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terça-feira, 18 de julho de 2017

Memórias do Mar (I)

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Navios naufragados: Fantasmas adormecidos, submersos nas memórias do mar! (imagem do JN, exibindo os destroços do submarino alemão U-581 da Segunda Guerra Mundial encontrados no mar dos Açores, no dia 13 de Setembro de 2016).

Há quem lhes chame cápsulas do tempo. Há quem lhes consigne a maior fortuna em reduto último do conhecimento e da memória até aí ausentes, sobre tudo o que guardavam, sobre tudo o que legitimavam - e muitas vezes ocultavam - de mundanos segredos de rei e de alcofa, de tesouros  e arcas sagradas, revestidos todos, de uma miríade incomensurável de riquezas e outras pertenças que não haviam de onde houveram partido.

E muitos, no-lo puderam mostrar, pois jazeram para sempre nos despojos dos seus navios, nos destroços amaldiçoados desses fantasmas adormecidos que, hoje, se alumiam assim que os investigadores e homens do mar se anunciam, em total afronta e desventura, desta sua sonolência mórbida que dá protecção e guarida a todos no fundo do mar...

E das memórias que nos fica então: dos sussurros, dos sons magoados, destilados no tempo e sobre um vento que os não apazigua, dos lamentos, ou da ausência dos sonhos e das esperanças do que sobre tantos mares se domaram, tantos cabos se dobraram e tantas vidas se ceifaram...?

E quantos gritos ecoaram, quantas lágrimas se derramaram, quantas vidas pereceram ou quantas almas se perderam, por tanto lhes teres roubado, Ó Mar...?!

E se em vão tantos choraram e se em vão todos se perderam, por entre gemidos e lamentos, súplicas e tormentos, que dizer dos que ficaram sem chão para governar, sem tecto para albergar tanta dor, tanto desatino sem pertença ou avença de algo poder mudar...?!

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Náufragos: a mera existência ou desistência de quem fez História Marítima, por terra e por mar e deu voz a outros povos, outros ideais, outros mundos ao mundo na diáspora navegante da descoberta e da esperança mas também desesperança de ser ver botado ao mar...

«Os marinheiros olham num estupor o negrume absoluto e total desencadeado, olham-no como a morte, ligados aos mastros, sem uma ideia no crânio diante da catástrofe que redemoinha e grita. (...)
Durante dois dias vivi fincado a uma tábua, molhado da cabeça aos pés, e sem poder tirar os olhos daquele inferno».

                                                 - As Ilhas Desconhecidas, de Raul Brandão -
Cápsulas do Tempo
Há de facto quem o afirme: Que os navios afundados são cápsulas do tempo que congelaram no momento em que iniciaram a sua descida para o fundo, levando consigo armas, objectos pessoais, mercadorias e ideias. Que um navio afundado evoca, em simultâneo, tanto uma história trágica, como os mortos e desapossados costumeiros, mas também uma mudança inusitada, uma colecção esquecida de bens e artefactos abandonados que de repente se coloca ao alcance da nossa curiosidade, segundo as personalizadas palavras de Filipe Vieira de Castro, coordenador do programa de arqueologia náutica da Universidade do Texas, nos EUA (Texas A&M University College Station, USA).

«Ainda há tanta coisa desconhecida...!» Esta, a melodiosa ou quase perdida no horizonte mensagem, aberta agora ao mundo através de Vieira de Castro, ao referir-se a uma recente descoberta (em 2008/2012 em divulgação) de um navio português do século XVI, em Oranjemunde, na Namíbia.

Há aproximadamente duas décadas que este prestigiado investigador e acirrado estudioso das naus portuguesas se tem investido no desenvolvimento de modelos computorizados, baseados nos escassos achados arqueológicos disponíveis. E com ele - e outros - vamos então partilhar esta aventura de um ou mais mares que nos viram um dia ser mastro e corrente, solfejo e maré, aventura e vento; e tanto mais que nos ficou dos que, não voltando, nos quiseram entregar as suas últimas dádivas do que por lá deixaram...

Revela Filipe Vieira de Castro que, para os Arqueólogos e os Historiadores, os navios afundados encerram ainda respostas a perguntas ainda por responder, resolvem mistérios até aí sem solução. Afirma também de que, os navios foram durante milénios as máquinas mais complicadas que os homens construíram e, o estudo das ideias que orientaram a sua concepção e construção, é hoje um dos ramos mais apaixonantes da Arqueologia.

Concorda-se em absoluto com a sua visão, a sua autonomia e brilhante explicação do que nos fez outrora grandes e, hoje, um pouco e apenas mais distantes dessa heroicidade navegante de outros tempos, outras eras...

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Costa Vicentina: Cabo de São Vicente, Sagres - Portugal (imagem aérea que nos dá a óptica e percepção perfeitas da dimensão territorial e marítima que ladeia a costa portuguesa).

Tragédia e Oportunidade
Se para uns os navios naufragados são a tragédia anunciada de tantos desastres marítimos ao longo dos anos, das datas, mas também da certeza do muito que ainda há por desvendar no fundo do mar, existe hoje (como sempre existiu, convenhamos) a oportunidade abusiva e muito pouco altruísta de se saber governar com os despojos dos que sofreram e morreram em alto mar, dando à costa seus tesouros, seus arrecadados, e toda a sua escassa história marítima que aí teve um fim...

A rapina dos homens sempre endémica, sempre sequiosa dos bens de outros, fez acumular de outras histórias o que se hoje se pode ainda reportar de achados em mãos alheias e outros recatos perdidos no tempo; além a demanda geopolítica entre Portugal e Castela.

E dessa História Naval de guerras e batalhas se contam outros contos, como por exemplo, o passado nas galés portuguesas, no Cabo de São Vicente, em Sagres, em 1337 (perfazendo no dia 21 de Julho de 2017, 680 anos passados, em registo e anotação desta ocorrência de confronto entre estas duas coroas europeias, num desaguisado que levou ao afundamento de 6 galés portuguesas e de um número indeterminado de galés castelhanas).

Galés: Cabo de São Vicente (1337)
No dia 21 de Julho de 1337 encontram-se ao largo do cabo de São Vicente, em Sagres (Portugal) duas armadas: galés comandadas por Manuel Pessanha, outra de Castela com três dezenas de galés e naus, sob o comando de Dom Afonso Jofre Tenório.

A Guerra tinha sido declarada no ano anterior porque, entre outras razões, Dom Afonso IV de Portugal (curiosamente o rei mandante da execução de Dª Inês de Castro, o grande e eterno amor de seu filho Dom Pedro) parece que não se conformava com a forma como o seu genro - Dom Afonso XI de Castela - desprezava a mulher, a infanta portuguesa Dª Maria.

O Recontro entre as duas armadas já por várias vezes tinha sido adiado pela força de grandes temporais, obrigando ambas a recolher aos respectivos portos para reparações.
Finalmente, a 21 de Julho de 1337, iam medir forças. A batalha começou por correr de feição aos portugueses, que chegaram a apresar 9 galés ao inimigo, mas, devido provavelmente à entrada em acção das naus de Castela, o recontro acabaria com uma derrota portuguesa.

Quando Manuel Pessanha e o filho são feitos prisioneiros e, o estandarte real de Dom Afonso IV é derrubado, os navios sobreviventes portugueses põem-se em fuga. Rezam as crónicas de que o número de mortos e feridos foi muito pesado para ambos os lados e, Castela, fez ainda centenas de prisioneiros que obrigou a desfilar pelas ruas de Sevilha (como humilhação máxima) com cangas ao pescoço.

Do local exacto da batalha, no entanto, não há notícia. Sabe-se contudo que, algures ao largo do cabo de São Vicente, estará muito provavelmente o que resta de seis galés portuguesas e o tal número indeterminado ainda de tantas outras castelhanas. Uma mui má memória para ambas as partes, reconhece-se; de ambos os lados também...

Todos estes dados históricos foram recolhidos do inestimável trabalho histórico-científico de Francisco J. S. Alves, do Centro Nacional de Arqueologia Náutica e Subaquática de Lisboa (Portugal); além o seu talento, tarefa acumulada de mais de 6000 casos de navios naufragados, e a indefectível dedicação à causa da salvaguarda do património cultural subaquático (assim como à dos seus admiráveis colaboradores) que editaram uma obra magnífica de título: «A Costa dos Tesouros» da qual me empenhei em extrair esta referência de 1337, o que desde já agradeço ter o privilégio de ler deliciosa e enigmaticamente todos os textos aqui apresentados.

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Moeda Portuguesa (de cunho real da era quinhentista/seiscentista, no que se admite haver o cunho preciso entre 1525 e 1538). O que o mar outrora colheu e reverteu agora, no deserto da Namíbia, sob os destroços ainda visíveis de uma nau portuguesa do século XVI, de 1533, «O Bom Jesus». Uma empresa da Indústria Mineira descobriu-o e Portugal omitiu-o, ou antes, abdicou da sua pertença...

A Caça ao Tesouro...
Partindo de Lisboa (a 7 de Março de 1533, numa bela sexta-feira) rumou a Goa - na Índia - este navio, O Bom Jesus, que zarpou das costas portuguesas sem saber que se afundaria, para mau grado de seu Rei e Senhor e toda uma população faminta de glórias e fortunas (que se avolumavam com as descobertas e as recentes trocas comerciais entre eles), transportando a bordo um verdadeiro tesouro das Índias...

Moedas de ouro, estanho, cobre e marfim, além de cerca de 300 pessoas (tripulação e comitiva) numa constituição de marinheiros, soldados, padres, nobres e escravos, que tiveram igual sorte e destino de naufrágio num afundamento de pessoas e bens que foi também requisitado ao mar na época por um magnânimo espólio de canhões de bronze, lingotes de cobre, instrumentos de navegação, utensílios domésticos também em cobre (tal a riqueza revelada sobre a coroa portuguesa), espadas, mosquetes, cinco âncoras e um sem número de moedas de ouro - portuguesas e espanholas - e muitos outros artefactos de alto valor cultural e científico.

500 anos afundado e, em excelente estado de preservação, segundo nos relata o arqueólogo Dieter Noli em divulgação à Fox News de um verdadeiro tesouro que se estende por cerca de 13 milhões de dólares e um valor incalculável histórico! Valores que reverterão todos para o governo da Namíbia por suposta e altruísta «generosidade» do governo português que teve a «hombridade» (em sua hermética opinião) de o não requisitar mas antes doar sem aconselhamento, divulgação ou mera compreensão do povo português em tão alto e nobre gesto (incompreensível para muitos) desta generosidade alheia a todos nós. Provavelmente enriquecemos e não sabemos...

Fosse vivo Dom Francisco de Noronha hoje - o capitão português do Bom Jesus - e de novo desfaleceria ou deixar-se-ia afundar com o seu navio, por tamanha carga prestigiosa e rica lhe ter sido sacada de igual modo, pior do que a da guarida e coral aos peixes, que não a outra de uma sua não-bandeira, de uma outra pátria imerecida.

Pior do que não atravessar o cabo da Boa Esperança, é sentir que se não fez justiça a si e aos seus de dentro do seu navio, após cinco séculos de muita espera e pouco desafio - e final infeliz - para quem merecia de facto mais, muito mais! Pena ter-se sido capitão ou comandante português numa salva de desonra e algas, numa salva de desperdício e nada!

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Moeda de Prata raríssima encontrada e que, os arqueólogos identificam como moeda de 1499, aquando a entusiasmante descoberta dos destroços de uma nau naufragada de pertença e comandos de Vasco da Gama, o famoso descobridor português do caminho marítimo para a Índia.

O sonho desfeito de Esmeralda...
Entre 1502 e 1503, Vasco da Gama seguindo numa frota de cinco naus fez-se ao mar, em direcção para a terra das especiarias (Índia). Esmeralda e São Pedro seguiam lado a lado, mas quis o destino que a nau Esmeralda sucumbisse e deixasse para sempre todas as outras.

Acredita-se que Vasco da Gama não tenha ficado feliz nem soalheiro de sorriso ao ver perder uma sua nau para aquele endemoninhado mar de todas as tormentas. Uma tempestade, em 1503, desfez-lhe o sonho de seguir caminho; desta vez, devido à intempérie e não ao seu mau génio de homem dos comandos, de lobo do mar, que aí fez sentir. E tal como a tempestade, se viu esbracejar perante o agitar do mar e toda a sua impotência para o evitar, provocando-se inevitavelmente o naufrágio do navio Esmeralda, na costa da ilha de Al Hallaniyat, na região de Dhofar, em Omã, no Médio Oriente.

O que os arqueólogos hoje afirmam, apesar desta descoberta se ter realizado em meados de 1998 (data da celebração dos 500 anos sobre a rota de Vasco da Gama à Índia), só por volta dos anos de 2013/2015 até agora, é que se aprofundaram nas investigações subaquáticas, segundo informação publicada em 2016, na revista científica internacional «Journal of Nautical Archaeology» que pertence à Sociedade de Arqueologia Náutica de Inglaterra, no Reino Unido.

Um espólio, veio a saber-se depois, de mais de 3 mil artefactos retirados do mar e previamente analisados, em Omã, mas jamais devolvidos à precedência, ou seja, à República Portuguesa; mais uma vez...

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O que o mar esconde e os mergulhadores profissionais, arqueólogos marinhos e demais cientistas se maravilham na descoberta e, honra, do que em secretos lamentos estes fantasmas adormecidos lhes contam...

Retornando ao Bom Jesus...
A ironia de todas as ironias: este navio português do século XVI, quedar-se pela tempestade mas jamais pelo que não lhe coube observar nos reluzentes areais da Namíbia, onde o navio português, destroçado e quebrado, se viria a afundar numa misteriosa costa envolta em nevoeiro - salpicada com mais de 100 milhões de quilates em extensão e profundidade - na mais pura crueldade de que há memória sob os escombros ou esqueletos sem alma de todos os que aí pereceram, sem que vissem esta afortunada riqueza, desafortunada de todos eles!

Carregado de ouro e marfim, nunca chegaria a bom porto, um famoso porto recheado de especiarias na costa indiana. Afundado sobre um tesouro nunca visto, foi a empresa NAMDEB (um consórcio do Estado e da empresa privada De Beers) que se envolveu nesta expedição (não na descoberta em si mas na de minério U-60) quando, junto à foz do rio Orange, na costa meridional da Namíbia, se deparou com tão frutuoso achado.

Nada passou despercebido então a este geólogo, funcionário desta empresa nesse projecto de mineração (de minas ricas em ouro), observando um lingote de cobre que mais tarde se descobriria tratar-se de pertença de um dos mais ricos ou abastados homens da alta finança da Europa Renascentista - Anton Fugger.

D.João III exultava riqueza e concomitantemente disseminava-la através das suas famosas rotas mercantilistas e de comércio agora aberto entre a Europa, África e Ásia. Era digno de muitas invejas, supõe-se; mas neste caso o que interferiu foram somente as tempestades, ao que se sabe.
Só sob a areia escaldante daquela praia surgiram 22 lingotes; canhões e espadas, marfim e astrolábios como já se referiu, mas ainda mosquetes e cotas de malha. Tudo derramado, despojado de seus fins.

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Moedas de cunho portuguesas e espanholas; entre outras. Outros achados, completam igualmente esta e outras descobertas de moedas de valor incalculável (o reportado na imagem refere-se exactamente ao adquirido de um tesouro de mais de 1 milhão de euros de um navio-almirante espanhol que naufragou ao largo da costa da Florida (EUA) em 1715, devido a um furacão); descoberta esta realizada por uma família de mergulhadores.

Neste particular caso do Bom Jesus, o espólio hoje analisado e devidamente identificado está em pose do Estado da Namíbia. Porquanto isso, vão-se intensificando averiguações e demais investigações entre cá e lá (Portugal e Namíbia) em maior cooperação na procura e análise de mais dados sobre este tão poderoso achado de El-Rei e Senhor, Dom João III, Rei de Portugal! E dos Algarves!

A Excitação Arqueológica
Tantos os tesouros de tantas glórias - e quiçá misérias - agora afundadas e tão lastimadas que não reavivaram memória alguma de tal tragédia, terão dito todos, os que na pátria ficaram e os seus não viram voltar, jamais, e sobre o tanto de desperdício e tragédia; ou tanta desdita, por terras longínquas e não suas, por terras distantes de amores não seus...

Os Arqueólogos souberam-no em primeiro; não foi necessário exteriorizá-lo, pois que há muito sabiam, por estudos e convénios, do que se trataria esta tão rica nau do glorioso tempo dos Descobrimentos Portugueses aquém e além mar.

O enfoque dado e o estímulo demonstrado, veio coadunar e reagrupar um pouco mais, se tal seria possível, este evento em fantástica descoberta de nau naufragada por meados de 1533, mais exactamente a 7 de Março desse nefasto ano, teriam dito os marinheiros moribundos, quase desfalecidos de todas as glórias.

E que mãos cheias de ouro seriam, mãos cheias de nada agora, pronunciariam ainda no estertor de suas parcas vidas em busca da luz da morte...

Ouro, muito ouro, para mais de 2 mil belas e pesadas moedas (muitas, cunhadas com as esfinges de Fernando e Isabel, os reis católicos de Espanha) e requintadas armas portuguesas de cunho e brasão real da Casa-Mãe Portuguesa, da coroa e nação de El-Rei Dom João III e, ainda, muitas outras moedas: venezianas, islâmicas, florentinas, etc.

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Estuário/Foz do rio Laranja (Orange River estuary), na Namíbia - na costa ocidental de África - onde se descobriu fundeado o navio português do século XVI de Dom João III (de cognome "o Piedoso" e "o Colonizador") pertença da Coroa Portuguesa à época...

O que dizem os entendidos...
Segundo relatou Francisco J. S. Alves, o já mencionado e excelentíssimo arqueólogo-veterano nestas andanças, do mundo subaquático português, chefe da Divisão de Arqueologia Náutica e Subaquática do Instituto de Gestão do Património Arquitectónico e Arqueológico  do Ministério da Cultura e consultor da edição portuguesa da National Geographic:

«Sabemos tão pouco sobre estes navios antigos. Esta, é apenas a segunda nau escavada por arqueólogos; todas as outras foram pilhadas por caçadores de tesouros». Mas afere ainda: «É uma oportunidade única!».

Francisco Alves reverbera de que os caçadores de tesouros nunca serão aqui um problema, e di-lo com toda a severidade possível de quem sabe do que fala. Reitera então: «Não aqui, no coração de uma das minas de diamantes, mais bem guardadas do mundo, numa costa cujo próprio nome "Sperrgebiet" significa - Zona Proibida - em alemão.

Os funcionários do consórcio suspenderam as operações em redor do local do naufrágio, contrataram uma equipa de arqueólogos e, durante algumas semanas de esplêndida distracção, escavaram História em vez de diamantes».

Algo que Filipe Vieira de Castro também corrobora e sublima, enaltecendo:
«Ainda há tanta coisa desconhecida... Estes destroços vão proporcionar-nos novos conhecimentos sobre tudo - desde o projecto do casco ao cordame, à maneira como estes navios evoluíram, às pequenas coisas do dia-a-dia, como por exemplo, a forma como cozinhavam as refeições a bordo ou os bens que os marinheiros traziam consigo nestas grandes viagens».

Ao abrigo entre uma parceria entre Portugal e a Namíbia, os Ministérios Portugueses da Cultura e dos Negócios Estrangeiros, permitiram assim a deslocação de uma equipa de peritos nacionais ao país africano. Menos mal, admite-se.

Os Arqueólogos satisfeitos com esta bonomia entre Estados, referem que só assim se pode chegar a melhores ou mais eficazes conclusões sobre o achado, no que já clarificaram algumas questões como, a de se encontrarem muitas moedas espanholas entre as portuguesas, no que os historiadores vêem complementar acrescentando tratar-se de algo absolutamente natural, uma vez que havia à época uma grande influência ou participação vorazmente activa/forte na armada de 1533. Ou seja, havia mais força e trato no que os unia do que o que os separava... entre Portugueses e Castelhanos, vulgo espanhóis no seu todo, mesmo sobre a separação ténue ou união dos seus reinos de Aragão, Leão e Castela em poderio exemplar!

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Mar dos Açores (Portugal): destroços de submarino alemão da Segunda Guerra Mundial.

Descobertas no fundo do Mar...
13 de Setembro de 2016: os destroços do submarino alemão U-581, utilizado na II Guerra Mundial,foram encontrados a quase 900 metros de profundidade no mar dos Açores por uma equipa de investigadores da Fundação Rebikoff-Niggeler.

O Naufrágio do submarino alemão da Segunda Grande Guerra encontra-se situado a sul de São Mateus - na ilha do Pico - declarou à agência Lusa, Kristen Jakobsen (que conjuntamente com o marido, Joachim Jakobsen) encontrou os destroços do submarino, entretanto transformados, segundo a própria, num autêntico recife de coral de águas frias.

Este corajoso e mui observador casal sobre águas profundas dos Açores - uma vez que aí vivem há já 17 anos (na ilha do Faial) - admitiu tratar-se de um achado fantástico. Kristen adiantou que sabia tratar-se do submarino alemão U-581 que foi afundado a 2 de Fevereiro de 1942 pela própria tripulação junto à ilha do Pico, após ter sido perseguido e atacado pelo navio inglês «HMS Westcott».

Kristen Jakobsen sublinhou ainda com toda a distinção sobre este submarino:
«O naufrágio tornou-se num autêntico recife de coral de águas frias; está a 870 metros de profundidade e, na minha opinião, é uma oportunidade para estudo científico - grande - porque foi colonizada por corais, sobretudo esponjas. Estamos perante ecossistemas vulneráveis, dos quais se sabe ainda muito pouco sobre as taxas de crescimento».

O que Kristen Jakobsen veio instar, há muito os investigadores se debruçam, no que, muitas vezes, estas carcaças de navios abandonados à sua sorte subaquática, desde sempre, acabam por servir de casulo, habitat e desenvolvimento de populações marinhas diversas (nesse tal ecossistema vulnerável sim, mas muito caprichoso e de certa forma auspicioso), se tivermos em conta o que ainda há e haverá por explorar sobre as espécies que se atolam com os navios/submarinos nas profundezas.

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Astrolábio Português (do século XVI) no fundo do mar da Namíbia. Portugal foi longe, sobre a terra e sobre o mar. Quão longe mais se irá, se o deixarem, se o engrandecerem, sob a égide dos Descobrimentos não de outrora mas da actualidade (em profusão e desenvolvimento, investigação arqueológica e marítima) sobre riquezas de todos os tempos... E que riqueza maior não será que a do conhecimento que não a do açambarcamento, se todos ganharmos com isso?!

Deixai falar os do Conhecimento...
«(...) É difícil pensar na História da Humanidade sem pensar em barcos, em marinheiros e em viagens. Muito antes de haver agricultores e pastores, já havia Marinheiros!
A colonização da Austrália, que só pode ter sido feita por mar, data pelo menos de há 60.000 anos, fazendo prova das navegações oceânicas mais antigas que se conhecem. Estudos recentes, levaram alguns cientistas a colocar a hipótese de ter havido uma migração da Península Ibérica para o Continente Norte-Americano há cerca de 12.000 anos.

Esta teoria baseia-se em semelhanças encontradas no ADN mitocondrial dos membros de uma cultura do Paleolítico Superior Ibérico - o Solutrense - e dos povos da cultura pré-histórica Clovis que ocupou o continente americano desde pelo menos há 11.600 anos. Mas muito embora esta e outras teorias sobre navegações transatlânticas no Pelolítico europeu não estejam ainda sólida e definitivamente provadas, sabemos contudo que desde há mais de 9000 anos, os Gregos do Peloponeso se aventuravam pelo mar dentro.

Na Gruta pré-histórica de Franchthi encontraram-se instrumentos feitos de obsidiana obtida na ilha de Melos - a mais de 100 quilómetros da costa - datando do oitavo milénio antes de Cristo.

A História das Navegações Europeias é assim longa e rica e, como se sabe, Portugal desempenhou nela um papel muito especial. É pena que a maioria dos Historiadores e Arqueólogos se tenha dedicado quase exclusivamente ao estudo do período da Expansão Europeia  pós-Medieval, porque Portugal tem uma história de viagens marítimas que remonta ao final da Idade do Cobre e, se estende até à revolução do vapor e ao estabelecimento de carreiras regulares entre Lisboa e Porto.

As Costas Portuguesas foram visitadas e habitadas por inúmeros povos mediterrânicos durante o primeiro milénio antes de Cristo e, mais tarde, durante o milénio que se seguiu, foram invadidas e populadas pelos Romanos, que foram provavelmente os melhores construtores de navios de Pisa e Génova, que também eram dos melhores da Europa de então. Mas não é só a Construção Naval Erudita que interessa aos arqueólogos.

A Pesca e a Pirataria foram um motor do desenvolvimento da construção naval durante a Idade Média com uma importância incontornável para os historiadores.

Portugal continuou a enviar navios à Índia, à China, à África e ao Brasil, e o tráfego nos portos portugueses durante os séculos XVIII e XIX era intensíssimo. (...)
Todos estes navios diferentes sulcaram as águas portuguesas e muitos por cá se perderam. Alguns, desintegraram-se para sempre, outros foram recuperados pelas populações ribeirinhas, outros destruídos por processos naturais, por redes de arrasto, dragas e mergulhadores desportivos, outros jazem no fundo ainda à espera de ser descobertos pelos mergulhadores da nossa Era (...)».

         - Extracto parcial das sábias e mui dignas palavras de Filipe Vieira de Castro (Texas A&M University College Station), na introdução do livro sobre os Enigmas da Costa Portuguesa: «A Costa dos Tesouros» -

Um abençoado muito obrigado pela disponibilidade de conhecimentos com que nos abraça nesta causa da costa portuguesa e de seus navios outrora cheios de vida -  enfunados e não contrariados - dessa sua outra missão de segurar ânimos e esperanças (que não morte e desesperança) através dos tempos ou dos destroços ainda não descobertos por alguns de nós.

Um Muito Obrigado em nome de todos os Portugueses e Portuguesas ( e povo do mundo) que desejam e merecem saber mais de seus antepassados de braçais condições e outras afeições, e de seus navios atracados, ainda hoje, no fundo do mar...  em vagas memórias que sempre para si ficam...