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quarta-feira, 26 de março de 2014

A Sumptuosa Estela


Estela F - Ruínas de Quiriguá - Região Oriental da Guatemala           América Central

Quem terá auxiliado com instrumentos de precisão e utilização na pedra, os artistas Maias, sabendo-se que foram realizadas essas esculturas sem a ajuda de quaisquer ferramentas de metal? Terão os visitantes das estrelas aí cingido seus conhecimentos superiores de construção, escultura e arquitectura estelares nestas maravilhosas e surpreendentes estelas de Quiriguá?

O Segredo das Estelas de Quiriguá
Entre os mais enigmáticos testemunhos da cultura Maia contam-se as ruínas de Quiriguá, no vale do rio Montagua, na região oriental da Guatemala. Estão situadas no meio de extensas plantações de bananeiras e, integram actualmente a lista de monumentos que a UNESCO considera Património da Humanidade.
Da antiga e grandiosa estrutura da cidade, pouco restou para além de alguns templos. Aquilo que torna Quiriguá tão interessante são as enormes estelas de arenito, artisticamente trabalhadas, e os grandes blocos de pedra ornamentados que sobreviveram à passagem do tempo.

História Antiga Desconhecida
Já no Período Pré-Clássico Final (c. 250 a. C.-300 d. C.) na região em redor de Quiriguá deveria estar habitada por um povo conhecido como Putun Maya, mas sobre a história antiga de Quiriguá pouco se sabe.
Os conhecimentos actuais acerca da história política da época são resultado do costume que os soberanos Maias tinham de registar os seus nomes e feitos, bem como as datas de acontecimentos políticos e jubileus, em estelas, em altares e nos revestimentos das construções. Os avanços na decifração de «glifos Maias» feitos nas últimas décadas permitiram entretanto obter traduções das inscrições bastante exactas e fiéis.
Sabemos hoje que Quiriguá estava estreitamente ligada a Copán - um importante centro Maia bastante próximo - situado nas actuais Honduras. Enquanto Copán, com as suas estelas de aspecto barroco, é de certo um dos mais notáveis testemunhos urbanos da civilização Maia, Quiriguá permanece injustamente ainda pouco conhecido, muito embora as suas esculturas de pedra se contem sem qualquer sombra de dúvida entre as mais consumadas obras da escultura Maia em pedra.

Sob o Domínio de Copán
Até ao século VII d. C., a cidade esteve sob a influência da poderosa Copán. É possível até que fosse a partir de Copán que Quiriguá fosse governada. Quiriguá deverá ter-se revestido para Copán de grande interesse, dada a sua situação geográfica, que lhe permitia controlar uma importante rota comercial no rio Montagua entre a costa das Caraíbas e as regiões do interior. Para além disso, a região em redor de Quiruguá era rica em poderosas pedras de jade, muito apreciado e valorizado em toda a América Central.
A extracção e o comércio do jade terão com certeza contribuído em grande parte para a prosperidade de Copán. Ainda em 563, Fumo Imix Deus K - o soberano de Copán (628-695) - festeja numa inscrição no altar L de Quiriguá o seu domínio sobre essa mesma cidade.
Menos de um século mais tarde acontece algo inesperado: a pequena cidade vassala de Quiriguá, ao longo de séculos mantida sob o domínio da poderosa cidade vizinha, derrota o Rei de Copán. Que terá sucedido?

A Revolta Contra Copán
Em 725, o Rei Uaxaclahun Ubak K`awil, que significa exactamente «18 Coelho», veio a Quiriguá para aí assistir á entronização do Rei Cauac Céu. A visita de um rei a uma pequena cidade do seu reino era algo bastante incomum: é possível que, dada a crescente preponderância que Quiriguá vinha assumindo, o rei tenha querido colocar um parente seu no comando do poder dessa cidade, para assim manter a sua influência. Do Rei Cauac Céu, pouco se sabe, para além do facto de 13 anos após a sua entronização ter feito Uaxaclahun Ubak K`awil, o Rei de Copán prisioneiro, não tardando a mandar matá-lo ritualmente.
Aquilo que aconteceu para que tal pudesse vir a suceder permanece por esclarecer. Talvez Quiriguá tenha ousado desafiar à outra cidade maior a hegemonia sobre toda a região; talvez tenha havido combates, mas pouco mais se pode fazer para além de especular.
Nessa altura havia dois centros de poder no grande reino Maia: Tikal e Calakmul. Provavelmente, Copán era um dos sequazes do poder de Calakmul, ao passo que Quiriguá alinhava por Tikal. Talvez o soberano de Tikal estivesse interessado em ficar com a influente cidade de Copán sob o seu domínio, forçando assim Quiriguá a desafiá-la e, a atacá-la. Só com a retaguarda assim coberta poderia o Rei Cauac Céu ousar revoltar-se contra a supremacia da poderosa Copán. Fossem quais fossem as razões que conduziram a esta surpreendente vitória, não há dúvida que ela abriu caminho a um período de grande prosperidade da cidade de Quiriguá, o qual se faz notar nas enormes e sumptuosas estelas.
Influente centro administrativo e palco de importantes actividades cerimoniais, este local dominou o comércio com toda a costa do mar das Caraíbas e, as regiões vizinhas das terras altas e terras baixas. O apogeu de Quiriguá viveu-se ainda ao longo de todo o reinado de Cauac Céu, que durou 60 anos, bem como no subsequente, o reinado do seu filho Céu Xul e, no que a este último se seguiu, o reinado de Jade Céu, que derrubou Céu Xul por volta de 800.

A Produção das Estelas
As estelas reflectem o elevado grau de consciência do valor que a cidade de Quiriguá teve ao longo de uma época áurea que durou todo um século. Para se fazer jus aos feitos extraordinários dos artistas Maias, dever-se-à ter em conta de que estas esculturas de arenito avermelhado foram realizadas sem a ajuda de quaisquer ferramentas de metal. Os únicos instrumentos à sua disposição foram cinzéis de pedra, percutidos por maços de pedra ou de madeira. Os grandes blocos de pedra eram extraídos e cortados em colinas de arenito, situadas a cerca de 4 quilómetros de distância, de onde eram transportados em cima de jangadas através de canais de irrigação até Quiriguá. O arenito de Quiriguá é bastante mais duro do que a pedra calcária da qual é feita a maioria das restantes construções Maias. Por essa mesma razão, os detalhes não foram nas estelas tão trabalhados do ponto de vista ornamental como acontece em Copán, mas apesar de tudo os escultores conseguiram obter surpreendentes efeitos naturalistas e, aqui e ali, até algumas representações de grande valor.

Mas tudo nos deixa inquiridores sobre a verdadeira dimensão de transporte, condução e construção destas sumptuosas estelas, uma vez que, não teria sido nada fácil toda essa sequência em parcos haveres, parcos meios de transporte em singelas e mui primitivas jangadas, nas quais se chega a duvidar da consistência em arremesso e locomoção marítimas (nesses tais canais de irrigação) em equilíbrio e, sustentação. Os blocos de pedra imensos de tonelagem enorme sob esteiras de troncos de madeira. Terá efectivamente sido mesmo assim? Não terão havido ajuda e supervisão estelar em conhecimentos, elevação e edificação destas estelas e blocos incomensuráveis em toda a sua magnitude de peso e fortificação? Deixemos no ar as muitas perguntas que ainda hoje se põem, perante tamanha suspeição e alguma polémica gerada em torno destas mesmas existenciais dúvidas. Talvez algo superior e vindo do exterior lhes tivesse augurado algo de maior e de grande valor em conhecimentos e técnicas nunca vistas à época. Quem o saberá?
Que se investigue, se questione e se elabore a verdade, pois só isso importa! A bem de todos!

terça-feira, 25 de março de 2014

A Renovação da Vida


Baixo-Relevo no Campo do Jogo da Bola em Chichén Itzá- Península Mexicana do Iucatão

Que conhecimentos ancestrais seriam estes em morte e renascimento na passagem pelo mundo inferior até à renovação da vida que os Maias nos deixam reconhecidos e expostos nos baixos-relevos aqui representados? E que mistério de vida e morte é este, ainda hoje indecifrável e tão enigmático para nós?

O Campo do Jogo da Bola - Chichén Itzá
O mais impressionante campo destinado ao jogo da bola encontra-se em Chichén Itzá, no Norte da península de Iucatão. Este enorme campo de jogos tem 138 metros de comprimento e 40 de largura. No extremo sul e no extremo norte encontram-se pequenos templos, cujo interior esteve outrora ricamente decorado com cenas mitológicas e dos quais apenas muito poucos permanecem em bom estado de conservação. Invulgares são os portentosos muros de delimitação do campo de jogo, que se erguem na vertical até aos 8 metros de altura. A meio do comprimento do campo - a uma altura de 7 metros - destacam-se os anéis de pedra, com um diâmetro interior de 50 centímetros e decorados com duas serpentes entrelaçadas e representadas em relevo. A dimensão do campo de jogo de Chichén Itzá e dos anéis colocados a essa altura parece querer indicar que, neste local, se jogava segundo determinadas regras e com recurso a técnicas diferentes das do resto do território do Império Maia. Talvez neste campo de jogos de grandes dimensões se defrontassem sobretudo grandes equipas.

Morte e Renascimento
Num enorme baixo-relevo em Chichén Itzá, onde está representado o significado mítico do jogo da bola, pode ver-se um jogador ajoelhado e sem cabeça. Do seu pescoço jorra o sangue sob a forma de serpentes. À sua frente está um outro jogador que segura numa das suas mãos a cabeça decepada do adversário e na outra, uma faca de sílex. Trata-se de uma imagem que ilustra a decapitação e morte de Hunahpú.
Simultaneamente, aquele sangue que jorra para o alto, como que de uma fonte, transforma-se numa espécie de ramificada árvore da vida, um símbolo da eterna circulação da morte e do renascimento. Este contexto surge também referido no Popol Vuh, o mais importante Livro dos Maias: Ahpú, o deus da Fertilidade, transforma um ramo seco na árvore da vida, verde e carregada de frutos. Esta maravilha torna-se possível através do sacrifício da divindade, que por meio do seu sangue faz a árvore recuperar o seu viço.

Encenação de um Drama Mítico
Estas cenas sangrentas contribuíram para se reforçar a ideia de que no final de um jogo a equipa derrotada era sacrificada, ou porventura mesmo os vencedores. Não existem quaisquer indícios concretos para justificar tais afirmações, sendo bem possível que nestas imagens apenas se represente simbolicamente o mito dos gémeos heróicos. Demonstra-se assim as estreitas relações existentes entre o jogo da bola e o mito e, que esse jogo, deve ser entendido como uma interpretação de um drama religioso, uma encenação para recordar acontecimentos que tiveram lugar «no tempo antes do tempo».
No palco do jogo da bola, os príncipes de aspirações divinas encenam-se a si mesmos como heróis míticos. Por mais de uma vez desceram ao mundo inferior para aí medirem forças com aqueles que o governavam e, para superar a morte. Esta estreita relação entre o jogo da bola dos Maias e o mundo inferior, resulta em última análise também da própria disposição do campo de jogo: os muros de delimitação paralelos representam um desfiladeiro, através do qual se tem acesso ao mundo inferior.

O Crânio de Hunahpú
No campo do jogo da bola de Chichén Itzú, as paredes de delimitação são precedidas de muros mais baixos, com cerca de dois metros de altura, ornamentados com belíssimos baixos-relevos onde é representado por imagens o mito do jogo da bola dos gémeos divinos. Nestes baixos-relevos reconhece-se uma espécie de procissões, cada uma com cerca de 14 elementos, orientadas num sentido de uma cena central, onde se pode ver o crânio de Hunahpú no interior da bola - evocando o episódio mítico do Popol Vuh, quando o seu irmão gémeo é forçado a jogar contra os soberanos do mundo inferior usando a cabeça do irmão como bola. A caveira na bola, que Ixbalanqué substitui por uma cabaça, é um símbolo da força vital de Hunahpú, assim transmitida para a geração seguinte.

Encenação mítica de acontecimentos «no tempo antes do tempo», o que quererá dizer muito antes de um maior conhecimento na Terra ou de outras civilizações exteriores ao planeta que, simbolicamente como mundo a compor, evocariam poderes extremos de uma extraordinária repercussão neste designado mundo inferior. Suspeita-se que não terão apenas sido figuras de índole mitológica ou ancestral em mitos e heroicidades contadas através do tempos mas, muito mais do que isso em suplantação voraz do que existia na Terra em origem e princípios básicos da Humanidade. Seriam estes gémeos, príncipes do Universo em eloquência e dinâmica estelar, denunciando-se assim tão poderosos e imortais, fazendo renascer pessoas e animais e mesmo eles próprios? Que poderes eram esses que os vivificavam em exuberante ressurreição, em renascimento e ascensão? Deuses...? Mágicos ou simples figuras inventadas pelos Maias em suplício e seguimento do que os seus soberanos lhes incutiam em devoção, receio e punição?
Nada se sabe. Mas tudo se pode ainda aventar sobre a sua real existência que não ficou apagada no tempo em memória, cultura e conhecimento. Talvez um dia - em revelação surpreendente - nos possam elucidar sobre a verdadeira origem, proveniência e real existência destes dois especiais gémeos que, na cultura Maia, serão sem dúvida e eternamente, um exemplo para as gerações futuras de perseverança e coragem!
Agora e sempre, a bem da cultura, do conhecimento e da verdade, assim seja então!

A Bola da Morte


Campo de Jogo da Bola - Civilização Maia - Copán                        Honduras-América Central

Quem seriam efectivamente estes gémeos de que tanto falam os mitos da criação dos Maias que urgiam poderes divinos (deuses ou seres superiores?) - de morte e ressurreição - perante a estupefacção dos senhores do mundo inferior? A vitória da vida sobre a morte será «apenas» a simbologia dos ciclos intermináveis de vida nos homens ou, a consagração vital de um poder maior sobre a morte em conhecimentos ainda não adquiridos por nós, humanos?

Questão de Vida ou Morte: o Jogo da Bola dos Maias
Em todos os centros mais importantes da cultura Maia na América Central encontram-se campos destinados ao jogo da bola perto de templos e de palácios. A sua localização imediatamente ao pé dos lugares de culto e as suas dimensões por vezes enormes - como é o caso do campo de jogo da bola de Chichén Itzá ou de Copán nas Honduras - dão conta da grande importância mítica atribuída pelos Maias ao jogo da bola.

O Jogo da Bola no Mundo Inferior
Nos mitos da criação dos Maias, fala-se dos gémeos divinos Hunahpú e Ixbalanqué, os quais desceram ao mundo inferior e venceram as forças das trevas e, da morte. No mundo inferior tiveram de defrontar os senhores do Reino dos Mortos num jogo da bola. Antes disso, os gémeos tiveram de superar diversas provas. Aquando do primeiro jogo da bola, os senhores do mundo inferior lançaram a bola contra a protecção para o pescoço que Hunahpú envergava, da qual caíram pontas afiadas e mortais de obsidiana. Apesar do violento recontro, os gémeos saíram vitoriosos.
Na última prova, porém - que teve lugar na Casa dos Morcegos - Hunahpú descurou a sua defesa e espreitou para fora da zarabatana, onde se havia escondido. De imediato, um dos morcegos mortíferos arrancou-lhe a cabeça. No jogo da bola da manhã seguinte, Ixbalanqué teve de enfrentar sozinho os deuses da Morte, tendo a cabeça do seu irmão servido como bola para esse jogo. Ixbalanqué usou de uma artimanha e substituiu a cabeça do seu irmão por uma cabaça. Quando a lançou para o campo de jogo, a cabaça rebentou contra o chão e as sementes espalharam-se, saindo disparadas.

A Superação da Morte
Os gémeos perderam o jogo e também Ixbalanqué foi morto. Os senhores do mundo inferior desfizeram os seus corpos e trituraram-nos, espalhando os seus ossos num rio. No leito do rio, os ossos voltaram a reunir-se e formaram de novo os corpos dos irmãos. Passados cinco dias, os gémeos emergiram do rio. Disfarçaram-se de pedintes e, impressionaram toda a gente com as suas danças e os milagres que operavam. Os governantes do mundo inferior ficaram curiosos acerca daqueles dois e mandaram chamá-los diante de si. Demonstraram-lhes como conseguiam matar um cão e de seguida devolvê-lo à vida.
A pedido então do soberano do mundo inferior, Ixbalanqué matou o seu irmão e voltou a ressuscitá-lo. Os senhores do mundo inferior ficaram tão entusiasmados que eles próprios queriam agora ser sacrificados e, novamente ressuscitados. Era finalmente chegada a oportunidade  de os gémeos divinos se vingarem deles.
Abriram o peito dos senhores do mundo inferior, arrancaram-lhes os corações e deixaram ali ficar os cadáveres, não cumprindo a segunda parte do pedido - a da ressurreição. Por fim, os dois gémeos heróicos, transformados em Sol e em Lua, ascenderam ao Céu. Foi assim que Ixbalanqué e Hunahpú destruíram o poder dos senhores do mundo inferior e venceram a morte.
Este mito relata a diversos níveis, a vitória da vida sobre a morte. Também a própria cabaça, da qual saem disparadas as sementes, constitui um símbolo de fertilidade, da superação da morte.

Equipamento e Regras
Há que ter em conta que, para os Maias, um jogo da bola não era simplesmente um evento desportivo, mas antes e acima de tudo, expressão e representação deste mito fundamental, intimamente ligado às noções de vida e de morte, do morrer e do renascer.
Para se protegerem do impacte das pesadas bolas de borracha contra o seu corpo e, para evitar escoriações nas quedas frequentes que sofriam, os jogadores usavam em redor do tronco uma banda de couro em forma de ferradura, bem como joelheiras, luvas e cotoveleiras. As coxas e as nádegas eram protegidas por uma saia de couro vestida por cima de uma tanga.
Acerca das regras do jogo, pouco se sabe. Em todo o caso, no início a bola era lançada para o campo com a mão, mas depois disso já só podia ser tocada e impulsionada com as ancas e com a coxa. Não é ainda hoje conhecido o modo como os pontos eram contados nem tão-pouco como se decidia qual a equipa vencedora. As duas equipas concorrentes distinguiam-se uma da outra pela ornamentação que ostentavam na cabeça e no peito. Ao que parece, os utensílios para cobrir a cabeça podiam assumir formas variadas e bastante impressionantes. Na maioria das representações, apenas se vêem homens a entregar-se ao jogo da bola  e, apenas nas escadas cobertas de hieróglifos de Yaxchilán podem ser vistas duas mulheres a jogar à bola. É possível que houvesse muitas variantes deste jogo, desde uma competição entre duas equipas até ao jogo realizado apenas entre dois homens.

Os Campos do Jogo da Bola
Os campos para o jogo da bola dos Maias - nos quais se desenrola o drama mítico dos gémeos divinos e, em que se defrontam duas equipas - eram constituídos em regra geral, por duas construções compridas e paralelas em forma de muro, entre as quais ficava uma espécie de rua - o campo onde tinha lugar o jogo.
Os muros de delimitação poderiam apresentar diversas formas, mas a maior parte das vezes tratava-se de uma espécie de taludes com um declive acentuado. Só raramente apresentavam o aspecto do campo de Chichén Itzá, com os muros verticais. Do cimo desses muros inclinados - ou com degraus - costumavam ser lançados prisioneiros, que morriam em consequência da queda.
Ao longo do comprimento do campo encontravam-se quase sempre três pedras de marcação, todas elas equidistantes. Na maioria dos campos do jogo da bola, existe a meio do comprimento de cada um dos muros um anel de de pedra, através do qual a bola de borracha tinha de ser arremessada.

Nada se pode encerrar então, perante tamanha diversão maldita em que uns se limitavam a ver morrer outros numa condição humana subjacente à época, deveras cruel e ímpia para os nossos dias. Mais há a consolidar porventura neste estranho jogo em que rolavam cabeças, literalmente! Sem julgamentos mas com a observação exacta destes relatos expressos nestas construções de pedra, cingiremos apenas a compleição (e não prossecução) deste tipo de jogo poder voltar a não ser em simulação histórica destes conturbados tempos em que o valor da vida era escasso e não perfeito ou considerado. Registando este período e esta cultura dos Maias - fazendo referência ainda aos divinos gémeos que se evidenciaram por poderes superiores no tal mito da criação - somente restará dizer que muito haverá por esclarecer ainda, tanto da parte destes, Hunahpú e Ixbalanqué, como de toda  a sua influente história aí havida. Terão sido efectivamente seres superiores, inteligentes e magnificentes que deram uma lição aos senhores do mundo inferior, ou apenas a magia ilusória e, imaginária, relatada ao longo dos tempos em maravilhoso mito eterno? Aqui ficam as perguntas para que, ao longo destes novos tempos também, alguém nos possa elucidar, reescrevendo essa mesma história dos Maias e...nossa! Que assim seja então!

segunda-feira, 24 de março de 2014

A Noção do Além


Museu de Popol Vuh - escultura em pedra                         Guatemala

A busca da imortalidade, ainda que passando pelo mundo inferior, terá levado estes povos a acreditar nessa meta paradisíaca da vida eterna à semelhança de Hunahpú e Ixbalanqué que foram deificados ao superar a morte? Que forças superiores ou vindas das estrelas seriam essas que ainda hoje há quem as venere e tente alcançar, sentindo conhecimentos e energias infinitas de inteligências do Espaço em visitas e reconhecimento?

Os Livros do Sacerdote-Jaguar
Para além do Popol Vuh, também o Chilam Balam se afigura de grande interesse para a nossa compreensão do povo Maia. Chilam Balam quer dizer exactamente «Intérprete do Jaguar» e, as obras agrupadas sob este título constituem os chamados «Livros do Sacerdote-Jaguar», colectâneas de textos na língua Maia Iucateca, mas escritas no alfabeto latino. Foram coligidos nos séculos XVII e XVIII a partir de diversas fontes, o que poderá explicar a sua pouca fiabilidade e as contradições de que enferma, já que têm origem em textos preexistentes de épocas diversas - tanto antes como depois da chegada dos Espanhóis. Para além disso, a própria veracidade das fontes também não foi confirmada pelos escrivães das aldeias, gente simples, responsáveis pela sua fixação por escrito.
Apenas cerca de uma dúzia dos outrora numerosos livros que compunham o Chilam Balam chegaram até aos nossos dias. Recebem o nome das aldeias em que foram registados por escrito e conservados. O mais importante e um dos mais abrangentes deste conjunto de textos é o Chilam Balam de Chumayel. Também nesta obra é narrado um mito da criação, segundo o qual o mundo que existia antes deste foi destruído por um dilúvio, tendo o presente mundo resultado do facto de terem sido plantadas árvores divinas nos cantos e, no centro do Universo, nas quais estavam pousados os pássaros do destino.
Os 4 cantos do mundo são o esquema que serve de base para a orem cósmica. A eles correspondem simbolicamente cores, ventos e até variedades de milho. Quatro divindades, «os bacabs», suportam os cantos do mundo. Esta configuração básica do mundo numa forma quadrada é espelhada pelos Maias nas pirâmides que constroem, tornando-se estas assim uma expressão visível da ordem cósmica que os rege.

Noções do Além
Da leitura do Popol Vuh, dos livros do Chilam Balam e dos códices dos Maias, consegue-se então perceber o quanto a crença na continuação da existência numa vida após a morte se encontrava enraizada neste povo.
O tratamento da questão da morte desempenhava um papel preponderante no seu quotidiano e nos seus ritos. Ao contemplar-se as construções dos Maias, reconhece-se sem grande esforço o destaque que é dao a este tema e, a importância que deve ter assumido na sua sociedade. Já o biblioclasta Diego de Landa refere no século XVI, o costume indígena de encher a boca dos mortos com milho triturado e com pedaços de jade, para servir de moeda de troca no Além e aí nuca lhes falte de comida.
Daí se percebe de que, o Além dos Maias não era uma região abstracta, mas apenas um outro tipo de vida, na qual também se tinha de comer e beber, sendo mesmo necessário ter dinheiro para obter comida. Para os que permaneciam vivos, aqueles que morriam mantinham-se vivos enquanto seus antepassados.
Os Soberanos e os Sacerdotes podiam ainda em vida deambular entre esses dois mundos, o Aquém e o Além, mas após a sua morte não deixavam - tal como todos os outros seres humanos - de ter de atravessar o mundo inferior, mas podiam - tal como os míticos gémeos Hunahpú e Ixbalanqué - ser deificados ao superar a morte.

Os Códices dos Maias
Com a incineração de livros Maias pelos missionários quinhentistas, desapareceu assim a possibilidade de se obter um conhecimento aprofundado desta cultura. A magnitude daquilo que o mundo perdeu pode ser avaliada mediante a leitura dos 4 códices que sobreviveram. Três deles são designados pelo local onde se encontram, a saber, Dresden, Paris e Madrid. E um quarto, o de Grolier, leva o nome de um local onde pela primeira vez foi exposto, o «Grolier Club», em Nova Iorque.
Os manuscritos consistem em folhas de casca de figueira, misturada com amibo e batida até ficar lisa, tendo as páginas sido dobradas como o fole de um acordeão. Sobre a camada de cal aplicada por cima, foram desenhadas imagens e caracteres gráficos. Nos códices são narrados mitos, explicadas noções religiosas, o Calendário Maia, relações astrológicas e vaticínios.
Das representações de numerosos deuses pôde ser decifrado o Panteão Maia nos seus traços mais gerais - embora se mantenha pouco claro o significado de algumas figuras divinas.

Nestas figuras divinas, as quais se mantém ainda hoje uma dúvida existencial, do que eventualmente poderão ter sido em revelia ao que se supõe de meras figuras representativas desse Além. Seriam astronautas ancestrais, sendo igualmente civilizações estelares que lhes difundiriam a questão da imortalidade e da suposta viagem estelar após as suas vidas terrenas? Seriam deuses à sua semelhança em exterior camuflado como o que se vê na figura inicial representando um viajante espacial de armadura de fato correspondente, nada igual ou similar aos seu povo Maia? Para além da visibilidade facial (coberta por um capacete de cariz espacial como os astronautas actuais) em que se deslumbra um nariz afilado e feições caucasianas, tangível de povos nórdicos - nada correspondente às dos Maias, de cor avermelhada e rostos salientes, bojudos.
Certezas não as há (ainda...) mas já se começa a elaborar algumas teses a nível mundial sobre esta e outras mais criteriosas figuras de pedra, talhadas e esculpidas em demonstrações visíveis - e por demais evidentes - da influência destes eventuais visitantes do Espaço em crença e seguimento religioso nestes povos da América Central e Sul do extenso continente. E mesmo, noutros pontos do globo. Assim ter ocorrido, só urge acrescentar de que essa noção do Além ainda hoje - na actualidade - nos faz de igual forma questionar e mesmo insinuar, se não teriam razão de facto os Maias, sobre tão liminar questão sobre o Aquém (mundo inferior) e o Além (as estrelas) e todo um poder imortal, assim que se deixasse solo terrestre em morte anunciada...sendo deificados como todos o desejaríamos um dia, mais que não fosse, em busca de uma certa harmonia, equilíbrio e paz eterna que todos almejamos possuir um dia. Nem que seja nesse dito Além!
Pois que assim possa ser em arrogo futuro do que nos observa e guia como seus iguais! A bem das nossas eternas almas, assim seja então!

A Queima dos Livros


Popol Vuh - Livro Sagrado dos Maias                   América do Sul

"Aqui começa a antiga lenda dos Quchés, aqui se descreve o início e as origens de tudo o que aconteceu na cidade e com o povo dos Quichés."                                                -  Popol Vuh -

Que mistérios e segredos não nos seriam desvendados se não fosse a incúria, desonra e arrogância maldita daqueles que, em nome de Deus, empunharam suas tiranas mãos em demanda terrível na queima destes sagrados livros dos Maias? Do que resta, poder-nos-à elucidar da origem do ser humano e de toda a sua luta homérica entre as forças da vida e da morte e, nas quais os deuses estariam sempre presentes?

Livros Misteriosos dos Maias
Popol Vuh - Uma epopeia que nos dá a conhecer o mito sobre a criação do mundo e, dos seres humanos em que os Maias da América do Sul acreditavam. A obra de Popol Vuh hoje em dia, é tida como a mais importante fonte de conhecimento acerca da religião dos Maias das terras altas do Período Pós-Clássico.
O Popol Vuh foi escrita por um indígena na língua Maia, mas com caracteres latinos. Foi devido ao padre dominicano Francisco Ximenéz que este texto não teve o mesmo destino que tantos outros, que foram queimados pelos missionários, deixando-o assim à disposição dos vindouros.
Francisco Ximénez chegou em 1688 à Gautemala - quando ainda era um jovem - aí foi ordenado padre e rapidamente aprendeu diversos dialectos Maias, uma vez que nutria um interesse sincero pelos indígenas e, pela sua imensa cultura. Em contrapartida, foi recompensado com a confiança que as populações indígenas nele depositavam, razão pela qual lhe apresentaram o «Popol Vuh», por assim dizer a sua Bíblia.
Francisco Ximénez ficou então deveras surpreendido ao encontrar no texto dos Quichés um relato acerca da criação do mundo e que, se assemelhava em parte, ao existente no Antigo Testamento. Até mesmo a um dilúvio era feita referência, bem como a uma travessia do mar e, a uma estrela brilhante.

A Migração dos Quichés
Originalmente os Quichés viviam na região em redor da cidade de Tula - a Norte da actual cidade do México - integrando-se no grupo dos povos Toltecas. No século XIII d. C. migraram para as terras altas dos Maias na Guatemala, onde se deu uma batalha decisiva com os habitantes dessas terras. Após a vitória dos Quichés desenvolveu-se uma nova sociedade, na qual a cultura guerreira dos Toltecas se fundiu com o temperamento mais pacífico que caracterizava os Maias. Divididos por 14 tribos, que usavam dialectos diferentes, os Quichés povoaram assim as terras altas. Em 1524, os conquistadores espanhóis destroçaram o reino dos Quichés e a sua capital, Utatlán.

Os Gémeos Divinos
Na primeira parte do Popol Vuh é relatado o mito da criação dos Quichés. Em primeiro plano encontra-se o combate realizado pelos heróicos gémeos Hunahpú e Ixbalanqué contra as sombrias forças do mundo inferior. Importância assume também o mito, em redor daquele que era o principal alinhamento das populações da América Central, o milho. A segunda parte desta epopeia conta a história dos Quichés, das suas migrações, das suas guerras, cidades e reis.
No Popol Vuh é relatado como as duas primeiras criações do ser humano são rejeitadas. O primeiro exemplar de um ser humano não era capaz de se lembrar de todo o contexto da criação, ao passo que o segundo despreza completamente a sua ligação à Natureza. A Natureza vinga-se então através de um dilúvio universal e, convocando ainda uma revolta dos animais contra os seres humanos. Particularmente emocionante é o modo como depois é relatada a entrada em acção dos dois gémeos heróicos, Hunahpú e Ixbalanqué, nascidos de uma virgem. São atraídos pelas forças tenebrosas ao mundo inferior, onde terão de medir forças com os senhores da morte num jogo de bola sagrado.
Com muita astúcia, esperteza e habilidade conseguem assim superar uma série de provas em que jogam entre a vida e a morte. Em vez de morrerem, os dois jovens renascem depois de se sacrificarem voluntariamente, vencem as forças do mundo inferior e, transformam-se no Sol e na Lua. O mito narra a vitória das forças da vida sobre as forças da morte. Este ciclo de narrativas em redor de Hunahpú e Ixbalanqué conta-se indubitavelmente como um dos mais impressionantes da literatura mundial.

A Mudança das Ideias Religiosas
A aventura dos gémeos heróicos Hunahpú e Ixbalanqué na sua luta contra as forças da morte encontra-se representada em diversos vasos pintados. Outros elementos da cultura religiosa (por exemplo, as cabeças usadas como troféu ou o culto dos embrulhos da cariz religioso, nos quais eram guardados os ossos dos antepassados para serem venerados) surgem já em representações da Época Clássica dos Maias das terras baixas. Tal como surge referido no Popol Vuh, os Quichés pós-clássicos da Guatemala adoravam o deus Tojil. Este tinha para os Maias pós-clássicos do Iucatão um carácter divino semelhante ao do deus da chuva Chac, cuja representação ornamentava as fachadas dos edifícios mais importantes.
O Período Pós-Clássico consistiu numa fase de mudança nas aldeias religiosas. Das concepções religiosas dos Toltecas do México Central, os Maias pós-clássicos das terras altas receberam e adoptaram como seu, o deus da Morte e do sacrifício humano, Xipe Totec, bem como o deus Serpente Emplumada, a quem chamavam «Q`uq`ku-matz» (Quetzalcóatl). Ainda assim as suas ideias religiosas e os mitos que se explicavam, mantiveram-se muito próximos dos do Período Clássico, tendo-se assim mantido também até ao presente.

A Queima dos Livros
Diego de Landa ficará na História pelas piores razões: em Julho de 1561, o bispo de Iucatão de seu nome e berço Diego de Landa (1524-1579), mandou queimar diversos códices dos Maias. Esta terrível acção de destruição da herança cultural dos povos indígenas - e é por ele justificada no seu livro "Relación de Las Casas de Iucatán" do seguinte modo: "Estes povos usam também uma espécie de sinais gráficos, com os quais preenchem os seus velhos livros e, aí tomam nota dos seus negócios e questões científicas desde há muito. Com base nestes sinais  e em desenhos e, ainda em determinados sinais nos desenhos, entendiam-se em relação aos seus assuntos - tornavam.nos compreensíveis a outros e forneciam ensinamentos sobre eles. Encontramos uma grande quantidade de livros com esses sinais e, como estes mais não continham do que superstições - e as mentiras do Diabo - queimámos-los todos, algo que esta gente lamentou de um modo incompreensivelmente intenso e que lhes trouxe muita dor."
Foi deste modo cínico e assaz déspota que Diego de Landa e muitos outros missionários cristãos tentaram «libertar» os Maias das suas tradições diabólicas...ficando para a História o expurgo miserável e irrecuperável em toda a sua dimensão do que o Homem pode fazer mesmo contra si próprio e, à sua imensa cultura universal! Sem delongas, apenas nos resta acrescentar que não possuindo esse maravilhoso espólio que incinerado ficou, haverá por certo em tradição de gerações vindouras - do que se conhece dos Maias - toda uma continuada reprodução dessas suas histórias em cultura e vivência.
Popol Vuh e Chilam Balam, códices-base de toda a investigação da cultura Maia, em expressão escrita do que podemos extrair na ilação cósmica e universal da criação do Homem, sendo para as gerações futuras algo a reter e a considerar tanto nas forças da vida como da morte que ainda hoje nos suscitam respeito, temor e consideração. Não esqueceremos a cultura Maia nem os seus livros sagrados, os que ficaram e...os que arderam na imensa fogueira humana da ignorância e, da incompreensão! A bem do conhecimento, assim seja então!

sexta-feira, 21 de março de 2014

A Esperança II


Figura na rocha de Nossa Senhora - Mãe do Céu e da Terra e de todo o Universo - Serra da Estrela - Portugal

Poderei sobreviver a esta angústia no peito que me depõe em lágrimas como humana que sou em vias de extinção, escorraçada por tantos no Universo, sentindo-me diminuída, substituída e pior, sonegada do Grande Conselho Confederativo Galáctico? E Siul, que culpas não tem sobre a minha destituída linhagem, sofrerá ele também as amargas consequências da sua união comigo?

A Punição
Há regras. Há imposições dadas e arremessadas pela Nova Ordem da Confederação Galáctica das quais eu faço parte e me não resignei, sublevando valores, princípios e assomos meus de total incoerência e obstinação sobre tudo o que queriam que eu seguisse. Nem o sábio-mor esteve do meu lado, não por sofrer iguais represálias se acaso me auxiliasse mas, por eventualmente não querer quebrar esse grande elo de preservação e continuação de guardião-mor que é nos demais. E teve razão. Eu não o podia sujeitar a desrespeitar regras universais que a todos nós foi imposto de nos não imiscuirmos ou induzirmos nas condições de outros que não os da nossa espécie. Siul é proveniente de Alpha Centauri e muito diferente dos da minha raça ou espécie humana quase extinta na Terra. Veio em missão após deixar Marte, o planeta satélite, planeta-base onde estava a trabalhar, coexistindo no mesmo sistema solar do meu planeta Terra.
O primeiro olhar foi quase fatal. Eu fazia investigação biológica para as futuras repercussões agrícolas e de sementeiras no solo terrestre em combinação com outros elementos meus amigos e colegas do mesmo ofício mas, em vertentes de engenharia e produção em massa. Não era feliz nem infeliz. Sabia ter de me esforçar por devolver à terra em solo e à Terra-planeta a nova existência de outros produtos férteis, de outras descobertas análogas aos que um dia este meu amado planeta tão viçosamente recolheu em si. Mas quando vi o Siul tudo mudou. Desestabilizei por completo a minha cuidada atenção, a minha audaz persistência e loquaz pesquisa de intervenção sobre essas minhas teses de estudo e verificação. Quase dei tudo por perdido, só por ter-me deixado por instantes observar ou...perder-me naquele brilhante olhar de cor verde, cor de prados e planícies em que me distingui logo sua. E ele também! Daí à punição foi um pequeno passo mas enorme para mim que de repente o vi levarem-mo para sempre, julgava eu. A Confederação não perdoa deslizes, falhas, distracções, leviandades e muito menos traições. Fui trasladada de imediato para outra cidade capsular, algures fora do planeta mas que me apercebi ser solo lunar. A estrutura prisional era deveras rigorosa e hermética. Ninguém de lá saía a não ser com um visto interestelar de importância máxima em superioridade ou hierarquia velada. Eu estava perdida. Irremediavelmente perdida, pois não tinha quem me valesse a não ser as minhas preces, as minhas orações que trouxera em pequeno livro, o único espólio ou bem deixado pelos meus pais terrenos sem que eu deles me recordasse sequer. Fui feita prisioneira sem honras ou compleição, piedades ou clemências de qualquer tipo de elemento ou existência galáctica. Estava só com a minha dor, a minha alma ferida e... o meu filho no ventre que sancionada por isso, eles ainda me haveriam de respeitar, perdoar e até elevar se o Deus Universal acaso suspeitasse de minha linhagem estelar! E isso...estava para breve acontecer, ainda que a minha alma me gritasse que eu penaria até as minhas ossadas latejarem por entre os escombros metálicos e frios daquela minha asséptica cela de ninguém!

O Perdão
Houve tomadas de posição. Houve mexidas nos corredores, ainda que a sonorização fosse quase uma masmorra ímpia e cerrada de poucos ecos e ainda menos sussurros, o certo é que suspeitei de que algo iria surgir em meu apelo calado, em minha agonia tresloucada de me ver emparedada à semelhança de infelizes princesas mortas nas Arábias da Antiguidade no meu planeta azul que agora era mais verde, tão verde como os olhos do meu para trás deixado, amado. E eu sofria. Latejava em cabeça pendente e em forças deslaçadas de um qualquer salvador me vir soltar, desamarrar desta tristeza, desta imensa letargia em que me encontrava suspensa. Até que o milagre veio. Fui admitida como elemento a integrar as novas forças e energias do Universo em uma nova oportunidade de vida e continuação em solo terrestre, pois que aí era a minha origem e proveniência, colo e berço, ainda que pouco ou nada desse tempo me lembrasse. E fui solta.
Só queria fugir mas sabia não poder tal. O Conselho de Confederação Galáctica ultimou-me de que teria de viver com parcos recursos na Terra e ser quase uma espécie de eremita ou sem-abrigo, tendo de viver do que a terra me daria, tendo de subsistir apenas com o que o Céu me presenteasse em chuva e água potável para beber, um solo de caverna para morar e...umas quantas espécies de sementes para semear. Nada mais! O perdão era mais um castigo do que uma absolvição em historial inquisitivo do que me dei ares de conquistar, quebrando as suas ordens e, limitando-me a seguir as minhas. De pouco me importei de início. Só queria de dali sair em espaço, vontades e obrigações de voar para longe, de voar para a minha bela terra de campos agora mais abertos e vida a despontar. Mesmo que, sozinha! Mas recordava os nossos momentos, meus e de Siul em que ele me abraçava em todo o seu portentoso e másculo físico, denotando-se a diferença entre ambos. Os seres de Alpha Centauri são belos, muito belos! São altos, de porte atlético e de inteligência acima da média universal. Era muito fácil apaixonarmos-nos por estas criaturas endeusadas e magnificentes que por vezes sentíamos olharem-nos com um certa indiferença e mesmo displicência, tal a sua superioridade física e, intelectual. Não me deixei atemorizar com essa tão fraca perspectiva de nem sequer dele obter um vago olhar, batalhando por chamar a sua atenção deste sobre mim até o ter conseguido da pior maneira possível em que esbarrei literalmente contra si, fazendo-o desequilibrar mas não estatelar, pois era muito forte, tão forte quanto os touros Ápis de outrora, considerei. A partir daí ele foi meu e eu dele, levando-o a incondicionalmente a desrespeitar as suas próprias regras de se não misturarem em mestiçagem com «gente da Terra»! Mas misturou-se. E, no meio de valsas de cio e luxúria não inconsequente, fizemos um filho! Sentia-lhe o cheiro, sentia-lho o odor e o desejo fervoroso de estar em mim e eu nele e tudo eu lhe concedia em amores que nunca havia tão intensamente vivido numa fragrância mista e mítica de dois seres no Espaço, de duas almas dissonantes mas confluentes no que ambas queriam, desejavam e...amavam.

A Elevação
Deixaram-me na Serra que outrora tivera o nome de «Serra da Estrela», ao qual senti um frémito de ansiedade e de bom prenúncio, assim que vi a Nossa Senhora de pedra em altiva mas apaziguadora atmosfera de me recolher no seu seio de mãe presente. Chorei sobre a pedra, chorei sobre os meus tristes ditames de terrestre maldita que tinha levado por maus caminhos aquela espécie de deus-astronauta do planeta Alpha Centauri. Todos se me tinham oposto: desde os pacíficos e amistosos líderes das Plêiades, Orions, Sirius, Comsulis aos mais desafectos e tenebrosos Zeta Reticuli e Pousetis, todos eles me consignaram um triste destino, deixando-me apenas insinuar o local onde deveria ser pousada e mais tarde localizada por eles. Não dava mais para gesticular, argumentar ou sequer apelar às suas boas consciências estelares pois que, quem quebrava regras, tinha de se sujeitar ao julgamento final não de eliminação pessoal - pois esse era um hábito primitivo e jamais incluído nas suas muitas alíneas instituídas da Confederação Galáctica - mas antes, o desterramento, o exílio, o «Gulag perfeito» de alguém que se tinha injuriado a si mesmo, se tinha debelado por algo completamente inaceitável e nada tangível de todos esses capitais regulamentares de uma Confederação impiedosa! Aceitei a minha condição então de desterrada. Nada mais havia a fazer senão rezar de frente àquela minha Nossa Senhora ancestral que já muito vira porventura de desamparo e, sofrimento. A sós!
Mas só não fiquei. Ele veio. Contra tudo e contra todos, limitou-se a aventurar um novo mundo comigo e, por mim, disse-mo. Não lhe importava quem eu era, uma simples e saloia terrestre que apenas sabia de plantas e seus processos evolutivos moleculares e de desenvolvimento e...nada mais. Beijámos-nos e a Senhora de Pedra sorriu para nós, lá do alto do seu pedestal em santuário na rocha, consignando-nos o seu aval de piedade e clemência, beatitude e consagração a duas almas que se unem por amor, independentemente de regras pré-estabelecidas ou convénios de civilizações estelares!
Meses mais tarde veio a libertação, a fiel e devota absolvição de todas as culpas, de todos os pecados: o Conselho da Confederação Galáctica, assumindo erros e desculpas - porque nem mesmo eles estão acima das leis universais e, de alguma falha em brecha e disfunção estelar - e consagraram-me também eles, o ser de novo livre ou remetente de qualquer outra punição, castigo ou condenação que não fosse limpar o meu nome Aleunam de todas as injúrias sobre mim pungidas. Eu era descendente de Enki e de Ninmah e meu filho Anu se chamaria então, decidi desde sempre, no que seria o fiel seguidor deste em herança dinástica, genealógica e futura identidade do que me viu ser como humana e senhora do mundo em Universo finito ou infinito, consoante o Uno o desejasse também. Prometi a mim mesma: vou ser feliz! Vou ser muito feliz com Siul, Anu e o Céu e a Terra que nos unem e unirão para sempre. E por agora vou deixar esta escrita em diário futuro pois que Siul chegou, estou a ouvi-lo...estou a senti-lo nos passos e...na respiração que é a minha também do ar que é nosso em espaço-terra-ar e toda a matéria envolvente de nós os dois. É o amor da minha vida e com ele irei até ao mais escuro do Universo, ao mais reluzente sistema solar de estrelas ímpares...irei para onde ele for porque ambos somos um só ainda que...individualmente! Sou uma mulher muito feliz! Fui abençoada por Deus-Uno e por todas as estrelas, planetas e galáxias do meu lindo Universo!

A Rainha de Sabá


 
Ilustração publicitária actual mas que pode representar o imaginário comum do que teria sido a hipotética e mui poderosa Rainha de Sabá.

Terá efectivamente existido esta denominada Rainha de Sabá de que tanto a Bíblia fala, evocando toda a sua beleza, poder e dignidade ou apenas um subterfúgio para consolidar a imagem do Rei Salomão? Qual terá sido o seu verdadeiro nome e, onde estaria situado o seu reino? Teria sido profetisa, demónio ou anjo em que, todos os homens se vergavam à sua enorme beleza mas também sabedoria e sapiência?

A Rainha de Sabá - E o seu Reino Lendário
A rainha de Sabá ouviu falar da fama de Salomão e decidiu submetê-lo a um teste, através de enigmas. A comitiva que a acompanhou era grande e trazia consigo enormes quantidades de ouro e pedras preciosas. Salomão respondeu a todas as perguntas e a rainha de Sabá, forçada a reconhecer toda a sabedoria do rei, ficou estupefacta. Disse assim a Salomão: "É realmente verdade tudo o que tenho ouvido na minha terra acerca das tuas palavras e da tua sabedoria." Depois disso, ela deu ao rei 120 talentos de ouro e grande quantidade de perfumes e pedras preciosas.

Cimeira Política na Antiguidade
É assim que a Bíblia descreve uma das mais enigmáticas cimeiras políticas de todos os tempos. Um rei poderoso é posto à prova por uma mulher que lhe é equivalente em termos de poder e riquezas.
Muito embora a Bíblia não forneça sequer o nome próprio dessa rainha, ela foi capaz como nenhuma outra mulher até então de, durante séculos, despertar a fantasia dos vindouros - pois a ela pertenciam os mais sumptuosos tesouros do Oriente. Não tardou a tornar-se uma das lendas mais misteriosas de sempre: o encanto e o charme que irradiava deverão ter feito os homens render-se a seus pés uns após outros.
Sedutora e, de uma beleza exótica, foi como pintura e a literatura da posteridade a retrataram; até mesmo os filmes de Hollywood a retratam como um portentoso símbolo de erotismo. Mas impõe-se a pergunta: Terá de facto e realmente existido esta rainha? Tê-la-à a Bíblia inventado apenas para consolidar a imagem do Rei Salomão? Quando foi que viveu, qual o seu verdadeiro nome e, onde estava situado o seu reino?...
Não será então apenas uma só pergunta mas muitas questões em aberto que nos interrogamos sobre o historial desta fluente e bela Rainha de Sabá. As pesquisas arqueológicas encontram-se ainda no limiar de uma interessante demanda, para a qual todos os locais e vestígios temporais terão de ser cuidadosamente analisados e, verificados, com o rigor próprio de um detective.
Com base em tudo aquilo que hoje sabemos das fontes disponíveis, esta visita diplomática terá pretendido não tanto fomentar um romance real mas antes dar início a uma relação comercial, ao serem trocados bens de luxo por bens alimentares de primeira necessidade, dos quais os habitantes dos desertos árabes e, a sua rainha, necessitavam urgentemente!

Demónio ou Anjo
A Rainha de Sabá permanece envolta num estranho mistério de duplo sentido. Deverá ter sido vítima de uma malformação do pé, e por isso foi - sobretudo durante a Idade Média - frequentemente representada como tendo um pé aleijado coberto de pêlos, uma pata de cavalo ou mesmo uma pata de ganso, o que a tornava uma espécie de criatura do Diabo.
As lendas judaicas referem como à sua chegada ao palácio de Salomão ela foi dirigida por sobre um chão todo de vidro. Convencida de que iria ter de atravessar uma superfície coberta de água, ela sobe um pouco o vestido e deixa a descoberto os seus pés. Apesar disso, o Rei Salomão rende-se aos seus encantos e, desta singular relação, terá resultado Nabucodonosor - aquele que mais tarde foi o temido governante da Babilónia e conquistou Jerusalém.
Enquanto a Rainha de Sabá é aqui apresentada como uma sedutora demoníaca - ilustrando assim o medo que os homens sentiam de uma mulher forte com uma poderosa capacidade de atracção sexual - a malformação do pé da rainha é vista nas lendas cristãs de um modo positivo. Quando a rainha quis atravessar o Quidron - no vale entre Jerusalém e o monte das Oliveiras - teve uma visão profética. Das traves de madeira que constituem a estrutura da ponte, será um dia construída a cruz em que Jesus irá morrer. Não querendo por isso atravessar essa ponte, a rainha prossegue pela água e o seu pé aleijado e «demoníaco» vê-se transformado num belo pé de menina.
A Rainha de Sabá torna-se assim uma das primeiras profetisas que anunciam a vinda de Cristo, o Salvador que está para chegar. No Islão, é mesmo apresentada como uma discípula de Alá.

A Enigmática Terra de Sabá
Não passará a Rainha de Sabá de um produto da imaginação? De modo algum! - Defendem assim muitos investigadores. O reino de Sabá existiu na realidade. Foi a lendária Terra do Ouro e, do incenso das Arábias, e julga-se que a sua localização terá sido no Nordeste do actual Iémen.
O investigador alemão da Antiguidade Rolf Beyer acrescenta a propósito que, na História Antiga da região da Arábia, houve mais rainhas a governar do que propriamente reis. Esta misteriosa governante poderia também ter sido uma rainha nómada, pertencente a um povo que não usasse registos escritos. Uma vez que esta veio a Jerusalém «tão carregada de ofertas», Beyer admite também que a verdadeira intenção por detrás de tão numerosos presentes, fosse de facto a sugestão de uma ameaça militar considerável.

Regente de Ma ´in
Os presentes trazidos permitem tirar mais algumas conclusões em relação à terra de origem da visitante. Substâncias balsâmicas como o incenso e a mirra existiam naquela altura apenas na região sudeste de África ou no Sudeste da península Arábica. Com efeito, no século IX a. C. há um reino de Sabá que assume um papel de importância histórica na região, situado no actual Iémen. De acordo com as datações, apenas uma distância de cerca de 100 anos o separa do período de governo do Rei Salomão, entre 965 e 926 a. C.
É bem possível que a Rainha de Sabá tenha sido a governante do estado que antecedeu o dos Sabeus - o reino Mineano - cujas fronteiras se estendiam até à actual Jordânia. Através da Etiópia, os Mineanos tinham relações comerciais directas com o Egipto. Ter-se estabelecido então um contacto com Israel, não teria sido nada de extraordinário. Escavações levadas a cabo na antiga capital deste reino, Ma ´in, têm até hoje por razões políticas sido praticamente impossíveis.
Os segredos sobre a lendária Rainha de Sabá continuam por isso - e por enquanto - por desvendar. O seu mito continua vivo, mesmo na ausência de quaisquer vestígios arqueológicos que o comprovam.

Teorias para a Identidade da Rainha Makeda
A epopeia nacional da Etiópia defende que a sua dinastia real resulta de uma ligação da Rainha Makeda ao Rei Salomão. A história soa-nos familiar e possivelmente terá sido este o verdadeiro nome da Rainha de Sabá, só que esta narrativa é com alguma manha que Salomão a seduz.
Axum, a antiga cidade real da Etiópia, presta-se como ponto de partida para pesquisas históricas. Na boca do povo, a cidade é conhecida como «o local dos banhos da Rainha de Sabá», porém os testemunhos arqueológicos e, as inscrições passíveis de serem datadas, não recuam assim tanto no tempo. Ainda assim, subsistiu na Etiópia uma tradição judaica que remonta ao primeiro milénio antes da Era Cristã, pelo que é bem possível que as lendas em redor da figura da Rainha de Sabá se tivessem combinado com relatos bíblicos.

A Teoria de Hatchepsut
O autor russo e especialista em assuntos científicos Immanuel Velikovsky (1895-1979) chegou à conclusão de que a Rainha de Sabá poderia ter sido a rainha egípcia Hatchepsut. Para tal socorreu-se de duas teses: começa por datar todas as dinastias faraónicas para 500 anos mais tarde do que outros estudiosos - solução essa que lhe permite resolver algumas das contradições da investigação histórica neste campo.
Por outro lado, reporta-se ao historiador Flávio Josefo (século I d. C.), que se referia à misteriosa Rainha de Sabá como «Rainha do Egipto e da Etiópia». Relevos egípcios relatam uma expedição de Hatchepsut à «terra divina de Punt». Poder-se-à aqui estar a fazer uma referência à península do Sinai - pelo menos é o que parecem indicar as plantas representadas nos frisos dos templos - plantas essas que são comuns naquela terra. Esta seria com certeza a solução mais invulgar para um enigma antiquíssimo.

Da enigmática Rainha de Sabá desprende-se um estranho encanto que - desde há séculos - tem dado que pensar nos seres humanos de muitas culturas. A Rainha de Sabá a quem de resto nunca é atribuído um nome, é também identificada como Lilith - que na tradição judaica designa uma mulher-demónio ou bruxa.
Para encontrarmos as raízes da história de Lilith, teremos então de recuar ainda mais no tempo: 2000 anos antes de o Antigo Testamento ser escrito, existiu na epopeia de Gilgamesh a figura de uma Lilith que mais tarde se viu fundida com a Rainha de Sabá.
Só nos resta então acrescentar em dúbia questão entre a afabilidade e a repulsa do que terá eventualmente sido esta tão poderosa mulher da Antiguidade, em descrições bíblicas, exponencialmente também registada como uma das mais ricas, ostensivas e belas da sua época. Para além da efectiva (ou não...) vivência amorosa e de rasante e imortal paixão - ou verdadeira história de amor - entre ela e o Rei Salomão que terá «sucumbido» assim a seus pés, literalmente! Relatos da Bíblia determinam-na exemplar mas, terá sido efectivamente assim ou foi apenas o resultado de um mundo fantástico criado aí em imaginação vertiginosa e infundada em factos reais? Não o sabemos mas insinuamos de que, tão majestosa figura de tempos idos, o não pudesse ter sido unicamente de invenção histórica em mito ou lendas contadas através dos tempos. Mas isso agora, na actualidade, será trabalho árduo para investigadores e historiadores reporem. Assim o desejamos, assim o esperaremos de futuro! A bem do conhecimento, da cultura e da Humanidade!