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sexta-feira, 18 de março de 2016

Eu e o Meu Pai! (II)


 Eu e tu, meu pai, numa vida que jamais aconteceu...
Quando há apenas um dia para se recordar... e, esse dia, maldito ou bendito, é tudo o que nos resta...

A Ti, Meu Pai
Odeio-te! Não... amo-te! Não sei, juro que não sei. Ah, como me apetecia viajar no tempo e dizer-te tudo o que de mal me fizeste, o que de mal plantaste em mim como erva daninha, cipreste maldito ou cancro aberto que por todo o meu ser se ramifica em dor, muita dor.
Tanto que eu te queria dizer, tanto que eu te queria abraçar e fazer perpetuar no espaço e no tempo todo aquele amor que, um dia, eu senti tu me dares nesse dulcífero momento a dois. E tanto que havia por dizer, por fazer e, por soltar de nós: de tu e eu, eu e tu como um só.

Não me lembro do teu olhar, do teu cheiro ou sequer do teu rosto. Foste a coisa mais agreste, pungente ou desequilibrada que perfez a circunstância de ter um pai só de nome, melhor que ser incógnito mas pior, muito pior, do que o sonho ou imaginação infantil de te saber um soldado e senhor e não, um déspota e um violador. Um ladrão de almas. Um pirata de mundos!
Ah, como te odeio, meu pai. Tu que me devias proteger, tu que me devias dar um mundo, o teu mundo a azul e rosa, a muitas cores, a muitos desejos, e nada me deste que não fosse a escuridão dos dias e das noites em que derramando lágrimas de impurezas de vidas que não vivi, esperei por ti, ah, como esperei por ti, meu pai, e tu, nunca vieste...

Que mal te fiz eu, meu pai??? Que mal te fez minha mãe... não me dizes? Porque nos abandonaste, porquê??? Que idílios tinhas concebido, que paraísos ou édens perdidos terás querido só para ti, só para esse teu vil e pestilento mundo de gente ébria, de gente drogada, de gente que não era gente e se abeirava de ti só para te extorquir o pouco que de minha mãe e de mim roubavas, só para os teus vícios, só para a tua hedionda gula de sevícias mundanas que te apanharam o corpo, que te apanharam a alma - por muito que o negasses, por muito que te tivesses depois revoltado sem nada surtir efeito. Era tarde para isso; foi tarde para voltares atrás e, demasiado tarde para teres o nosso perdão: o meu, e o de minha mãe, que tanto te houvera perdoado sem que o tivesses merecido.

Não me lembro das tareias. Das bebedeiras e das sovas, e nem tão-pouco dos gritos a portas fechadas mas escancaradas ao mundo que tão bem sabiam dessa tua má condição e maus azedumes (e maus vinhos) que tanto te faziam em minha mãe bateres, frustrando-te a enunciação de homem digno, de homem escorreito, de homem composto de uma vida que jamais seria a tua. Mas tanto que eu e minha mãe esperámos que tardia, mas convictamente, surgisse em teu vislumbre, em teu seio de homem revirado, a renúncia aos demónios da noite, aos anjos caídos que te envenenavam o sangue e a alma, tudo junto, numa não-condição vivente que te levasse a ter, finalmente, essa sã consciência do mal que ceifaste no mundo: o meu mundo e o de minha mãe. Ah, que ódio tive dessa linhagem do demónio por que seguias, por que te envolvias, sem olhar para trás, sem notar ou sentir que atropelavas todo um mundo que não era só teu, mas igualmente o meu e o de minha mãe em muitos outros mundos que tudo arrastavam sem comiseração.

»Meu Pai, se é que me ouves, se é que me lês, se é que ainda estais vivo... ouvi-me então em vosso coração e dizei-me por sangue e coração, mais por bem do que por filiação ou genética apresentação, que mais nos poderíeis dar, senão o sentir que tudo haveis perdido por terdes sido apenas maldito...»

Mutilaste em mim esta dor maior de me ver desagrilhoada de fúria e admissão - liberdade e consideração - amputando-me todas as esperanças de me ver ser mulher que não a menina de outrora, a tua menina, que um dia, dia que não lembro ou não quero lembrar, tiveste em tuas mãos, em teu regaço de homem farto, em teu aperto de peito e tubular reflexão do que um pai é, ou deve ser, muito mais do que aquele raro acervo que foste para mim. E que nem aquele dia no lago salvou, não, de todas as mágoas, de todas as angústias em que não tive um pai que comigo privou ou algo de si partilhou em aceno e referência de me ser mais, algo mais do que um nome, um só nome no cartão de identidade que agora se chama de cidadão em coisa que eu não sei o que é. Cidadania...não é? E o que é isso de se ser cidadã, quando não se tem pai mas barriga para alimentar, pés para calçar, livros por comprar e lágrimas até por chorar, de tristeza ou alegria, aquando estas assim se motivam, estas assim se ostentam, por meandros de uma vida em cor e felicidade ou abuso e autoridade, sem que haja um pai que nos acoberte...?!

Não fui suficientemente forte, bonita, alegre e poderosa para que teus braços eu prendesse como não os prenderam minha mãe, e tu tivesses partido naquela noite fria sem dizer adeus, sem olhar para trás, sem nada mais dizeres do que o silêncio das palavras não ditas ou daquelas outras não escritas, das que ficam sempre por dizer. Ah, meu pai, como te odeio! Ah... mas como te amo de igual forma...!
Foste o mais cruel dos engenheiros desta minha vida, fabricando-me esta mas deixando-me orfã de afectos, de carinhos e de gestos teus em candura do que jamais conheci - e apenas aluí - em observações menores sobre outras iguais que, diferentemente de mim, tinham pais para abraçar, tinham pais para beijar, tinham pais para amar. Meu pai, o tanto que tenho para te dizer, mas tanto...!

Degolaste-me o crer, a vontade e o ser de ser alguém. Quase te segui os passos e as agruras dessa tua delinquente vida de maus usos e maus costumes; hábitos e práticas de insanas rodadas de gente sem escrúpulos em carpidas malgas de vida piores que a tua, ou minha, sorvidas em túmulos de amigos que o não eram e nem sequer o fingiam ser. Tal como tu, meu pai, fui estropiada de tudo; desolada de tudo o que o mundo após o teu ser que deu o meu, assim me cavernou a alma, ditando que já não era tua, tua coisa nenhuma, que nada soubeste ser. Penando por isso, derrubando caminhos e sebes, decepando seres e sentidos do que não vivi ou senti por entre lençóis, camas ou desassossegos que não os meus, encruzilhei-me nessa mesma rede demonológica que a tua, de caveira à mostra e dentes saídos, putrefactos, que para além dos estupefacientes, também davam a ciência de saber que tudo em volta apodrecia; em vida e lamento. Punindo a tua ausência, pungi-me a mim na severa condição de condenação e quase morte, só para que te apiedasses de mim e...se Deus ajudasse, para mim voltasses; eu, que tanto por ti esperei esta vida, toda a vida...

Defequei sobre ti todos ódios do mundo, meu pai. E, por toda a sombra ou semblante que de ti via surgir, eu apregoava maldições e outras aferições de índole pouco beata com o que me assistia como tua filha, teu ser ou ser de ti vindo. Mas, meu pai, se por um sorriso teu, por uma imagem tua, por um breve e comedido solstício teu de uma qualquer tua estação provinda, me desses de ti cores, de ti favores, de ti a mais ténue afeição, eu para ti correria, para ti te enlearia como a mais forte e poderosa força do mundo em atómica propulsão, idêntica ou similar a essas que levam foguetões à Lua ou onde for, ou onde quiserem ir, pois que a minha força leva a outros mundos, a outras sensações.

Meu pai, que tanto amei, escondida e sufragada por entre o frio das madrugadas em que te não vi, em que te não senti, naqueles deveres, teus, que esqueceste, que aboliste, ou que revogaste noutros desconhecidos (ou nem sequer te deste ao trabalho de saber se havia outro ou outros), anulando todas as vontades, todos os créditos de mim sobre ti. E isso, por tudo o que faltou e falhou entre nós: nas ausências e não permanências de me ires buscar, à escola ou, à enseada de outros mundos, outras vias, más, sulfurosas e não convenientes de quem se diz ser coerente e não indigente pelas ruelas de outros destinos, outros corpos, outras patogénicas doenças que não as do corpo, as da alma, que fazem mais mossa - e por vezes - são mais letais que doenças por África. E por África ficaste, e por África divagaste o teu nome, a tua condição de homem sem rumo e sem bússola que te navegasse os sentidos e a direcção de saberes o caminho certo, o caminho que atrás deixaste gelado, moribundo, e sem salvação. O teu outro mundo.

Pelos pântanos mesopotâmicos lançaste a tua ilharga, a tua âncora leprosa de salitre e desapego, pois que nunca te apegaste a ninguém, a nenhuma mulher, a nenhum filho, a nenhum país por onde passaste. Foste um viajante do tempo e só isso te dava prazer, não vendo que no fundo, apenas, sombreavas o mais pálido ectoplasma ou mero fantasma que não deixa saudades. E tu, meu pai, não deixaste. Ou talvez minta e, sabendo-me traidora desta tão dura realidade ou verdade camuflada neste meu dorido peito, tenho de o dizer (ou desdizer, tendo de o replantar, reflorestando a vegetação perdida) que, tal como pantanal ferido pelo esventre e pela violada mão do homem que tudo quer, tudo toma, faz assim refém, igualmente, nesse seu peculiar ensejo e desejo de tudo e em tudo se ver senhor. E tu, senhor meu pai, não foste diferente, apenas mágico, se é que se pode chamar de mágico, alguém que faz desaparecer momentânea e imperativamente todos os amores da sua vida. Como te odeio, meu pai...!

Mas ainda sonho... sonho que voltas para mim, meu pai. Sonho com aquele dia à beira do lago, aquele mesmo lago que, não sendo as suas águas as mesmas, possui o mesmo viço, o mesmo deslize e o mesmo encantamento de outrora aquando eu, a tua menina - de suavidade e aromas a amoras e alfazema - te presenteava com os meus risos, as minhas traquinices, as minhas alegrias de pequena criança que era. Será que o lembras, meu pai...? Será que o esqueceste alguma vez...?
Eu não. E ainda hoje sinto o fresco da água por entre os dedos, o Sol apaziguador de uma Primavera que dava os seus primeiros passos e tu, meu pai, em suave contingência de homem maduro mas não impoluto de tudo o que a vida te havia de dar, exalavas o cheiro a pai, o cheiro a uma paz perdida, o cheiro a um amor que jamais voltei a sentir. Sabes a que cheira o amor, pai? A rosmaninho. A flores do campo, e a toda uma incontinente felicidade que por mim escorria como se o mundo, o meu mundo, fosse começar e findar ali, sem espaço ou tempo para mais que não fosse, o ter-te, ali, junto a mim, pai. Ah, como te amo, meu pai...!

Um rio que vem do passado e desagua no futuro não pode ser (ou não deve ser!) um bom augúrio. Não pensas o mesmo, pai? Ou estarei errada e, sistemática e insistentemente enganada, sobre tudo o que por veias, por sangue e nenhuma estima de ti sobre mim, eu verei em negrume que não em iluminação, ante tudo o que já vivi, não me dizeis, meu pai...?
Sobre o poder da espada, da crítica, da solidão e da arrogância de ter sido criada como órfã de ti, fui abusada e sequestrada no mais infame ou ardiloso covil de todas as coisas na Terra, em caprichoso teatro cósmico de muitos tentáculos em que, em cada homem com quem dormia, ou vivia, eu via um bocado de ti - e paguei por isso.
Querendo ver-me livre do teu espectro e dessa tão peçonhenta dor, mais me assumi e consumi na mais heroína das causas, tornando-me esmiuçada mas, ferozmente, um ser infalível, tortuoso e perturbantemente igual a ti! E aí apercebi-me de que não era, então, muito diferente de ti e comecei - igualmente - a odiar-me por isso. Mas, ao contrário de ti, meu pai, revolvi passados, reconquistei espaços e, num tempo que ainda tinha tempo para mim, solidifiquei o que de melhor havia em mim: a esperança de voltar a ti!

Esperei por um milagre, esperei por ti; que deixasses os opiáceos, as putas, as noites mal-dormidas, e enfim, todas as mazelas acometidas de outras dores que não as do corpo, as de uma inconstante aflição de te veres sem mim, sem outros, sem ninguém que te segurasse na mão e que te desse um bom fim. E que, por fim também, te auspiciasse a benevolência do que a terminal doença ou síndrome da imunodeficiência adquirida se tingiu em ti, sobre ti, sobre teus ossos débeis, fracos, fracturados e capturados pela mesma doença que nenhum anti-retrovírico soube liquidar, tendo sido tarde demais para isso, tarde demais para muitas outras coisas. E, sobre teus músculos flácidos, sobre a tua face cadavérica e, no fundo, sobre todo teu martirizado corpo amordaçado pela vil doença em VIH pronunciado, viste-te finalmente libertado - de ti, mas não de mim. Foste apanhado! E eu contigo. Queria morrer ao teu lado; queria ter-te dado a minha vida, a ti, meu grandessíssimo crápula, meu pai de nenhuns pruridos - e nenhum amor - e, nenhuma vida já quase.
Meu pai, que tanto mal me fizeste, a mim, a minha mãe e a ti próprio, por que não fazeres as pazes com a vida, nesta que te resta agora, e me dás o prazer de te ver dizer - ou apenas sentir em sorriso teu de uma vida que de ti se esvai - de que te não esqueceste de mim, daquele dia no lago, daquela encosta de sombra e verde, de tudo e nada que tu e eu vivemos há muito, muito tempo... lembraste, pai? Eu lembro. E lembrarei sempre!

Não haverá maior impiedade sacrílega do que o não perdão de uma filha a um pai - ou deste sobre si - na preciosidade da compaixão, do amor e da devassidão que os seres possuem na Terra. Mas pai, meu pai, dizei-me agora em vosso último instante de vida: Algum dia, algum momento, deixaste de pensar em mim ou de me amar...? Eu não, meu pai. Jamais! Antes calabouço que asas de anjo me levassem se vos mentia, pai. Antes rameira e perdição minhas, que a incerteza dessa absolvição, pior que jurisdição penal ou inquisição de outras almas, maiores ou menores, se nestas andanças me visse.

A morte te levará de mim, eu sei, mas estou aqui. Hoje e sempre, pai, meu pai. Ainda me ouves...? Ainda me sentes...? Olha, pai: Vê-de como brilha o rio... vê-de como as figueiras e as videiras estão belas em redor, hortênsias, cravos, malmequeres, papoilas, lírios e até nenúfares que se deixam abrir ao prazer do Sol, ao prazer deste dia, meu pai, e se deixam também morrer por que sabem que, um dia destes, acabam voltando, acabam nascendo de novo - e «morrendo» de novo - em cíclico crescimento de uma vida que são muitas outras vidas e tu, meu pai, aqui estarás para mim.
Agora, parte em paz, meu pai, e leva contigo o meu coração e... aquele tão saudoso e belo dia no lago em que tão felizes fomos, na eternidade que nos vê...