em quase mulher morta, ferida na face, ferida na alma, ferida de morte! Um sabor a sangue efluiu na minha boca como o sabor mais agridoce que já lembro. Depois a nebulosa, o frio...a tremura de quem está entre a vida e a morte. E eu...vi-me ser içada...ser alada de dois ou três anjos que me sorriam, me amparavam e me dignificavam em seu voo celestial para o Céu ou...para uma outra instância divina (ou não) mas que eu sabia, eu sentia, ser a mais confortável, a mais doce, a mais eterna de toda a minha vida. E não refutei. Nem instei esses meus anjos. Pela primeira vez em toda a minha curta vida...eu acreditei, confiei, sentindo um amor transversal e, incomensurável, que me ditava o quanto era amada e dali eu não queria sair. Mas saí. Feliz ou infelizmente...saí desse espaço, dessa esfera cilíndrica e escura e depois luz, a belíssima luz que todos falam. Eu estava lá! E presenciei tudo em primeiro balcão e...gostei, amei mesmo esse tão majestático sentimento de leveza, acordo e ambiência celestiais em que me encontrei, ouvindo um anjo dizer: "Tens de voltar. A tua missão ainda não está cumprida! Assim se fará! Volta!!!"

E voltei. Contrariada...mas voltei. Estive em coma. Estive como morta. Mas recuperei e sobrevivi. Com dois terços da face arrematada por um vulcão em projéctil disparado. Mas não perdi a face, literalmente! Em recobro e franca recuperação hospitalar, recobrei cores, valores, princípios e um certo ordenamento na minha vida! Voltei a acreditar que era possível ser feliz! Que era possível sobreviver-se à maior angústia de todas e que, mesmo em noite de Lua Cheia, seria admissível viver-se: o tornar a ser feliz! E fui. E sou!
Uma mulher nunca perde a face. E, neste caso, tão sentidamente eu o apregoe como voz de varina em anúncio seu - de outrora - de bradar o seu peixe aos fregueses. Eu vou ser feliz! Após múltiplas cirurgias e outras tantas intervenções multi-faciais em dinâmica hospitalar, cirúrgica e de feição plástica, ou seja, de carácter moldado ao meu novo rosto, à minha nova vida e desejos futuros, que eu me vejo ao espelho e sinto ser a mais bela mulher que o mundo já viu! Tenho muito por viver ainda...dele, nem quero saber. Está em prisão preventiva e, a aguardar julgamento - em prisão efectiva por ora. Dizem que eu tive sorte e que escapei à multi-dimensão também...das muitas mulheres mortas de há dez anos para cá, há uma década portanto! Que já não vou fazer parte da imensa estatística portuguesa - e até mundial - das mulheres vítimas de violência doméstica e que são mortas à facada, à bala de revólver, ao cartucho de espingardas de canos serrados, à ignomínia dos abutres e carnificina de necrófilos que até há pouco se diziam maridos e, amantes. E o pior...é que se acredita que nos amam! Que não vivem sem nós! Que se matam se os deixarmos...que antes, matam tudo à volta que nós mais desejamos ou amamos, inclusive, os filhos conjuntos. E que, para além de tudo o mais...nos amam incondicionalmente. E esta, é talvez a maior e mais sádica mentira de todos os tempos. Quem mata não ama! Quem ama, não mata e seria uma eterna verdade de la Palisse - se não fosse efectivamente tão verdadeira, tão ironicamente verdadeira essa mesma simbologia de amor e ódio misturados em essência maligna, essência execrável, que o ser humano prolifera em toda a sua máxima consternação e...abominação!
Eu sou uma sobrevivente! E sou mulher! E vou ser feliz! E mais nada nem ninguém mo vão contrariar! Por Deus e todos os anjos do mundo que assim o determino! Vou ser uma alma livre e bela, muito bela!!!