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quinta-feira, 4 de agosto de 2016

O Abraço de Cristo ao Mundo!


Cristo Redentor iluminado com as cores da Nação (bandeira, língua e Pátria) de Portugal. A homenagem certa e hospitaleira de um povo que não esquece as suas origens... e Portugal agradece em união e conformidade deste seu país-irmão. Obrigado Brasil!

O que eu sei do meu avô na sua passagem pelo Brasil...
O meu avô conheceu o Brasil. Um dia... há muito, muito tempo. Navegou pelas suas águas, pelos seus mares, voltando depois num saudosismo inconformado - ou talvez desenfreado - para o tanto que havia deixado.

Estava-se no belo ano de 1926 de um turbulento século XX, em Portugal e na Europa, de um pós-guerra de oito anos (1914-1918) que deflagrou em algo muito estranho. A disparidade económica e social entre a cidade e o campo eram confrangentes e tão distantes como a Terra à Lua.
Na consequente realidade portuguesa, na sua urbe, pululavam em multiplicação desembestada, aristocratas, artistas, intelectuais, funcionários e gente em busca de promoção social, desde os novos-ricos (patos-bravos) aos mais inescrupulosos pederastas. Mas isto era em Lisboa, versus Porto, ainda que não tão intenso ou tão desbragado como na capital. Luxúria, cocaína e tantas outras coisas que, hoje, até nem nos parecem tão diferentes assim, na actualidade. Mas nos campos, no meio rural, a coisa era diferente. Mais rude, melancólica, medonha até. A fome imperava e a ignorância alastrava. Assim como as feridas nos pés por ninguém andar calçado ou ter recursos para isso. Além as memórias, traumáticas, que para alguns ficou; da guerra, da fome, da doença (sezões ou febre espanhola) e da morte precoce por falta de medicamentos ou assistência em caso pior. Tudo isso se fazia sentir, pelas agruras e tormentas, muitas, dessa ainda mui recente e famigerada Primeira Grande Guerra (na Europa) que muitos tiveram o privilégio - ou o desprazer - de nesta fazer parte. Guerra esta, de fulcro e jugos sanguinários, recordada por todos os que por lá bisaram, pisaram e, amorteceram, nas tantas dores que não na morte, pois esses não falavam; desses, quase já ninguém lembrava, segundo os mesmos heróis acabrunhados e tão estafados de medalhas ao peito que esta guerra atormentava, ainda. O soldado-milhões é disso exemplo. E mais não se pode dizer.

O meu avô teve sorte; livrou-se da dita e não sei por que razão. Mas os caminhos e desvios destas intermitências da vida haviam-lhe de sair caras, muito caras. Casou pobre, ainda que o dote da minha avó não fosse nada de se deitar fora em alguns alqueires de terras e outros sobrados por enseadas e arrabaldes, pois que esta era senhora de família e de bens, mesmo para a época.
A ruralidade entranhava-se-lhes na pele como virulenta maleita, pois que os tempos não eram de prosa nem de conluio com os que nada tinham, esses outros ainda mais pobres, ainda mais rudes ou ainda mais ingénuos para acreditarem que, em Portugal, se podia enriquecer apenas com o suor do trabalho e da faina, em jorna e em casulo, não se fazendo pé-de-meia, não se fazendo pé de nada.
Segundo a minha avó me contou (pois nunca conheci o meu avô, em vida, tendo este falecido muito novo ainda, de doença oncológica), trabalhava de sol-a-sol, como se dizia então, ou seja, um horror de horas desde que o Sol nascia até que se punha, na feitura e alisamento das estradas de alcatrão por todo o país; daí que não fosse novidade a sua ansiedade de descobrir mais, ir mais além ou simplesmente ganhar mais, o que já não era nada mau.

Do velho moinho de uma quase irmandade matriarcal (a avó tinha mais 5 irmãs, tendo sido criada pela mais velha em repúdio e rejeição de uma mãe que as abandonara para ir viver com outro grande amor que não o pai de todas elas) de celeiro e proventos auspiciosos, passou para uma casa rudimentar, exígua demais para os muitos filhos que foram chegando, entretanto, em que tudo se foi comprimindo sem abastança ou compromisso de tal refrear. Mas já lá vamos. A casa da minha avó, já casada, era composta de dois pisos (soalho de madeira em cima e de pedra rugosa em baixo) e, uma escada que dividia ambos os pisos que parecia oscilar em trémula ou frémita descontinuidade, sem corrimão ou poiso que nos amparasse na queda, onde a minha avó (no piso superior) deu ali à luz nove dos seus filhos (dois mortos precocemente) e uma catrefada de sarilhos e engodos, mitigando a fome ou ludibriando esta nas bocas, muitas, famintas e desavindas que se abriam e se não enchiam de remessas ou alimentos, pois que os campos nada davam em dias e noites de muita chuva e intempérie que só visto. Ou ainda, por destes já pouco restar em venda e demanda de parcos recursos, de parcas economias domésticas que tudo levaram, sem piedade ou conforto de, por vezes, uma sardinha ter de ser repartida e partilhada por três. Era assim a vida, contou-mo a minha avó, a minha bendita e santa avó da qual ainda hoje recordo o seu jeito de sorrir fechado, a sua robustez faraónica de mulher do campo ou, a sua diligência para comigo quando, docilmente, me pedia para lhe servir à luz pálida mas não baça de um pôr-do-Sol magnífico da zona oeste, um cálice de aniz Marie Brizard que alguém sempre lhe trazia de França, pois sabia melhor do que o comprado por cá...

Mas falava eu do Brasil. Pois foi. O meu avô era um saloio. Daqueles que se matavam a trabalhar nos campos e na eira e, desta, sem eira nem beira, ficavam sem nada, vá-se lá saber porquê, se como ter de alimentar mulher e filhos já lhes não fosse o suficiente.
Que sabia então o meu avô daqueles fartos ou abastados (só para alguns...) e loucos anos 20, para se ter de rebater - e talvez enfurecer - até terras de Vera Cruz, sendo ele tão saudoso, tão prestimoso e tão zeloso da sua trupe familiar que só agora começava a dar rebentos mas muitos sustentos...?! E tantos sustentos eram, que ele não tinha para lhes dar. Ele, e muitos mais da sua povoação e fora desta, pois que Portugal extravasava de pobreza e ninguém parecia querer saber...
Quão débeis eram então os índices de desenvolvimento de Portugal, e ele, de bigodinho raso e não farto, aliás como tudo o resto, de olho verde e cigarro ao canto da boca, lá ia assobiando, talvez afastando a magra, paupérrima sorte, de se ter emparedado - e quiçá apaixonado - por aquela roliça moça do moinho, do velho moinho e da despensa farta, que todos no povoado cobiçavam em ambas as desditas.

E que sabia o meu avô da situação da urbe, ou daquela majestática cidade capital que vazava champagne como quem vaza um olho, sem querer ou sem poder, numa mistura de vaidade e deslumbramento pardos, endividando-se, amortalhando-se, em conspícua alternância de luxúria e desperdício, sucata e brilho, nos muitos clubes nocturnos que proliferavam como cogumelos na noite lisboeta; Que sabia o meu avô de tudo isso...? Nada, certamente!
Jogo clandestino, prostituição, tráfico de droga e até o crime violento (quem não se lembrava da infeliz Maria Alves, a bela actriz que fora morta pelo seu amante em crime passional, na Primavera de 1926...?!) ou da colossal burla de Alves Reis sobre as notas de 500 em infame escândalo financeiro com avassaladoras repercussões que chegou a atravessar fronteiras, terras e mares...?!
E isso importava...? Não sei. Para já não falar da ditadura instituída, fortalecida pela sequencial eliminação de uma oposição fraca ou de um estabelecido autoritarismo nacional inspirado por ditaduras europeias, como a de Mussolini, de Itália. Só mais tarde viria o Reviralho, mas isso o meu avô ainda não sabia nem podia e, possivelmente, nem compreendia. Só entendia a fome, muita fome, e um desprezo vómito (ainda mais) por aquela incipiente vida de muitos nadas e tantas perguntas por responder de uns serem bafejados pela sorte de um berço doirado e, outros, desmantelados e omissos dessa mesma sorte do nascer ao morrer; e muitos deles, sob o mesmo chão da mesma aldeia e da sua triste e igualitária vicissitude.

O Regime é uma Ditadura...? «Quero lá saber disso, nina (abreviatura de «menina» nas aldeias), quero é ter comida na mesa», disse-mo a minha avó, quando lhe perguntavam sobre o que por lá se passava, pela cidade grande e maluca - e pelos vistos desnorteada - como aferiam alguns mais sabidos. A Ditadura tem um prazo...? Vai-se regressar à Monarquia? Temos de mudar a Constituição...? Os Militares mantêm o poder ou passam-no aos civis...? Por que porra se fez então esta Revolução, heim...?! E como vai o povo pagar a dívida ao estrangeiro e anular a Bancarrota Nacional...???

Tempos de outrora... ou nem tanto...
Não foi bem assim que a minha avó me retratou os medos e receios de então, bem mais fácil foi retirá-los daquele contexto truculento e, abissalmente incómodo, de grande transtorno e pouca resolução que então me foi contado à boca pequena, pois que até parecia as paredes ouvirem, tal a confusão instaurada e desregrada que por aquelas terras se fazia, das cidades aos campos, das vilas às aldeias, por mais pequenas ou insignificantes que estas fossem. Não havia trabalho e ponto final. Assim me resumiu a minha avó, dizendo enfaticamente:
«Queríamos lá saber daqueles Filhos da Puta todos lá na capital; queríamos era ver o nosso celeiro abastado e não vazio e, para mais, ou para tantos outros, a barriga cheia e não a roncar, de dias e noites a fio de todos os meus filhos - teus tios - sem nada ter para lhes dar! Dói, ah, como dói neta; e eu sem nada poder fazer, com todos a chorar em volta de mim, ranhosos e famintos... ah, que tempos maus esses, neta, que tempos maus esses... dizia-me ela com seu olhar vítreo e perdido na secura das memórias, ou desse seu anoréctico tempo em que ainda não se sabia o que isto significava, além a era das exânimes donzelas que desmaiavam por tanta fraqueza haverem de apenas rejeitarem comida, essa mesma comida que tanto lhe faltara na mesa e na vida...

Voltando ao meu avô. Não sei se ele se perdeu pelas noites da capital; das noites boémias, voluptuosas e travessas de uma Lisboa sem regras, princípios ou vergonha na cara de gente que não era gente, ou se fazia por ser em arrasto e arresto de bens ou, arraso de famílias brasonadas que o deixavam de ser, imediatamente, em casinos e casas de mau porte, assim que se passava a ombreira de tais refúgios elitistas - e perdulários - de muito boas famílias portuguesas. Mas acredito que não. O meu avô não tinha dinheiro para isso nem sequer para mandar cantar um cego. Apenas se desdobrou em martírio e solidão, tristeza e silenciosa amargura de ter de deixar os seus e rumar até Lisboa, até ao cais de embarque para o Brasil, aquela terra das mil oportunidades, disseram-lhe. E também lhe disseram que voltaria rico, muito rico, a ajoujar das algibeiras não rotas e puídas (agora), que ele ostentava mas tentava disfarçar, metendo ambas as mãos nos bolsos em jeito de passeio, em jeito de vagueio e, pouco enleio, de alguém o notar.
Mas ainda viu, ah, se viu, por Cristo na cruz, os cartazes, aqueles belos e efusivos cartazes revelando pernas e só Deus sabe mais o quê, que lá na terra nunca ninguém viu, das belas coristas, das belas e azougadas dançarinas de cabaret ou do Teatro de Revista. E como eram belas, Santo Deus...! (perdoa-me mulher, que um homem não é cego nem de pau, não posso fingir que não vejo...). E assim lá terá arrepiado caminho o meu não menos santo avô... acho eu.

Não interessava que o país estivesse endividado ou que a moeda tivesse caído num abismo cambial a roçar a catástrofe iminente numa economia desarticulada... Que importava isso, se as meninas do cabaret tudo faziam esquecer, tudo faziam sonhar, até aos mais incautos ou desafortunados da vida...? Até parecia que a escassez dos bens essenciais ali não fazia mossa, pois parecia, terá pensado o meu avô, sem saber muito bem o que quereria dizer aquela placa que acendia e apagava, dizendo intermitentemente algo que nunca ele sonhara poder algum dia viver:
«Hoje há espumante livre ao som do Fox-Trot e do Charleston e temos salão livre para os mais afoitos, os mais noctívagos que se alberguem pela noite dentro. A nossa brilhante Jazz-Band, agora em Lisboa, depois de Paris, Berlim e Nova Iorque, vem agora presentear-nos com o seu famoso ritmo, não perca!» Boquiaberto e pouco esperto, o bom do meu avô talvez não se tenha deixado seduzir, pois que mesmo ao longe, a uma centena de quilómetros da sua tão abençoada terra, a mulher lhe ouviria os intentos, ou talvez não...

Que dizer de todos aqueles excessos, depois de se saber consagrado (ou formatado) de uma autoridade irrepreensível, irrefutável ou sequer indissociável das muitas chibatadas que levara com o cinto, aquele grosso cinto que doía que se fartava (ou pior ainda, com a chibata com que o pai batia na mula para que ela andasse, mesmo de quando se atolava na lama sem forças para se erguer), e que ele tentava ajudar, sentindo essa estranha cumplicidade com o animal da tanta violência acometida sobre ambos. E nada o detinha, a seu pai, vergastando-lhe os costados - e supostamente a dignidade - numa competência paternal e quase homicida que ninguém fazia por se imiscuir ou levemente interferir, fosse por que razão fosse; e assim ele fez nos filhos, nos seus filhos, Deus lhe perdoasse... Depois de uma disciplina espartana ou de um violento radicalismo que jamais entenderia de um Regime, de um Governo ou sequer de uma sua família em que nem o sobrolho se levantava à mesa, agora e ali, tudo às claras, tudo às avessas, tudo a nu, de belas mulheres e vinho que se farta, afinal porra, nem precisei chegar ao Brasil para já me perder... afinou em boa voz mas só para si, não fossem os ventos ouvir e lá pelo oeste estes se seguirem... até à patroa...

«Estou farto desta merda, vou é embarcar; afinal, já não me chegava o racionamento, os talões para os trocos, que moedas não tenho, farrapos de papel em vez de dinheiro e uma mão cheia de nada, para agora ficar parvo a olhar para estas leviandades...»

Não sei se o meu avô desta feita assim embarcou, com o olhar perdido por entre as ligas das coristas ou o severo olhar da minha avó que nem por um só momento deixou que ele lhe visse a réstia do viço no desejo contido ou, naquela desinvestidura deste seu homem partir para além-mar, além tudo o que se pudesse imaginar, para além dos seus montes e dos seus vales, do seu trigo, da sua cevada, das suas papoilas, dos seus malmequeres ou, do seu tufo de coisa nenhuma, pois que o dote há muito sumira e as ceifas há muito se tinham reduzido a nada.
E não quebrou. Só quando o foi levar ao caminho-de-ferro da aldeia vizinha é que o pranto se não recolheu, e lhe devolveu os piores momentos da sua vida. E por mais que a sua vizinha Maria a confortasse em jeito de bonomia e confraria que tudo iria correr bem, a minha avó tolhida mas não vencida - mesmo com o ventre já inchado de outra gravidez pronunciada mas não confessada ao que de si partia - lhe amolgou nos braços todos os receios, todos os temores e desamores sobre aquele seu homem, o seu único homem que a vira tão em nudez como em desfaçatez de lhe ter sido tudo na cama e na alma, pois que uma mulher que é séria, sê-lo-à para sempre; mesmo para além da morte.

«Vá lá Tininha, sorri para o teu homem que ele já vai longe, olha como vai prazenteiro e galhofeiro, o malandro, e olha como ainda te acena do vapor e te diz que tu és dele, só dele, e tu mulher, que dizes agora...? Não vês que só tem olhos para ti...?! E para ti voltará este homem que tanto te quer, parvalhona...! Vai por mim, Tininha, este é dos que volta, acredita mulher!»

E assim foi. Depois das coristas, em Lisboa, até aos ventos e assomos de uma terra que marujos e navegantes em séculos antes também viram, o meu avô atracou e afiançou que jamais na vida se apartaria de minha avó. Por lá trabalhou, por terras do Brasil (não sei em que cidade mas projecto que tenha sido pelo Rio de Janeiro) vindo só a conhecer o seu último filho até à data - meu pai - aquando por lusas terras de novo se insinuou. Não sei quanto tempo por lá ficou, no Brasil, se deixou descendência ou se foi o mais claustro, beato - ou o mais prolífero devasso - por essas terras de pouco celibato e muito estorvo a quem quer ser fiel aos seus, aos deixados do lado de cá. Mas acredito sim, piamente, que o meu avô jamais esqueceu também de que, por muito pobres que sejamos, hoje e sempre, há sempre um coração que nos chama, uma alma que nos pertence e, uma vida que nos enche de tudo, mais que não seja do benfazejo alívio de sermos, uma vez mais, abraçados por quem nos quer e ama mais, com toda a certeza. Se o Corcovado abraçou o meu avô eu não sei (talvez em sonhos, uma vez que este foi inaugurado só em 12 de Outubro de 1931, ou seja, 5 anos depois da curta estadia de meu avô por terras brasileiras) mas sei que, fosse ele vivo hoje, com toda a certeza também, ficaria orgulhoso e mui célere de voltar a Portugal depois de ter acreditado que além-mar ou, além-terra, podemos ser felizes desde que não esqueçamos quem mais amamos ou, na melhor das hipóteses, termos quem mais queremos do nosso lado - mesmo que esse lado fique do outro lado do oceano...!

Para a próxima Avô, levas a família toda, ouviste...?! E voltares ou não, para as cores da tua bandeira, da tua língua, da tua Nação ou Pátria, será algo bem mais fácil de decidir e não radicalizar, pois que o Cristo Redentor, cá ou lá, em Portugal ou no Brasil, é sempre o mesmo que nos abraça no seu todo.
Que sejas muito feliz lá onde estiveres, avô Floriano!