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terça-feira, 17 de junho de 2014

A Doutrina Kármica


Ilustração de Buda envolto nas Stupas

Será que, o que hoje fazemos individualmente na nossa vida, irá desencadear uma reacção perceptível e, colectiva no Universo? Ser-nos-à dada a opção e, a determinação de tornarmos a viver um bom ou mau Karma, consoante as boas ou más acções que aludirmos nas nossas vidas?

Karma e Reencarnação
Uma grande parte da Humanidade acredita que o ser humano se divide em corpo e espírito. Enquanto o corpo pode morrer e desaparecer, o espírito renasce ou reencarna para uma nova existência noutro corpo, numa vida ulterior. A memória do espírito persiste em todos os seus renascimentos.
Segundo os filósofos orientais, o espírito guarda a lembrança dos actos realizados pelos seres que já habitou. É aqui que entra o conceito de Karma.

Por Responsabilidade Própria
A antiga palavra indiana Karma, significa acto! Cada acto desta vida desencadeia o seu efeito na vida actual ou na seguinte. O Karma é no entanto um destino inevitável, uma reacção desapiedada à culpa ou ao castigo da existência terrena. Pelo contrário, tem a ver com o equilíbrio e a harmonização num jogo de forças espiritual e, divino, e pode dirigir-se a todo o momento por meio de palavras, actos ou pensamentos positivos. Os míticos partem do princípio de que, o espírito organiza um plano de vida antes de nascer na matéria, esboçando o futuro ser à luz de potenciais experiências e processos de aprendizagem, tendo em vista o Karma já acumulado.
Este plano de vida reflecte portanto o possível futuro do ser, mas pode ser sempre modificado através do livre-arbítrio, ou seja, de um Karma novo e consciente.

O Véu do Esquecimento
O livre-arbítrio representa o presente do ser que, se quiser despertar espiritualmente, tem de concentrar as suas energias apenas na actualidade, sem medo do Karma passado. A conduta correcta no presente é a chave da melhoria da qualidade de vida. Tanto o Hinduísmo como o Budismo afirmam que, a essência da espiritualidade consiste em viver no presente: a hora mais significativa é sempre a actual e, a pessoa mais importante, a que temos à frente neste momento. Quem tem acções e pensamentos positivos pode conseguir neutralizar o Karma negativo do passado.
O medo do Karma negativo pode ser uma das razões que explicam o véu de esquecimento que tapa as vidas anteriores de cada novo ser encarnado. Só pela meditação, transe, sonhos ou hipnose podemos chegar ao conhecimento que, o nosso espírito tem, de anteriores actos e existências.

Viagem ao Passado
Nas chamadas terapias de reencarnação, as pessoas chegam às vezes às profundezas do tempo. Passo a passo, os terapeutas experientes levam os seus clientes a um estado de descontracção - cada vez mais profundo - e fazem-nos recuar no passado, servindo-se por exemplo da imagem de marcos miliários com a inscrição dos anos. Sob a orientação do terapeuta, o sujeito da experiência «voa» então sobre os marcos, acabando por se deter num número que lhe lembra «alguma coisa».
Mediante determinadas perguntas, o terapeuta explora então esse ano com o cliente: onde se encontra o sujeito? Em que corpo? Quais foram as suas experiências-chave? O que o impressionou?
Os pormenores não têm importância, pois o que interessa mais numa regressão é saber quais os valores éticos que se adquiriram na respectiva vida anterior, como se manifestam no carácter da pessoa reencarnada e que Karma actua neste momento.

Budismo e Karma
Para se evitar o Karma negativo, os budistas aconselham que só se tenham bons pensamentos, palavras e acções. Ao contrário do Hinduísmo, não acreditam num espírito que encarna constantemente num novo corpo. Quando uma pessoa morre, é mais a sua consciência que passa directamente para outra pessoa. Este ciclo da reencarnação chama-se «samsara».
O Karma Budista existe apenas na corrente dos estados de consciência que reside em nós e não em anteriores vidas mentais. Portanto, os budistas lidam com o Karma de forma consciente e têm preceitos concretos sobre o castigo que, determinada acção atrai e, o que pode fazer-se para eliminar o Karma negativo.
Assim, o assassino é punido com uma vida curta, falta de saúde, constantes preocupações e, a separação daqueles que ama. O comportamento sexual incorrecto atrai muitos inimigos. O ladrão é castigado com a pobreza, miséria e frustração e, o mentiroso, ficará à mercê da calúnia.
O budista deve ser activo contra o Karma negativo: a preguiça e a passividade são consideradas comportamentos incorrectos.

Hinduísmo e Karma
Segundo os textos da Religião Védica - a mais antiga confissão da Índia - compreendendo inúmeros deuses - apesar de o prazer e a dor do ser humano já estarem predestinados - este tem a liberdade de responder pelos seus actos. Podemos por exemplo ir viver para outro lugar onde pensemos que seremos mais felizes, mas o nosso novo ambiente será tão positivo ou negativo, como nos foi predestinado! Ou seja, segundo a Doutrina Hinduísta, a nossa situação actual é determinada por desejos e actos passados, mas no entanto temos a liberdade de decidir como queremos lidar com ela.
Este comportamento origina outras situações futuras no ciclo da reencarnação. No entanto, ao contrário do Budismo - a Doutrina Védica - afirma a existência de uma realidade divina superior.
Apesar da vontade humana, no final é Deus que decide quando e como esta se manifesta. Mas seja qual for a nossa filosofia religiosa, o Karma do ciclo da reencarnação não deve ser visto como o castigo de uma culpa. O conceito de Karma refere-se apenas a um processo e, significa que, o que parte de uma pessoa também voltará a ela. Em última análise, somos nós que nos castigamos ou recompensamos a nós próprios através do nosso pensamento, vontade e comportamento!

Viver com o Karma
No Budismo existem vários aspectos que, podem impedir ou fomentar, a maturação do Karma:
- Uma boa acção não produz Karma positivo se, entretanto, nos arrependermos dela.
- Se tivermos praticado boas e más acções, é em primeiro lugar pelas boas que somos recompensados na reencarnação. Pode acontecer que, o Karma negativo, que seria igualmente de esperar, não se manifeste devido aos frutos das boas acções.
- A privação e, a integridade física, impedem ou fomentam a fruição do Karma positivo.
- As circunstâncias temporais - como as guerras e as fomes - podem dificultar o desenvolvimento do Karma positivo.
- O esforço pessoal a nível da entrega e, energia individual, pode resultar na maturação do bom Karma e, no recuo - ou não intervenção do mau.

Um Universo Inteligente
A terapia da reencarnação pode ser um veículo que nos transporta de uma dimensão da percepção a outra, para finalmente nos ensinar que, a nossa existência está incrustada num universo inteligente - o qual, não podemos percepcionar com as nossas actuais limitações.
Há muito que, nos círculos espirituais, se acredita no Macro e no Microcosmos, que se condicionam recíprocamente. O que o indivíduo faz hoje, desencadeia ao mesmo tempo uma reacção perceptível e, colectiva no Universo, o que torna compreensível a alegria de um bom Karma e, o medo de um mau.

Enquanto os Hindus crescem com a certeza da existência do renascimento e, de que cada vida anterior influencia a actual, os povos do Ocidente só lentamente acedem ao fenómeno do Karma, procurando nas terapias de reencarnação - nos últimos anos - a pista dos fardos das vidas passadas.
Assim sendo, teremos muito ainda que calcorrear em dimensão e práticas espirituais muito mais condignas com a nossa condição de humanos que somos mas, em maior abertura e entrega nessa consciência kármica de uma doutrina a cumprir. Ou então, cíclica e infinitamente, viveremos nessa mesma submissão de nunca nos livrarmos dos maus Karmas e...das más escolhas que fazemos na vida. Que a todos esta luz ilumine e, a bem de toda a Humanidade que somos, esse bom Karma que todos desejamos fluir e, conceber, nos seja vivenciado! E...alumiado em novos tempos, novas vidas. Assim seja!