Translate

domingo, 1 de maio de 2016

Eu, Mãe


A parte de mim que dei ao mundo, no Todo que este me devolveu...

O dia em que tudo mudou...

Se eu soubesse a tragédia desse dia, ou a glória incomensurável que me duraria toda a vida, não sei se o rejeitaria se o abarcaria como a mais pura essência, devaneio ou missão, que jamais se pode negar como a um rei, como a um senhor maior de ímpios feudalismos e não contrariedades. Ou seja, a irrefutabilidade de sentirmos, a partir dai, que somos só um mas, uma parte de nós que anda à solta e faz o que quer sem nos dar contas de nada, sem de nós fazer mais parte, por muito que sintamos que sim, que são nossos, que são poder ou propriedade que de nós veio mas de nós se apartou.

Não há livro de instruções, códigos morais de honras ou desonras ou sequer manual certeiro que nos ditem que, desde o primeiro momento que os concebemos, que os geramos e os sentimos dentro do nosso ventre, refiram que tudo vai mudar, que tudo já mudou, e nós, simples e meros espectadores em género feminino de transmutação imediata, de barriga e pés inchados, humores e hormonas descontroladas, a tudo ripostamos, enaltecemos ou repudiamos, consoante o estado de espírito ou situação acomodada que entretanto lá vamos aceitando, não sem algum pranto e devassadas lágrimas - muitas - de sentirmos que o mundo nos cai aos pés ou nos desaba em cima, só porque, simplesmente (novamente) estamos a criar vida, estamos a criar um milagre...

Ser Mãe é ser Tudo! Ser Mãe... é assim como uma folha de serviço em branco que, ao longo da vida, se vai enchendo de coisas boas e más em fenómeno natural e conciso do qual jamais se pode fugir e, fugindo, este nos bate à porta tal ceifeira da morte ou cruel destino que nos grita o tão caprichoso ou maldito acto de o não termos aceite, de o não termos considerado em nós. E esse lato poder da Humanidade (bendito ou benfazejo que a natureza humana nos oferece) é só nosso, das mulheres, daqueles dicotomizantes seres - de pensamento, filosofia e  estados de alma controversos - que tendo ovários, útero e um coração cheio de alegrias e tristezas, tudo lhes perdoamos, aos filhos, aos que de nós saíram, sem que para para tal lhes fosse concedida licença ou permissão, pois que são independentes e parte única de si próprios que não nossos. E que nós, muitas de nós, não compreendemos nem correspondemos minimamente que seja, nesses gritos de Ipiranga de libertação e soltura de cordões umbilicais há muito cortados, há muito afastados de nós. Só temos de o aceitar, ou apenas sofreremos em vão e na longitude dos tempos que nos amordaçam a dor e a solidão de os não termos por perto (por vias de emigração forçada, desejada ou versejada pela descoberta de novos horizontes, novos rumos e novas experiências) sobre tempos que se não compadecem com a nossa galinácea condição de «mães-galinhas»...

Desde o primeiro segundo, o primeiro batimento do seu tão ténue coração latejante que em nós se faz ouvir (sob parâmetros clínicos das ecografias/ultrassons) que a nossa vida, tal como a conhecemos, parou, estancou - ou, prosaicamente falando, esbarrou na contemporaneidade de uma divisão molecular (mais de alma do que de corpo) que jamais inferimos como verdade absoluta.
São os nosso meninos. São nossos, e pronto! E isso, por si só é uma lástima, uma contradição e uma catarse, se tivermos em conta o mal-estar que criamos nos nossos parceiros, nos nossos companheiros, maridos, parceiros ou simplesmente pais ou progenitores que lhes dão o ser e o sexo em sémen em nós espalhado - e algumas vezes ramificado ou replicado - sem que os julguemos parte integrante, parte edificante, pois que só em nós eles (os filhos, fetos em desenvolvimento) se sentem, alimentam e recrudescem, e de nós se libertam em mil agonias de infernos dolorosos que de imediato se esquecem, assim que lhes pomos a vista em cima. Ou não. Há dores piores; as outras, as que ficam eternamente...

Ser Mãe, é muito difícil! Quem disse que o não é...? Ninguém. Ou então mentimo-nos à descarada, quando os nossos filhos partem para longe como se fossem para a guerra (ou literalmente o fazem em serviços prestados à nação) ou quando fazem a primeira comunhão, passam o primeiro exame escolar ou nos trazem o diploma de honra e brio de uma sua arrevesada ou incólume licenciatura tirada anos a fio, em prolongamento de um nosso intrínseco sofrimento que os continuamos a ver - e a sentir - como os nossos meninos e meninas de colo, de insegurança ou protecção que ainda mal sabem voar, que ainda mal sabem dar os primeiros passos...
Sufocamo-los e angustiamo-nos. Ser Mãe é isso. Ser Mãe é tanto, que não dá para descrever: os dias e noites à cabeceira (por doença ou apenas vigília), outros dias e outras tantas noites em que, levando o automóvel do pai ou da mãe em carta de condução tirada há escassas horas, nos coloca débeis e malucos, de vela na mão e insónia permanente, sentindo que o nosso rebento se vai esbardalhar ou enfiar ravina abaixo sem que os possamos amparar, sem que os possamos segurar nessa estouvada libertação do casulo ou deste nosso tão confortável e fiável ninho de nenhum perigo.

Se um dia me dissessem que tudo isto viveria, sofreria, repartiria em mil vigências com outras tantas mães, talvez não acreditasse, mas jamais repudiaria ou renegaria essa aferição de mil afeições, de mil sujeições, prerrogativas ou submissões, sufragando tal condição.
Ser Mãe é tanto, que só a palavra Mãe dói, numa dor amena, dócil e de enlevo angeológico (entre o endeusamento e a demonologia ou, naquele maniqueísmo do bem e do mal em que oscilamos, aquando os nossos meninos e meninas se escarrapacham por entre sedutoras e fatais provações de vida sobre toxicodependências ou adições). E a tudo suportamos e, comportamos, numa resiliência extrema que só Deus sabe, com um estoicismo de matar à paulada, de calar à dentada ou sequer de sofrer em silêncio, porque já nada nem ninguém nos ouve nessa dor dilacerada, magoada no tempo e na distância do que desejámos para eles - para os nossos meninos e meninas - desta desenfreada e inclemente vida de Anjos e Demónios em que estamos inseridos. E a tudo acorremos, de braços abertos ou fechados, de coração aberto ou cerrado, mas não desistimos; não... quando se é Mãe e se sabe sê-lo sem fugas para a frente...

Meu Deus, como dizer o que é ser Mãe...? Como explicá-lo... como ensiná-lo ou como designá-lo ante tanta displásica situação vivida por que uma mãe passa??? Não o sei nem o quereria aqui fazê-lo. É muito difícil e de uma complexidade tal que jamais alguém o poderá esmiuçar ou esmifrar.
Ser Mãe é ser um farol (que nunca avaria) sempre alerta; no melhor e no pior, na saúde e na doença, na riqueza e na pobreza e, do nascimento à cova que, Deus (para quem é crente) ou o Universo, na melhor das hipóteses, nos concede. E que nunca nos dá descanso. Ou sossego, de darmos por finda a nossa tarefa, a nossa missão na Terra de ser humano que somos em género feminino como agora se diz.

Ser Mãe é ser Tudo! Tudo mesmo! Até o ser bruta, estúpida e por vezes muito intolerante. Só não maltratante; isso não! Ser Mãe, é ser assim uma espécie de saco de boxe mas também o contrário, o oposto disso, sentindo que temos sempre um colo ou um ombro para chorar e receber as fragilidades, as deformidades ou apenas as «cataclísmicas» consequências do normal processo de desenvolvimento e acompanhamento desse seu crescimento. E choramos com eles e elas; e amamos com eles e elas (em versão dupla e intensa do que nos é devido) pois tanto os entendemos, quando entendemos, ou somente nos enganamos, tentando que eles e elas nos aceitem - no fundo, como também nós somos (Mães) apenas mães, com todos os nossos defeitos também...
Ser Mãe, meus caros, não sendo de todo fácil como já disse, é talvez a mais bela obra missionária, peregrina ou subtil que há no mundo em não cobrança (pelo menos assim deve ser...) em espaço-tempo do que nos é permitido auferir e conduzir na vida em espinhoso - mas identicamente maravilhoso - caminho de mães e filhos. Ainda hoje procuro saber, procuro descobrir ou desvendar (por atalhos ou caminhos há muito descobertos ou por outros ainda desconhecidos) o que é de facto ser-se Mãe, pois tanto há ainda por desbravar nesse percurso. Falhamos, erramos muito, mas com a certeza porém, de estarmos a fazer ou a buscar o nosso melhor para com quem demos a vida, trouxemos ao mundo e fizemos ver a luz do dia. Não somos perfeitas nem o queremos ser, somos apenas Mães. Só isso. E tanto que isso já é...!

Um Muito Feliz Dia da Mãe para todas as Mães do Mundo! Na Terra e fora dela... pois que haverá mães por todo este Cosmos que, paralela e similarmente, se nos compreenderá ou aceitará sem fazer julgamentos ou punição de maior - num Universo que expeliu o que é ser-se Mãe. E como isso é bom... sentirmos que tudo valeu a pena quando a alma não é pequena como diz o poeta. E Vivam as Mães da Terra! E Vivam as Mães do Universo, pois que acredito que hoje é mesmo o seu universal dia...! Sejam então felizes Mães de todas as Galáxias, de todas as Estrelas e, de todos os Universos, que hoje, só hoje, é o vosso dia. O meu também. Um dia muito feliz!