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segunda-feira, 21 de março de 2016

Eu, Maria


Quando a dor é tudo o que se tem em anúncio ou provocação sobre o maior amor do mundo: Ser Mãe! Eternamente...

Eu, Maria:
Não pedi para ser escolhida. Não pedi que me seleccionassem o destino e a condição de ser falada além mundos ou épocas de tempos que não viverei, mas sei que existirei; além tudo o que já disse. Foi duro. Foi cruel e, o fazer-se em mim segundo a vossa vontade, foi mais, muito mais do que alguma vez o poderia pensar por terras da Galileia, por terras de Nazaré, por terras de outras terras que nem Romanos nem Judeus poderão abarcar, pois que o Reino do meu Senhor, é maior, quanto maior forem estes e outros corações - mesmo que, trespassados, por todas as crueldades de seus sentidos e direitos alojados sobre nós.

Naquela madrugada, nada senti. Naquela outra noite em que tudo me foi contado e, revelado, nada eu contestei; nada eu me insurgi, até porque, não o poderia fazer. Fui a escolhida; fui a eleita sob muitas outras mulheres, outras leis que não as da Terra, disseram-me. E se o Anjo me confessou de seus pensamentos e seus alheamentos, eu apenas me pude submeter à sua audição, à sua reverente ou crucial reverberação (que não impugnação sobre mim), sobre meus desígnios ou actos, sobre meus caminhos neste mundo que me vira agora, presa e não lassa - ou debatida - nessa mera reiteração de me ver ser mãe de um Senhor maior; de um Messias e Deus maior, de pai, filho, irmão e Espírito Santo em nós.

A devoção pelejada por meu Senhor - Senhor Maior - é agora a minha única missão que Youssef (José) me tem de acompanhar. E, tal como eu, fazer caminhada, seguimento e penitência, sobre todas as coisas na Terra. E, por Deus Senhor, me vejo assim arremessada, colhida e tão tomada, que só posso ajuizar que de Meu Senhor, serei sua serva e deusa, havida na Terra e fora dela, uma condição de mulher assistida e, comprometida, pois que nada nem ninguém me apedrejará, segundo o Anjo, que tudo me protege, que tudo me acerva, sobre destinos maiores que ainda não sei quais. Mas espero. E temo. E fraquejo. E Deus me perdoe por isso, pois que não vejo já luz, tanta luz, como a que vi naquela noite, naquela tão luminescente e inebriante noite em que o Anjo me procurou, muito lindo, muito belo - e muito sábio - em tantas suas pródigas palavras, em tantas suas concisas aferições sobre mim, sobre Youssef e... sobre Nosso Senhor, meu filho - e Filho de Deus. Que os Anjos do Céu me perdoem se não falo verdade, pois que a tudo já fui sujeita em vergonhas e injúrias sobre este meu estado de ventre a descoberto, de ventre farto, sem que homem tivesse conhecido.

O Nascimento...
Passadas as agruras de um povo que me viu ser rameira, forasteira, mentirosa e pecadora, fui levada por terras e sonhos, mais em tormentos do que em alegrias e, sob o lombo escorraçado de um jumento ainda mais entediado do que eu, ou Youssef, nesta demanda por terras de Belém.
Foi um suplício e uma dolorosa certeza de que não há dor maior do que o transportar um filho para a vida e não para a morte, como Herodes tão bem o queria. E, se esse outro Anjo nos avisou de tal, perante a embriaguez de sangue e loucura selvática deste insano rei de nenhuma terra que se queria ver rei de todas elas, eu e Youssef sem duvidar - ou sequer molestar tal empenho e tal aviso sério - fizemo-nos aos caminhos; eu, com uma barriga de romano rico e ele, meu pobre homem que tudo acerca, com pés de pedregulho (mesmo gotejando sangue em sabre de bolhas abertas), não olharia para trás, não olharia para o que ambos deixámos sem desvelos de nos arrependermos por um pequeno tempo que fosse. Meu menino, é o meu mundo e, melhor, é o mundo de todos nós!

A noite estava fria. Muito fria. Os meus gritos lancinantes na noite perfuraram os céus de mil estrelas e, de tantas arrogadas assumpções, por um parto meu de rasgo e lamento (mais da premonição do que da dor) nessa mesma noite em que não vi as estrelas, em que já não concebi nestas haverem luz maior ou aquela outra estrela que sempre nos seguiu - e depois faria encaminhar outros seres, outros reis de outras terras que já não lembro. Mas que, comigo e com Youssef privaram, obsequiando oferendas e surpresas quejandas que jamais vira em toda a minha vida. Mais do que tesouros, foi a sua magna presença, ali, sobre mim e sobre meu menino - Menino Jesus, o meu Yeshua (e que eu canto baixinho para ninguém ouvir - nem as paredes nem os maus augúrios que o vento possa trazer de, meu menino lindo, meu Messias, meu bebé Yehoshua, em aramaico nome de seu berço mas não pertença).
Sinto uma paz de orações, uma ansiedade de alma amansada, revogada sobre todas as coisas vivas deste meu pequeno mundo, agora grande, muito grande, que me vai ver enlear e abraçar este meu menino que não é só meu - disse-mo o Anjo e eu, só tenho de aceitar; depois de acreditar que é para o bem de todos nós. Que é para o bem deste tão sangrento e pustulento mundo de tão pouca feição para quem é de boas vontades, para quem é de tão grandes verdades.

E o Meu Menino fez-se homem, fez-se cumprir. Foi bem mais matreiro e resmungão do que eu pensei ele me ser. Mas, se Messias ele é, para mim e para o mundo, também o será para seu Pai, seu verdadeiro pai - mais do que Youssef lhe foi, mas ainda assim, sobre si lhe cumpriu todos os mandos e os desmandos, e por todos os recantos, por onde este meu tão iluminado Yeshua andou e visitou em casa de seu pai - Deus, de todos nós!
E nesta fez suas prédicas, sua missão. E nesta me deu enjeitos de não voltar atrás na palavra dada, na honra devotada, pelo que em complicações e outras tantas atribulações este meu menino - Menino Salvador - trará ao mundo. Mas tal não posso. Nem devo. Seria como esconjurar minha alma e todas as que depois de mim viessem, se me negasse ou renegasse a dar-lhes meu filho, a dar-lhes mais do que um corpo mas um sentido, um destino e, o seguir de uma outra doutrina; algo que o Anjo me denotou sem que houvesse a minha discórdia ou singela misericórdia de atrás poder voltar, de atrás poder encetar. E a cisma me ficou; mas nada mais posso fazer do que dar o que não é meu; dar o que me recebeu e enfim, apenas soletrar - em boca vazia de palavras - o que a minha garganta não solta e o peito me estremece, ao sentir que está perto, muito perto esse dia deste me apartar.

Fica dias no deserto. Dias e noites; noites e dias em que nem sei por onde Ele anda e mais não posso saber; e mais não posso perguntar que Ele não me responde. Sou sua mãe, mas tal não me é devido. E eu arco com tudo isso, até a focinheira de Youssef que já lhe não dá abrigo mas ainda assim o sente como seu e não daquele outro lá do Céu que tudo pode e tudo manda, pois que tal como seu pai de punho, barba e sangue, Youssef o sente, sabendo de antemão que assim não é.
E nesta terra mártir onde estamos, eu, Youssef e meus outros filhos, irmãos de sangue e suor mas não de alma e berço terrenos, eu me veja só e sem quebranto de O sentir afastar-se de mim, Ele que tantas alegrias me deu por O ver mais esperto e mais desenvolto em face a outros seus iguais que nunca o seriam, tal como o Anjo me apregoou sem homilias ou salamaleques de maior.
Que se voltem os pedregulhos de terra árida, de terra sem águas - ou de demais líquidos harmoniosos que fizessem desta serem hortos de cenobitas em pérgulas de ouros e marfins - que tudo eu renunciaria, só por ver meu filho voltar e, enfim, de novo, para meus braços ele se enredar, que não para os de seus seguidores que até me dizem João Baptista tê-Lo assistido, e nas águas dos morros ter enfiado em recebimento de Deus - seu pai - em seguimento de sua doutrina e registo de toda uma multidão em si crente. Ah, Meu filho, meu Messias, para o que estais guardado...?! E que vos estará guardado então...? Até temo de o pensar...

A Morte e Ressurreição
Ah, meu menino santo, meu menino Yeshua, como eu o sabia e não queria admitir, pelo tanto que o Anjo do Senhor me alvitrou - e confidenciou - sem que os meus ouvidos o quisessem ouvir. Ah, meu Menino e meu Messias de outros tempos, de outras terras e outros reinos que não os da Terra, ao que esse mesmo belo Anjo me disse Tu pertenceres em terra de Teu Pai - e eu nem queria acreditar. Só sentir. Sentir que podia ter sido uma outra verdade, e não terias perecido às mãos dos ignotos e cruéis malfazejos que nos tomaram as terras e a condição, por outros que, não Te compreendendo - ou talvez te subestimando - Te deixaram sucumbir à perdição de seus tão viciosos intentos e, deslumbramentos, só por se verem únicos senhores desta terra e destes céus que não são vossos (não são de ninguém!) mas do Pai, Nosso Pai e Senhor, Pai de meu menino, de meu Yoshua - Deus Senhor. Mas não quisestes saber, nenhum de vós; daí que vosso templo judaico tenha caído como anjo mau, como anjo preterido que lá dos céus se aventa e, desprega, vindo-nos cair aos pés sem buxo nem lamento, antes má anunciação pelo tanto de mal que lá por cima e cá por baixo plantou, suplantando a dor de uns quantos que de vós sai, que de vós leva suas almas.
E a dor, essa, oh, máxima dor de todas as dores, dores de ver um filho morto, de ver um filho partir para os braços do Pai, do seu pai, do meu tão feroz e profundo desígnio de ter sido mulher sem o ser, de ter sido mãe sem o querer, de ter sido tudo e nada, só por haver um filho Messias que veio para salvar o mundo. E o meu, como fica...? Eu, que nada já sou, sem Ti, meu filho, que de mim saíste, que de mim Te perfilaste em caminhos tempestivos,  perfilhando eu na condição terrena de tua mãe e tua serva, em semelhante abjuração, em semelhante divinação, que tudo eu enlacei, verguei e encimei; que tudo eu aceitei e tudo me foi agora negado só por Te ver de novo nos meus braços, mas vivo e de boa condição...?!

Poderá haver dor maior no mundo...? Poderá...? Não creio! Não, nesta imensa e tão igual dor, excruciada - crucificada também convosco, meu filho querido - que estes odiosos homens de nenhuma vontade Te levam assim, te levam em cilício de todas as almas do mundo e com essa tão espinhosa coroa que mais não é do que todo este mundo em Ti. E como isso me faz sofrer...!
Não consigo chegar a Ti. Os Romanos não o deixam, não o permitem, e eu lastimo tão má sorte, tamanha desdita e pungida morte que Tu, meu filho, em breve verás. Talvez, em breve também, sejas um outro cordeiro  há muito anunciado sobre a sacrificial cripta dos homens que nem todos o merecem, que nem todos o incensem. E Tu, meu filho, agora vestido de um manto vermelho de sangue, de um manto profano de dor e sofrimento, Tu, que tudo vês agora e há muito, sentindo chegada a hora de dar a vida por todos eles (ímpios e malditos!) que um dia te adorarão e se lamentarão de Te ter dado semelhante e pretenso desafortúnio. Mas, meu menino, meu Yoshua, serás sempre o meu menino e eu a tua mãe, aquela mesma mãe de sempre, terrena mas não sarracena que tanto Te deu sem nada em troca. Ou talvez não, esteja eu assim enganada e desmesurada pelo tanto que nesta parca vida me deste em sorrisos teus, em destinos teus, só por me ver enleada em teus olhos, em teu reino de outros reinos que não os da Terra. E que, um dia para lá vou, levando comigo esse Teu olhar, essa Tua candura que tanto me enjeitou e depois me acarinhou em doçuras que já não lembro. Eu, Maria, tua mãe, sou e para sempre serei, tua escrava, tua serva; mas, acima de tudo, Tua Mãe! E se esta tão grande dor me não matar por tanto te ver em meus braços agora a vida deixar, ser-Te-ei a mais fiel seguidora - deste ou doutros mundos - pois que como tua mãe na Terra, ser-Te-ei sempre, mas sempre eternamente devota, amante e amiga, senhora e rainha, imperatriz ou mendiga que tudo serei a teus olhos nesta ou noutras vidas, nesta ou noutras terras, neste ou noutros reinos.

Sob esta mortalha Te rezo, te oro e Te deixo em suave leito de morte, pois que Te terei de deixar voar, Te deixar partir para com teu Pai ires... por muito que isso me custe. Mas parti, então. Parti de uma vez e deixai-me com a minha dor; eterna e sublime, mortificada em imortal indolência de não mais me ver chegada a hora de convosco ir ter. Mas lá irei, por Deus Nosso Senhor, por todos nós, santos pecadores. Eu, Maria, vos rogo, esperai por mim, que tudo vos dei a vós e a vosso pai, Pai de Todos Nós - e por Ele - seja eu de novo serva e pronta para nova missão. Faça-se então em mim, segundo a Vossa Vontade. De novo, que de novo irei para vos ter em meus braços. Ressuscitai e sê-de feliz. Porquanto lá do Alto estiverdes... olhai por vossos irmãos cá na Terra. Esta, a vossa mãe que tanto vos ama. Que tanto por vós espera um dia encontrar, lá no Céu, onde demais Anjos me virão buscar e porventura me segredarão que, a minha missão foi cumprida, mas outra virá em que eu serei de novo chamada a uma sua e outra voz, a uma sua e outra anunciação - brevemente, muito brevemente. Que Assim Seja, o digo! (Ámen!) - E que os Anjos Te acolham - e me acolham - e Assim se Faça na Terra o que Deus mandou dos Céus que se fizesse em luz e, assumpção! Glória aos Céus nas Alturas, na Terra! Ámen, por todos nós!